Entre Gerações, pela Unidade e pelo Futuro de Timor-Leste

Timor-Leste encontra-se perante uma nova etapa da sua história. Depois de décadas de luta pela dignidade, pela autodeterminação e pela construção das instituições do Estado, chega o momento de perguntar a nós próprios que país queremos deixar às gerações que virão.
Esta pergunta não pode ser respondida apenas por uma geração. O futuro de Timor-Leste exige a união entre aqueles que viveram os momentos mais difíceis da nossa história, aqueles que hoje assumem responsabilidades na construção do Estado e os jovens que amanhã terão nas suas mãos a responsabilidade de continuar este país.
É por isso que, perante os novos desafios nacionais e globais, precisamos de menos divisão e de mais sentido de Estado. Precisamos de compreender que as diferenças políticas fazem parte da democracia, mas não podem transformar-se em ódio, vingança pessoal ou destruição da dignidade daqueles que, de uma forma ou de outra, deram o seu contributo ao país.
À medida que nos aproximamos de mais um momento eleitoral, preocupa-nos assistir a um debate público onde, por vezes, o confronto político parece sobrepor-se à apresentação de propostas, ideias e soluções. A crítica é indispensável numa democracia. Mas a crítica deve ser acompanhada de responsabilidade, verdade e respeito pelas pessoas e pelas instituições.
Não podemos construir um Estado de Direito alimentando permanentemente a lógica do inimigo.
Um país pequeno, jovem e ainda em processo de consolidação institucional não pode desperdiçar a sua energia em conflitos que nos dividem. Timor-Leste precisa de uma cultura política em que seja possível discordar sem odiar, criticar sem humilhar e reconhecer o trabalho realizado mesmo quando existem diferenças políticas.
É também necessário reconhecer que nenhum Governo resolve todos os problemas de um país num único mandato. Há problemas estruturais que atravessam décadas e que exigem continuidade de políticas públicas, avaliação séria e capacidade de corrigir aquilo que não funciona.
A educação é um dos melhores exemplos.
Não podemos transformar a educação num campo permanente de disputa política. Quando se fala da falta de professores, da qualidade do ensino ou das dificuldades existentes no sistema educativo, é legítimo exigir explicações, resultados e melhorias. Mas não é justo reduzir problemas estruturais à responsabilidade individual de quem, em determinado momento, ocupa a pasta ministerial.
Existem políticas públicas, decisões administrativas, limitações orçamentais, falta de recursos humanos e problemas acumulados ao longo de muitos anos que precisam de ser analisados com seriedade.
A procura de soluções para a falta de professores, incluindo mecanismos de formação e bolsas destinadas a candidatos, deve ser avaliada pelos seus resultados e não transformada simplesmente num instrumento de ataque pessoal. Podemos discutir se determinada política é suficiente, se precisa de ser melhorada ou se deve ser substituída. O que não devemos fazer é negar o esforço daqueles que assumiram responsabilidades e trabalharam, com sacrifício, para enfrentar problemas estruturais do país.
A educação não pode ser politizada ao ponto de destruir a confiança nas próprias instituições. Se estabelecermos hoje o precedente de transformar cada dificuldade do sistema educativo numa acusação pessoal contra quem está à frente do Ministério, amanhã poderemos fazer o mesmo com qualquer outro servidor público.
E, assim, em vez de construirmos instituições fortes, estaremos a construir instituições baseadas no medo.
O nosso debate deve ser outro: como preparar uma educação capaz de formar cidadãos competentes, responsáveis, trabalhadores, honestos e conscientes do seu dever perante a sociedade?
Esta questão leva-nos inevitavelmente ao papel das novas gerações.
Os jovens timorenses não podem ser vistos apenas como beneficiários das políticas públicas. São parte essencial da construção do Estado. Precisam de oportunidades, mas também precisam de responsabilidade. Precisam de educação, mas também de disciplina. Precisam de tecnologia, mas também de capacidade de pensar.
Vivemos numa época em que a inteligência artificial, a informática e as novas tecnologias oferecem possibilidades extraordinárias. Devemos aproveitar essas ferramentas. Mas existe um perigo que não podemos ignorar: a criação de uma mentalidade de facilitismo, em que a tecnologia passa a substituir o esforço, o estudo, a leitura, a reflexão e a capacidade de fazer por nós próprios.
A tecnologia deve ser instrumento do conhecimento, não substituto do conhecimento.
Nenhuma ferramenta tecnológica poderá substituir o carácter de uma pessoa. Nenhuma inteligência artificial poderá construir, por si só, a responsabilidade de um cidadão. E nenhuma tecnologia poderá dispensar o sacrifício, a disciplina e a perseverança necessários para construir uma nação.
Timor-Leste precisa de uma geração jovem preparada para utilizar a tecnologia, mas suficientemente madura para compreender que o desenvolvimento de um país não se mede apenas pelo acesso à tecnologia. Mede-se também pela qualidade das suas pessoas, das suas instituições, da sua educação e dos valores que orientam a sociedade.
É neste ponto que a Igreja pode desempenhar um papel particularmente importante.
A Igreja tem acompanhado a história do povo timorense e continua a possuir uma responsabilidade que ultrapassa a dimensão estritamente religiosa. Numa nova etapa da construção do Estado, pode contribuir para a formação de cidadãos com ética, moral, sentido de responsabilidade e respeito pela dignidade humana.
