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Capoeira em Timor Leste: arte marcial ou manifestação cultural?

kapoeira

Autor: Teófilo J. M. de Jesus

Email: tjmdejesus@gmail.com

Ao longo do tempo, a capoeira ultrapassou as fronteiras do Brasil e estabeleceu-se em diferentes países, entre os quais Timor-Leste. A sua introdução no país ocorreu no contexto da presença de forças de paz brasileiras após a independência, tendo começado em 2002, quando um soldado brasileiro conhecido como Jesus passou a ensinar a modalidade no seu acampamento militar, situado no espaço onde atualmente se encontra o Tribunal de Primeira Instância de Díli. A Madre Damacena Eliene teve um papel importante nesse processo, ao levar um grupo de crianças e jovens até ao local, onde tiveram o primeiro contacto com a capoeira. A combinação entre os movimentos acrobáticos, a música, o ritmo e a dinâmica da roda despertou a curiosidade dos jovens, levando vários deles a iniciar treinos regulares no grupo MAC-Crianças Unidas. Apesar da mudança dos treinadores e da falta de espaços e equipamentos adequados, a prática continuou a desenvolver-se, proporcionando aos jovens não apenas a aprendizagem dos movimentos, da música, dos instrumentos e dos rituais da capoeira, mas também experiências de disciplina, amizade, convivência e intercâmbio com praticantes do Brasil, da Indonésia e de outras comunidades internacionais.

Os Primeiros Praticantes

A continuidade da capoeira em Timor-Leste foi construída por diferentes gerações de praticantes que, apesar de iniciarem os seus percursos em momentos e grupos distintos, acabaram por se aproximar através dos treinos, dos eventos e das relações estabelecidas ao longo dos anos. Jacinto (Canibal), Leonardo (Muleque), Julião (Chocolate) e Napoleão (Bonitinho) junto com as outras crianças começaram a praticar juntos, em 2003, no grupo MAC Crianças Unidas, mantendo a atividade mesmo depois da saída dos primeiros instrutores. A sua formação desenvolveu-se através da prática diária, da repetição dos movimentos, da participação na roda, da música e da convivência, num contexto marcado pela falta de espaços fixos, equipamentos e acompanhamento regular. Apesar das dificuldades de comunicação e da necessidade de conciliar a capoeira com os estudos, o trabalho e a vida familiar, mantiveram a ligação à modalidade e fortaleceram entre si relações de amizade, companheirismo e compromisso.

Napoleão (Bonitinho) contribuiu particularmente para essa continuidade e, em 2009, viajou com outros praticantes para Surabaya, na Indonésia, onde conheceram e treinaram com o Mestre Cacá, o Mestre Marcelo e o Mestre Cavaleiro. Esse contacto permitiu partilhar as dificuldades enfrentadas em Timor-Leste e reforçar a ligação à comunidade internacional da capoeira, preparando a aproximação mais estruturada à Capoeira Zungú. Essa relação consolidou-se em 2010, com a realização do primeiro batizado no Ginásio GMT, em Díli. Francisco (Zumbi) chegou à Zungú através de um percurso diferente, iniciado em 2005 no grupo Filhos de Timor e interrompido pela crise de 2006, retomando os treinos em 2008 junto dos praticantes ligados ao MAC Crianças Unidas e à Zungú. Canísia (Meia Lua) começou a praticar aos seis anos no MAC Crianças Unidas e aprofundou a sua formação a partir dos oito anos. Em 2017, estudou e treinou no Brasil, regressando a Timor-Leste em 2025, onde manteve a ligação à Zungú. O seu percurso tornou-a, atualmente, um exemplo singular de uma aluna avançada dentro da escola Zungú, demonstrando também a presença e a progressão das mulheres na capoeira timorense.

