Ser dona de casa não é trabalho?

Esta é a pergunta que algumas mentes mais esclarecidas formulam, aqui e ali. Adalgiza Arcada é mãe de 6 filhos, três são menores de idade. Os outros três, são estudantes do ensino superior e parecem encaminhados. Todavia, ainda vivem em casa com a mãe e o pai. O pai, funcionário público, tem um emprego de secretaria. Trabalha sentado em frente a um computador inserindo dados. Ao fim do dia, quando chega a casa, acha-se no direito de descansar no sofá, não ajudando a esposa em qualquer lide doméstica. Defende ser seu direito, enquanto fonte exclusiva dos rendimentos do agregado familiar.
Adalgiza Arcada levanta-se muito cedo para organizar a rotina diária. A saída dos seis filhos para as diferentes escolas assim o obriga. Prepara o pequeno-almoço de todos, incluindo o do marido, assegura que os filhos menores estão bem vestidos, penteados, que lavaram os dentes (os mais velhos não estão para isso…) e que levam um lanche para a escola. Ao mais novo de todos tem que se lhe mudar a fralda e, até há pouco tempo, amamentar.
Ao fim da tarde, quando a família regressa a casa, faz o jantar, serve-o a todos, lava os pratos e arruma, uma vez mais, a cozinha. Ajuda os filhos mais novos com os trabalhos de casa, tem dificuldades e perde tempo a consultar os manuais escolares para tentar compreender os exercícios, veste-lhes o pijama e muda a fralda do bebé, dá-lhes um copo de leite e verifica se eles lavaram os dentes. De noite, na cama, acorda várias vezes para sossegar as cólicas do bebé e mudar-lhe a fralda, caso necessário.
O que faz Adalgiza Arcada entre o almoço e o jantar, quando quase toda a família está fora? Descansa? Dificilmente. Nem que fosse pelo bebé. Este precisa de atenção quase constante. As cólicas abdominais frequentes não permitem um sono ininterrupto à mãe. Ainda tem de sair de manhã, de bebé ao colo, para fazer compras, o que envolve a visita a várias lojas se quiser aproveitar os preços mais baratos. Sim, Adalgiza está atenta aos preços e, às vezes, compra em maior quantidade, porque é proporcionalmente mais barato, circunstância esta que nem sempre agrada ao marido.
Regressa a casa, arruma e limpa o quarto dos filhos (de todos), limpa a casa de banho e a cozinha, prepara o jantar, o que envolve várias tarefas e alguma antecedência. As tarefas relacionadas com a roupa de sete pessoas não são despiciendas: lavar, secar e passar a ferro ocupam boa parte da tarde e, quando termina estas últimas, já alguns filhos regressaram a casa. Adalgiza não teve um momento de paragem, de descanso. Senta-se uns minutos para elencar as contas da eletricidade, água e outras despesas, num papel, facilitando, desse modo, o pagamento das mesmas pelo esposo. Mas são breves momentos de descanso… de descanso?
Esta é a rotina diária de muitas Adalgizas, inseridas no seu “pequeno” mundo doméstico, invisível para os decisores governamentais e para muitas das políticas sociais, sobretudo em culturas com base numa lógica patriarcal.
Pensar que a escola, que ensina e educa, prepara os alunos para se tornarem futuros cidadãos ativos e interventores na sociedade e ignorar o papel de educadora da mãe e dona de casa nesta equação é pensar pequeno, é pensar tacanho.
Adalgiza Arcada não tem um emprego remunerado e, não raro, encontra dificuldades em responder à pergunta: “Afinal o que é que fazes o dia inteiro!?”. Sim, porque, não sendo assalariada, para muita gente Adalgiza não “trabalha” e se não “trabalha” não paga impostos e não contribui para o desenvolvimento económico e social, nem para o progresso das nações. Todavia, Adalgiza Arcada sabe elaborar e gerir um orçamento mensal; sabe identificar prioridades na gestão doméstica, sabe da arte de comprar com economia e sabe aprovisionar (literacia económica), sabe elaborar refeições saudáveis a baixo custo e sabe da arte da manutenção saudável e higiénica de instalações. Adalgiza Arcada é, desnudando a complexidade da terminologia da gestão, uma gestora em quase todas as aceções da palavra.
Adalgiza Arcada é improdutiva. “É, Adalgiza?”. A mãe e dona de casa não tem um diploma académico, nem sequer um curriculum vitae, mas não se coíbe de afirmar: “Eu sou cozinheira, sou senhora da limpeza, sou babysitter, sou enfermeira, sou lavadeira, sou aconselhadora, sou gestora, sou professora, sou tutora, sou vigilante, sou alarme e sou segurança. Ainda me perguntam o que faço o dia inteiro ou se trabalho?”.
O dia 3 de novembro é o dia de Adalgiza Arcada, o Dia Mundial da Dona de Casa. Este dia tem como objetivo honrar a mulher por todo o seu esforço em tornar uma casa num lar, num espaço em que uma família possa viver confortavelmente e com as suas necessidades satisfeitas. Adalgiza Arcada é a anónima homenageada.
Nas sociedades modernas, Adalgiza Arcada é muito precisa e nada valorizada.
Daniel Damaia

