Quando a Pátria Abre os Braços: O Regresso dos Prelados Timorenses

Soibada, 30 de agosto de 2026
Por: Nuno Horta Assis
Há momentos na história de uma Nação que ultrapassam a dimensão de uma simples cerimónia. São momentos em que o passado regressa ao presente, em que a memória de uma geração se encontra com a responsabilidade das gerações seguintes e em que uma Nação é chamada a reconhecer aqueles que, em diferentes circunstâncias, deram a sua vida ao serviço do seu povo. A trasladação dos restos mortais dos três Prelados timorenses de Portugal para Timor-Leste é um desses momentos. Mais do que uma trasladação, é um regresso. É o regresso à Pátria de homens que dedicaram grande parte das suas vidas a Timor, à Igreja e ao seu povo, homens que acompanharam momentos decisivos da nossa história e cujo testemunho permanece profundamente ligado à memória nacional.
Os restos mortais de Dom José Joaquim Ribeiro, Dom Jaime Garcia Goulart e Monsenhor Martinho da Costa Lopes, depois de muitos anos em Portugal, regressam agora à terra onde exerceram a sua missão. Em Díli, juntar-se-ão aos restos mortais de Dom Alberto Ricardo da Silva, permitindo que quatro Pastores da Igreja de Timor-Leste fiquem novamente unidos na terra que serviram. Não será apenas um reencontro de restos mortais. Será um reencontro de memórias, de histórias e de testemunhos que atravessam diferentes períodos da caminhada do nosso povo.
A história deste regresso, porém, não começou agora. Durante muitos anos existiu o desejo de que os restos mortais dos Prelados pudessem regressar a Timor-Leste. Era uma aspiração legítima e profundamente sentida, mas que permaneceu durante muito tempo sem encontrar as condições necessárias para se concretizar. O tempo passou, outras prioridades surgiram e a questão ficou, por algum tempo, guardada no silêncio da memória. Mas há assuntos que, por mais tempo que passe, nunca deixam de ter importância. Permanecem à espera de que alguém volte a pronunciá-los.
Foi assim que o processo começou novamente. E começou de uma forma particularmente simples, durante um almoço com o Presidente da República, Dr. José Ramos-Horta. Num ambiente informal, longe dos protocolos e das solenidades, surgiu novamente a conversa sobre os Prelados que permaneciam sepultados em Portugal e sobre a possibilidade de os seus restos mortais regressarem à Pátria. Era uma conversa simples, mas o assunto encerrava uma enorme responsabilidade histórica. Falávamos de homens que pertencem à memória de Timor-Leste, de Pastores que acompanharam o nosso povo em momentos particularmente difíceis e que deixaram um testemunho que merecia ser honrado na própria terra onde serviram.
Foi nessa conversa que senti que talvez fosse tempo de levantar novamente a questão. Não como uma iniciativa pessoal e muito menos como uma procura de mérito, mas como um dever de memória. Às vezes, um processo que ficou parado durante anos precisa apenas de alguém que tenha a coragem de voltar a abrir a porta. A partir daquela conversa, começaram novamente os contactos, as diligências e os entendimentos necessários. Foram envolvidos diferentes responsáveis da Igreja, autoridades civis, instituições timorenses e portuguesas e todas as pessoas cuja colaboração era indispensável para que o processo pudesse avançar com o respeito e a dignidade que os Prelados mereciam.
Foi um caminho feito com paciência e diálogo. Não pertence a uma só pessoa. É resultado da colaboração de muitos. Cada contacto, cada conversa, cada gesto de boa vontade e cada decisão tomada ao longo deste percurso contribuíram para transformar uma aspiração antiga numa realidade. E talvez seja precisamente essa dimensão coletiva que torna este regresso ainda mais bonito: uma memória que pertence a todos encontrou a vontade de muitos para poder regressar à Pátria.