Diferentes escolas da capoeira em Timor-Leste

Com o desenvolvimento da capoeira em Timor-Leste, foram surgindo diferentes escolas e grupos, entre os quais a Zungú, a Muzenza e a Ginga Firme. Cada escola possui a sua identidade, os seus mestres e as suas formas de organização, embora todas partilhem elementos fundamentais da capoeira, como a roda, a música, os movimentos, a disciplina, a convivência e a valorização da cultura afro-brasileira. A existência de diferentes escolas criou vários caminhos de aprendizagem e permitiu estabelecer ligações entre praticantes de Timor-Leste, do Brasil, da Indonésia e de outros países.

Lukeno Alkatiri (Luke), atualmente Graduado da Capoeira Muzenza, iniciou a sua trajetória em 2002, depois de ter contactado com a capoeira em Singapura. Após essa experiência, esteve ligado à criação do grupo Filhos de Timor, juntamente com o seu irmão Ksolok. Embora esse grupo já não exista, constituiu uma etapa importante do seu percurso e da história inicial da capoeira em Timor-Leste. Para Luke, a modalidade representa amizade, alegria, família e comunidade. Através da capoeira, conheceu a sua esposa, também praticante, e estabeleceu relações com pessoas de diferentes países. Durante o período em que estudou no estrangeiro, procurava escolas de capoeira sempre que chegava a um novo lugar, encontrando nelas uma forma de criar amizades e de se integrar em novas comunidades. Na sua perspetiva, a capoeira deve ultrapassar as diferenças entre grupos e contribuir para a sociedade através da solidariedade, da alegria e da participação comunitária. Além disso, Adriel Pereira (Molinha) está ligado à Capoeira Ginga Firme, cuja origem se relaciona com Campo Grande, no Rio de Janeiro. Iniciou a prática aos sete anos e conta com cerca de 19 anos de experiência. A Ginga Firme estabeleceu contacto com Timor-Leste em 2009, contribuindo para a divulgação da modalidade no país, embora ainda não possua uma estrutura permanente de aulas. Molinha defende que as diferenças entre escolas não devem impedir a colaboração, pois todos os praticantes partilham uma mesma prática cultural. Para ele, o futuro da capoeira em Timor-Leste depende da capacidade de ultrapassar rivalidades, apoiar os diferentes grupos e participar conjuntamente em eventos, apresentações e atividades de divulgação.

Escola Cultural de Capoeira Zungú e a continuidade da capoeira em Timor-Leste

No dia 5 de setembro de 2026, o Mestre Cacá e o Contra-Mestre Iaco regressaram a Timor-Leste, acompanhados pelo Mestre Vítor Lobo, que visitou o país pela primeira vez, com o objetivo de dar continuidade ao trabalho desenvolvido ao longo dos anos. A visita incluiu um batizado realizado no Arquivo e Museu da Resistência de Timor-Leste, em Díli, sob o tema Raízes, Resistência e Futuro, reunindo centenas de praticantes com diferentes graduações e contando também com a participação de outras escolas de capoeira. O evento teve igualmente como finalidade assinalar a comemoração do Dia da Independência do Brasil, celebrado no dia 7 de setembro, reforçando os laços culturais entre o Brasil e Timor-Leste através da capoeira. Durante o evento de batizado, vários praticantes receberam novas cordas e outros trocaram as que já possuíam, num momento que simbolizou a progressão, a dedicação e a continuidade da formação. A presença conjunta dos três mestres permitiu recuperar relações, reencontrar antigos praticantes e aproximar novas gerações. Neste evento, Jacinto (Canibal), Leonardo (Muleque), Julião (Chocolate) e Francisco (Zumbi), Constâncio (Javali), Canisia (Meia Lua) e João  (Carranca), trocaram as suas cordas, alcançando a graduação de Graduado I, enquanto Napoleão (Bonitinho) recebeu a corda correspondente ao nível de Graduado II. Eduardo (Guardião), que não esteve presente no evento, encontrava-se igualmente entre os praticantes timorenses com graduação mais elevada na Zungú. Além disso, muitas crianças receberam as suas primeiras cordas, enquanto os adultos, nos níveis iniciante, intermédio e avançado, trocaram as cordas correspondentes ao seu nível de progressão.

