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Formar jovens não basta — é preciso transformar mentalidades

Rojer Soares

A história de Timor-Leste está profundamente ligada à coragem e ao sacrifício da sua juventude. Durante a luta pela independência, os jovens estiveram na linha da frente da resistência e da defesa da dignidade nacional. Hoje, perante os desafios da construção do Estado, o país precisa novamente do empenho da sua juventude, mas através de uma nova forma de compromisso: a educação, o trabalho, a responsabilidade e a produtividade.

Os jovens não são apenas o futuro de Timor-Leste. São também o presente e devem assumir um papel activo no desenvolvimento nacional. Para isso, não basta garantir o acesso à educação e atribuir diplomas. É necessário preparar as novas gerações para as exigências concretas da vida profissional.

Um dos desafios que merece maior atenção é a mudança de mentalidade perante o trabalho. A formação académica e as competências técnicas são fundamentais, mas não são suficientes. O mercado de trabalho exige também pontualidade, assiduidade, disciplina, respeito pelos horários, capacidade de trabalhar em equipa e cumprimento dos compromissos assumidos.

Chegar a horas, cumprir as tarefas e respeitar as regras de uma organização não são exigências extraordinárias. São princípios básicos de qualquer relação profissional. Um trabalhador deve ser avaliado não apenas pelo que sabe fazer, mas também pela sua responsabilidade e pelo compromisso que demonstra no exercício das suas funções.

Por isso, a formação profissional em Timor-Leste deve dar maior importância à mudança de mentalidade laboral. As universidades, os institutos técnicos e os centros de formação devem preparar os jovens não apenas para obter qualificações, mas também para compreender a cultura e as responsabilidades do mundo do trabalho. Os estágios e as parcerias com empresas podem desempenhar um papel importante nesta preparação.

Esta questão tem igualmente consequências para a economia nacional. As empresas e os investidores procuram trabalhadores qualificados, mas também pessoas responsáveis, produtivas e capazes de cumprir compromissos.

A confiança dos investidores depende de vários factores, incluindo as infra-estruturas, a estabilidade económica, a legislação e a qualidade dos recursos humanos. Por isso, a preparação profissional da juventude deve fazer parte da estratégia de desenvolvimento do país.

O desafio torna-se ainda mais importante no contexto da integração de Timor-Leste na ASEAN. A participação neste espaço regional não deve limitar-se à dimensão política e diplomática. Exige também capacidade produtiva, competitividade e recursos humanos preparados para responder aos padrões de organização e produtividade dos mercados da região.

Se queremos que Timor-Leste aproveite as oportunidades da ASEAN, temos de preparar os nossos jovens para competir, trabalhar e colaborar num ambiente económico mais exigente. Sem uma cultura de trabalho consolidada, será difícil aproveitar plenamente essas oportunidades e atrair investimento capaz de criar emprego.

Naturalmente, esta responsabilidade não pertence apenas aos jovens. O Estado deve garantir formação de qualidade e oportunidades de emprego; as empresas devem proporcionar condições dignas, remuneração justa e respeito pelos direitos laborais. Aos jovens cabe, por sua vez, demonstrar empenho, disciplina, iniciativa e vontade de aprender.

A juventude também precisa de encontrar oportunidades para além da função pública. O sector privado, a agricultura, o turismo, a pesca e o empreendedorismo devem constituir caminhos reais para a realização profissional e económica das novas gerações.

A geração que conquistou a independência deixou um legado de coragem e sacrifício. À geração actual cabe transformar essa conquista em desenvolvimento. Para isso, Timor-Leste precisa de investir não apenas na formação académica e técnica, mas também numa verdadeira cultura de responsabilidade profissional.

O futuro do país não depende apenas de quantos jovens conseguimos formar, mas também de como os preparamos para trabalhar, produzir e assumir responsabilidades. A independência política foi uma conquista histórica; a independência económica exige conhecimento, disciplina, trabalho e uma mudança de mentalidade.

Rojer Soares

We’en, Manatuto.

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