Para compreender a importância deste momento, é necessário recordar quem foram estes homens e o lugar que ocupam na história da Igreja e de Timor-Leste. Entre eles encontra-se Dom José Joaquim Ribeiro, uma figura de particular importância na caminhada da Igreja timorense. Foi Bispo de Díli entre 1967 e 1977, sucedendo a Dom Jaime Garcia Goulart. A sua missão coincidiu com um dos períodos mais turbulentos da história contemporânea de Timor. Foi Bispo num território que atravessava profundas mudanças políticas e sociais e testemunhou diretamente alguns dos momentos mais dolorosos vividos pelo povo timorense.
Quando a violência e o sofrimento atingiram Timor-Leste, Dom José Joaquim Ribeiro procurou permanecer próximo daqueles que mais precisavam. A sua missão pastoral ganhou uma dimensão profundamente humana. Não se limitou às funções próprias de um Bispo; procurou estar junto das famílias, dos feridos e dos que sofriam, testemunhando uma realidade que exigia coragem e consciência. O seu percurso em Timor ficou marcado pela proximidade com o povo e pela defesa da dignidade humana.
A sua posição perante a realidade que testemunhava tornou-se cada vez mais difícil. Em janeiro de 1976, dirigiu uma carta ao Presidente indonésio Suharto, denunciando a situação que se vivia em Timor. Pouco depois, em 1977, deixaria a Diocese de Díli e regressaria a Portugal. A sua saída não apagaria, porém, a marca que deixou em Timor. Pelo contrário, o seu nome permaneceria ligado a uma das fases mais difíceis da história da Igreja e do povo timorense.
Dom José Joaquim Ribeiro viria a viver os seus últimos anos em Portugal, incluindo em Évora, cidade que agora assume uma importância especial nesta história. Foi precisamente em Évora que os seus restos mortais permaneceram durante muitos anos e foi também em Évora que, décadas depois, a sua memória seria novamente colocada no centro de uma cerimónia que preparava o regresso à Pátria.
A história de Dom José Joaquim Ribeiro está naturalmente ligada à de Dom Jaime Garcia Goulart, o primeiro Bispo de Díli. Dom Jaime pertenceu a uma geração pioneira da Igreja em Timor e dedicou uma parte significativa da sua vida ao serviço pastoral do povo timorense. Quando se olha para a sequência destes homens, percebe-se uma continuidade: Dom Jaime, primeiro Bispo; Dom José Joaquim Ribeiro, seu sucessor; e, posteriormente, Monsenhor Martinho da Costa Lopes, que assumiria a missão de Administrador Apostólico da Diocese de Díli. São diferentes capítulos de uma mesma história eclesial.
É também impossível recordar Monsenhor Martinho sem recordar a sua relação com o Dr. José Ramos-Horta. Durante um período particularmente difícil da luta timorense, os dois viveram juntos num pequeno apartamento em Nova Iorque. Era um espaço simples, longe dos grandes centros de poder e dos salões onde se discutia o futuro das nações. Mas naquele pequeno apartamento partilhavam-se conversas, preocupações e esperanças sobre Timor.
Monsenhor Martinho trazia consigo a experiência de Pastor e o testemunho direto do sofrimento do povo. Ramos-Horta dedicava-se à frente diplomática, procurando fazer com que a causa timorense permanecesse viva perante a comunidade internacional. Eram caminhos diferentes, mas unidos por uma mesma preocupação. A Igreja dava voz ao sofrimento e à dignidade do povo; a diplomacia procurava transformar essa realidade numa questão que o mundo não pudesse ignorar.
A imagem daqueles dois homens partilhando um pequeno apartamento em Nova Iorque é talvez uma das imagens mais humanas de uma história que muitas vezes é contada apenas através dos seus grandes acontecimentos. Antes dos discursos internacionais, das resoluções e das grandes cerimónias, existiam pessoas, conversas e sacrifícios. Existia uma luta feita também de momentos simples, vividos longe dos olhos do mundo.
Depois da saída de Monsenhor Martinho, Dom Carlos Filipe Ximenes Belo viria a suceder-lhe como Administrador Apostólico da Diocese de Díli. A história de Dom Ximenes Belo representa a continuidade dessa missão da Igreja junto do povo timorense. Num período igualmente difícil, tornou-se uma voz de defesa da dignidade humana, da paz e dos direitos do povo de Timor-Leste. O seu testemunho ultrapassou as fronteiras da Igreja e chegou à comunidade internacional. Em 1996, o reconhecimento desse trabalho e da luta pacífica pela liberdade de Timor-Leste alcançou uma dimensão histórica com a atribuição do Prémio Nobel da Paz a Dom Ximenes Belo e ao Dr. José Ramos-Horta.