A criação da Escola Cultural de Capoeira Zungú está diretamente ligada à trajetória do Mestre António Carlos Crivelente Cunha (Mestre Cacá). Durante a juventude, aproximou-se da capoeira quando procurava uma atividade física e praticava futebol. Inicialmente, queria aprender a executar um salto mortal para o utilizar nas celebrações dos golos, mas a prática rapidamente despertou nele um interesse mais profundo. Ao conhecer a música, os movimentos, a história e a convivência entre os praticantes, compreendeu que a capoeira representava muito mais do que uma atividade física. Em 2006, juntamente com outros graduados, fundou a Escola Cultural de Capoeira Zungú, procurando desenvolver uma visão baseada no respeito pela individualidade dos praticantes, na valorização das diferentes trajetórias e na construção de uma comunidade unida. Com o passar dos anos, o Mestre Cacá passou a compreender a capoeira como um instrumento de transformação social. Para ele, levar a modalidade a diferentes lugares significa transmitir conhecimento, alegria e história, criando oportunidades para aproximar pessoas e fortalecer comunidades. Esta visão esteve também presente na relação que estabeleceu com os praticantes timorenses. Mais do que ensinar movimentos, ele procurou acompanhar o desenvolvimento dos alunos, incentivar a continuidade dos treinos e transmitir uma conceção da capoeira fundada na amizade, no respeito, na aprendizagem e na união entre os praticantes.

A trajetória do Contra-mestre Iaco desenvolveu-se sob a orientação do Mestre Cacá. Ele iniciou a prática com o seu irmão Guilherme, em 1999, motivado pelo interesse em aprender uma forma de luta e em saber defender-se, mas, com o tempo, descobriu que a capoeira envolvia muito mais do que combate ou preparação física. A sua relação com a modalidade passou a incluir a música, a história, a ancestralidade, a estratégia, a disciplina e a expressão. Iaco acompanhou a criação da Zungú em 2006 e, em 2024, recebeu o título de Contra-Mestre, assumindo responsabilidades na formação dos praticantes e na continuidade do trabalho da escola. A sua experiência transmite a ideia de que a capoeira deve ser compreendida como cultura, conhecimento e forma de expressão. Por outro lado, o Mestre Vítor Lobo pertence a uma escola diferente da Zungú, mas mantém uma ligação especial com o Mestre António Carlos Crivelente Cunha (Mestre Cacá), de quem é afilhado na capoeira. Com uma longa experiência de prática e de ensino, compreende a capoeira como uma forma de educação, convivência, valorização cultural, resistência e união entre as pessoas. Para Vítor Lobo, as diferenças entre escolas não devem impedir a colaboração, uma vez que todos os praticantes integram uma mesma comunidade cultural. Ficou particularmente impressionado com a alegria e a energia das crianças timorenses, transmitindo uma mensagem de união, solidariedade e continuidade da capoeira no país.

A ligação da Escola Cultural de Capoeira Zungú a Timor-Leste ganhou uma nova dimensão em 2010, quando o Mestre Cacá se deslocou pela primeira vez ao país para participar num batizado de capoeira. A partir desse momento, regressou várias vezes, acompanhando os praticantes, orientando treinos e participando em eventos que contribuíram para consolidar a modalidade. Durante esse período, a Zungú passou a reunir praticantes com percursos diferentes, incluindo jovens provenientes do grupo MAC-Crianças Unidas e outros capoeiristas que se foram aproximando através dos treinos e das atividades. A continuidade desse trabalho foi interrompida durante a pandemia, mas a ligação entre os mestres e os praticantes manteve-se através daqueles que continuaram a treinar e a transmitir os conhecimentos adquiridos. Enfim, a capoeira em Timor-Leste continua a ser construída através da transmissão de conhecimentos, da formação dos praticantes e da união entre diferentes gerações. Confirmou também que a capoeira não pode ser reduzida a uma simples arte marcial, pois combina luta, música, dança, acrobacia, história, memória, educação, expressão corporal e construção comunitária.

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