Precisamos de uma sociedade que não ensine apenas os jovens a procurar o sucesso material, mas que também lhes ensine o valor da solidariedade, da honestidade, do respeito mútuo, do serviço ao próximo e da responsabilidade perante a comunidade.
Cada pessoa deve ser vista como pessoa, como ser humano dotado de dignidade, e, para quem vive a sua fé, como criatura de Deus. Esta visão pode ajudar-nos a combater uma cultura excessivamente centrada no dinheiro, no estatuto, no poder e na aparência.
O desenvolvimento material é importante. Timor-Leste precisa de melhores infraestruturas, melhores empregos, melhores serviços públicos e melhores condições de vida. Mas nenhum desenvolvimento será verdadeiramente sustentável se não for acompanhado pelo desenvolvimento moral e humano dos cidadãos.
A Igreja, o Estado, a família, a escola e a sociedade civil têm, cada um no seu espaço, responsabilidades complementares na formação das novas gerações.
E aqui está talvez uma das maiores tarefas do nosso tempo: reconstruir as pontes entre gerações.
A geração que lutou pela independência tem uma memória histórica que não pode ser esquecida. A geração que assumiu a construção das instituições possui experiência que deve ser transmitida. E a nova geração possui energia, conhecimento e capacidade de inovação que devem ser colocados ao serviço do país.
Nenhuma destas gerações pode construir Timor-Leste sozinha.
Os mais velhos precisam de confiar nos jovens. Os jovens precisam de respeitar a experiência dos mais velhos. Os dirigentes políticos precisam de compreender que a sua responsabilidade ultrapassa os ciclos eleitorais. E os cidadãos precisam de compreender que a democracia não consiste apenas em escolher representantes, mas também em participar responsavelmente na construção da sociedade.
O futuro de Timor-Leste não pode ser uma disputa permanente entre memórias, partidos, personalidades ou grupos.
Deve ser um projecto nacional.
Um projecto no qual possamos reconhecer aquilo que foi bem feito, corrigir aquilo que correu mal e construir sobre aquilo que já existe. Um projecto no qual a crítica seja instrumento de melhoria e não arma de destruição pessoal.
É possível defender ideias diferentes e, ao mesmo tempo, amar o mesmo país.
É possível pertencer a famílias políticas diferentes e continuar a reconhecer no outro um cidadão timorense com igual dignidade.
É possível disputar eleições sem transformar adversários políticos em inimigos.
E é possível construir uma democracia onde a vitória eleitoral não signifique a derrota da sociedade.
Timor-Leste precisa precisamente dessa maturidade.
Precisamos de líderes capazes de olhar para além do próximo ciclo eleitoral. Precisamos de cidadãos capazes de exigir responsabilidade sem destruir o respeito.
Precisamos de jovens preparados para assumir o futuro. Precisamos de uma educação protegida das lutas partidárias. Precisamos de instituições fortes e de uma cultura política fundada no Estado de Direito.
Sobretudo, precisamos de recuperar a ideia de que a política deve ser um instrumento de serviço.
Num momento em que o mundo enfrenta novas incertezas, conflitos, transformações tecnológicas e desafios económicos, Timor-Leste não pode permitir-se ficar dividido por desentendimentos internos sem horizonte.
A nossa maior riqueza não está apenas nos recursos naturais ou nas possibilidades económicas. Está nas pessoas.
Está na capacidade de um povo pequeno se manter unido perante grandes desafios.
Por isso, este é o momento de escolher a união sem exigir unanimidade; o diálogo sem exigir que todos pensem da mesma maneira; e o respeito sem abandonar a exigência de responsabilidade.
Aqueles que hoje exercem responsabilidades devem preparar os que amanhã lhes sucederão. E aqueles que amanhã assumirão responsabilidades devem reconhecer os sacrifícios daqueles que construíram o caminho.
Entre gerações, deve existir transmissão, não ruptura.
Entre adversários políticos, deve existir competição democrática, não ódio.
Entre o Estado e a sociedade, deve existir confiança.
E entre todos nós deve existir uma consciência comum: Timor-Leste não pertence a uma geração, a um partido ou a uma personalidade. Timor-Leste pertence ao seu povo e às gerações que ainda estão por nascer.
É por essas gerações que devemos aprender a colocar o interesse nacional acima das nossas diferenças pessoais.
É por essas gerações que devemos defender a educação, fortalecer as instituições, valorizar a juventude, respeitar a experiência dos mais velhos e reforçar o papel da família, da Igreja e da sociedade na formação do carácter.
E é por essas gerações que devemos ter a coragem de escolher a união.
Não uma união baseada no silêncio ou na ausência de crítica, mas uma união baseada no respeito, na verdade, no diálogo e num compromisso comum com o futuro.
Timor-Leste já demonstrou ao mundo que sabe lutar pela sua liberdade.
Agora precisa de demonstrar que sabe construir, em conjunto, a sua prosperidade, a sua democracia e a sua paz.
Esse deve ser o nosso compromisso: preparar hoje as gerações que amanhã terão nas suas mãos a responsabilidade de continuar a construir Timor-Leste.
Rojer Soares
We’en – Manatuto