Nesse mesmo período, existe outro episódio que hoje assume uma força simbólica extraordinária. Em 1996, Ramos-Horta visitou Dom Jaime Garcia Goulart nos Açores. Dom Jaime encontrava-se já numa idade avançada e fisicamente debilitado. A visita era, antes de tudo, um gesto humano de respeito e amizade, mas carregava também toda a história de Timor.
Durante esse encontro, Ramos-Horta convidou Dom Jaime a visitar Timor-Leste quando a independência fosse alcançada. Naquele momento, a independência ainda era uma esperança. O futuro permanecia incerto e ninguém podia saber quando chegaria o dia tão desejado. Dom Jaime viria a falecer em 1997, sem poder realizar em vida aquele convite.
Hoje, porém, aquele episódio pode ser visto sob uma luz diferente. Dom Jaime não regressa a Timor como visitante, como então fora desejado. Regressa para permanecer. Regressa para repousar definitivamente na terra onde exerceu o seu ministério. Regressa a uma Pátria que, entretanto, conquistou a independência.
É neste contexto que as cerimónias realizadas em Évora, nos dias 17, 18 e 19 de agosto, assumem uma importância tão particular. Durante três dias, Évora tornou-se lugar de memória, oração, homenagem e encontro entre Portugal e Timor-Leste. Ali se reuniram autoridades civis e religiosas, representantes das instituições timorenses e portuguesas, sacerdotes, religiosos, estudantes timorenses e membros da comunidade timorense para prestar homenagem aos três Prelados e acompanhar o início da última etapa do seu regresso.
A presença do Arcebispo de Évora, do Patriarca de Lisboa, do Cardeal de Setúbal, de vários Bispos, do Núncio Apostólico em Portugal e do Presidente da Câmara Municipal de Évora conferiu às cerimónias uma particular solenidade. Mas, para além dos cargos, das funções e dos protocolos, estava a memória de três homens que, depois de tantos anos, estavam finalmente a caminho de casa.
Évora tornou-se, por alguns dias, uma ponte entre duas terras e duas memórias. Portugal acolheu durante décadas os restos mortais destes homens; Timor-Leste preparava-se agora para os receber. A despedida de Portugal não era, contudo, apenas uma despedida. Era o início de um reencontro.
Quando os restos mortais de Dom José Joaquim Ribeiro, Dom Jaime Garcia Goulart e Monsenhor Martinho da Costa Lopes chegarem a Díli e forem colocados junto dos restos mortais de Dom Alberto Ricardo da Silva, completar-se-á um ciclo de memória. Quatro Pastores ficarão novamente unidos na terra que serviram. Quatro nomes que pertencem à história da Igreja de Timor-Leste repousarão lado a lado.
Esse momento terá um significado que ultrapassa a própria sepultura. Será um reencontro da história da Igreja timorense. Será também uma forma de reconhecer que a caminhada de Timor-Leste foi feita por muitas pessoas, em diferentes épocas e através de diferentes missões. Alguns lutaram no campo político e diplomático; outros permaneceram junto das comunidades, acompanhando o sofrimento e alimentando a esperança. Todos fizeram parte, de alguma maneira, da longa caminhada que conduziu Timor à liberdade.
Por isso, a trasladação não deve ser vista apenas como um ato religioso ou administrativo. É um ato de memória nacional. Uma Nação também se constrói através da forma como honra aqueles que a serviram. Olhar para o futuro exige também saber olhar para trás com gratidão. A independência não apagou os sacrifícios do passado; pelo contrário, tornou ainda mais importante preservar a memória daqueles que contribuíram para que o povo timorense pudesse chegar ao dia da liberdade.
Ao olhar hoje para todo este processo, não posso deixar de recordar aquela conversa simples durante um almoço com o Presidente Ramos-Horta. Talvez seja essa a parte mais humilde e, ao mesmo tempo, mais significativa desta história. Não houve naquele momento nenhuma grande cerimónia, nenhum discurso solene ou qualquer anúncio histórico. Houve apenas uma conversa sobre homens que não podiam ser esquecidos e sobre a possibilidade de lhes devolver a Pátria.
Depois vieram muitas outras pessoas. Vieram instituições, autoridades, responsáveis da Igreja e muitos outros que, com dedicação e boa vontade, ajudaram a abrir o caminho. Cada um teve o seu papel. É por isso que este regresso não deve ser apresentado como mérito individual, mas como uma realização coletiva em nome da memória de Timor-Leste.
Há uma certa beleza no facto de um processo tão importante ter começado com algo tão simples. Uma conversa pode parecer pequena, mas algumas conversas mudam o rumo das coisas. Uma lembrança pode parecer apenas uma lembrança, mas algumas memórias carregam consigo a responsabilidade de uma Nação.
Hoje, quando olhamos para o regresso dos Prelados, percebemos que não estamos simplesmente a trasladar restos mortais. Estamos a devolver à Pátria uma parte da sua história.
Dom José Joaquim Ribeiro regressa à terra onde serviu num dos períodos mais difíceis da sua história. Dom Jaime regressa à terra que um dia deixou e que não pôde voltar a visitar em vida. Monsenhor Martinho regressa à terra pela qual continuou a lutar mesmo depois de partir, levando consigo o testemunho de um Pastor que nunca deixou de sentir Timor como sua Pátria. E, ao lado deles, está a memória de Dom Alberto Ricardo da Silva, que já repousa em Díli.
E há também a memória de Dom Ximenes Belo, sucessor de Monsenhor Martinho, cuja voz se tornou igualmente parte inseparável da história da Igreja e da luta pela paz e pela dignidade do povo timorense.
Todos eles pertencem a uma mesma história, embora cada um tenha vivido o seu próprio tempo.
Dom Jaime, Dom José Joaquim Ribeiro, Monsenhor Martinho, Dom Ximenes Belo e Dom Alberto Ricardo da Silva representam diferentes momentos de uma Igreja que procurou permanecer próxima do povo timorense. Uns já regressam fisicamente à Pátria; outros permanecem presentes através do seu testemunho, do seu legado e da memória daqueles que os conheceram.
Dom Jaime não chegou a ver em vida o dia da independência que Ramos-Horta lhe desejara. Monsenhor Martinho também não pôde assistir plenamente à concretização do sonho pelo qual tantos haviam lutado. Mas hoje os seus restos mortais regressam a uma Timor-Leste livre, independente e soberana.
Talvez exista aqui uma espécie de justiça silenciosa da história. Aqueles que partiram antes de ver a liberdade regressam agora para repousar numa Pátria que finalmente alcançou aquilo que eles, cada um à sua maneira, ajudaram a preparar.
Que o regresso de Dom José Joaquim Ribeiro, Dom Jaime Garcia Goulart e Monsenhor Martinho da Costa Lopes seja recebido com a dignidade que merecem. Que, junto de Dom Alberto Ricardo da Silva, possam encontrar o descanso definitivo na terra de Timor. Que a sua memória seja preservada pela Igreja e pela Nação. E que as gerações futuras saibam reconhecer, nesses homens, não apenas figuras de um passado distante, mas testemunhas de uma caminhada que ajudaram a construir.
Porque uma Pátria não é feita apenas de território, instituições e fronteiras. É feita também de memória. É feita daqueles que partiram e daqueles que ficaram. É feita dos sacrifícios, das esperanças, das lágrimas e da coragem de muitas gerações.
Os restos mortais regressam à terra, mas o legado permanece entre os vivos. A morte encerra uma vida, mas não apaga aquilo que essa vida significou.
Eles partiram de Timor. A história levou-os para longe. Durante muitos anos, permaneceram em terras estrangeiras, à espera de que a Pátria os chamasse novamente.
Agora, esse dia chegou.
Depois de uma longa espera, depois de muitas décadas e depois de uma conversa simples que ajudou a reabrir o caminho, a Pátria abre-lhes novamente os braços.
E os seus Pastores regressam finalmente a casa.

