Pobreza diminui para 37,02% em Timor-Leste, mas desigualdade aumenta

DÍLI, 20 de outubro de 2026 (TATOLI) – A taxa de pobreza no país diminuiu de 48,4%, em 2014, para 37,02%, em 2024, segundo o Relatório Sumário de Pobreza do Inquérito aos Padrões de Vida de Timor-Leste de 2024 (TLSLS, em inglês).
Apesar dos progressos na redução da pobreza e na melhoria das condições de vida, o relatório aponta para um aumento da desigualdade económica e para a persistência de diferenças significativas entre as zonas rurais e urbanas.
Durante a apresentação, o Presidente do Instituto Nacional de Estatística (INE-TL), Elias Ferreira, afirmou que os resultados confirmam os progressos alcançados na redução da pobreza ao longo da última década e demonstram melhorias no acesso aos serviços básicos.
O dirigente explicou que a linha nacional de pobreza tem por base o custo dos bens de primeira necessidade, calculado a partir dos padrões de consumo das famílias e dos preços praticados em Timor-Leste.
Elias Ferreira salientou ainda a importância de distinguir a linha nacional de pobreza das linhas internacionais utilizadas pelo Banco Mundial, uma vez que estas obedecem a critérios diferentes e se destinam, sobretudo, à monitorização da pobreza à escala global e à comparação entre países.
O relatório refere que as estimativas internacionais anteriormente calculadas com base nos dados do inquérito de 2014 indicavam que 44,3% da população vivia com menos de três dólares americanos por dia e 71,7% com menos de 4,20 dólares por dia. Estes valores baseiam-se nos dados de 2014 e não correspondem a resultados de um novo inquérito realizado em 2024.
O inquérito foi realizado entre abril e outubro de 2024 e abrangeu 7.424 agregados familiares, com representatividade a nível nacional e municipal.
De acordo com o relatório, cerca de 522.927 pessoas viviam abaixo da linha nacional de pobreza em 2024, fixada em 2,31 dólares por pessoa, por dia. Esta linha tem por base o custo dos bens de primeira necessidade, calculado a partir dos padrões de consumo e dos preços praticados em Timor-Leste.
Pobreza afeta sobretudo as zonas rurais
Os dados revelam diferenças significativas entre as zonas rurais e urbanas. Em 2024, a taxa de pobreza atingiu 44,45% da população rural, enquanto nas zonas urbanas se situou nos 18,43%. Cerca de 86% das pessoas em situação de pobreza viviam em zonas rurais, num total de 448.556 pessoas, enquanto 74.371 residiam em zonas urbanas.
A nível municipal, Ataúro registou a taxa de pobreza mais elevada, com 74,37%, seguido de Liquiçá, com 52,95%, e Aileu, com 52,24%. Em contrapartida, Díli apresentou uma taxa baixa, de 17,05%, seguido de Viqueque, com 24,73%.
Apesar da menor incidência de pobreza, a capital timorense concentrava cerca de 59 mil pessoas a viver abaixo da linha nacional de pobreza, demonstrando que uma taxa mais baixa não significa necessariamente um menor número de pessoas afetadas.
O relatório indica ainda que a pobreza nas zonas rurais é não só mais generalizada, mas também mais intensa. O índice de intensidade da pobreza nas áreas rurais foi de 12,65%, contra 4,18% nas urbanas.
Por sua vez, a Vice-Ministra das Finanças, Regina de Jesus, considerou que os resultados demonstram progressos importantes, mas alertou para a necessidade de se interpretar os dados com responsabilidade e de se manter os esforços de combate à pobreza.
Segundo a governante, apesar da diminuição da incidência da pobreza, muitas famílias continuam a enfrentar dificuldades para satisfazer os bens de primeira necessidade e aceder a oportunidades económicas adequadas.
Regina de Jesus defendeu, por isso, a continuidade de políticas e programas eficazes, com especial atenção às comunidades rurais, à melhoria das infraestruturas e dos serviços básicos e à criação de oportunidades económicas mais equitativas em todo o território nacional.
Comparação com 2014 exige ajustamento metodológico
O documento salienta que não é metodologicamente recomendável comparar diretamente os resultados dos inquéritos de 2014 e 2024, devido às alterações introduzidas no questionário, nos procedimentos de recolha de informação e nos métodos de avaliação do consumo das famílias.
Entre as mudanças introduzidas está a utilização de entrevistas pessoais assistidas por computador, que permite validar os dados durante a recolha e reduzir erros.
Para avaliar a evolução da pobreza ao longo da década, foi utilizada uma metodologia de imputação entre inquéritos, baseada numa classificação não paramétrica, para produzir estimativas comparáveis.
Com este método, a taxa de pobreza comparável para 2014 foi estimada em 48,4%, face aos 37,02% registados em 2024, representando uma redução de aproximadamente 11,4 pontos percentuais.
O relatório explica que esta diminuição é superior aos 4,8 pontos percentuais sugeridos pela comparação direta entre as estimativas originais, sem ajustamento metodológico.
A utilização de métodos comparáveis permite, assim, avaliar de forma mais consistente a evolução das condições de vida das famílias ao longo do período analisado.
Desigualdade económica aumenta
Apesar da redução da pobreza, o relatório indica que a desigualdade económica aumentou em Timor-Leste durante a última década.
O coeficiente de Gini, indicador que mede o nível de desigualdade numa escala de zero, correspondente à igualdade perfeita, a um, que representa a desigualdade máxima, passou de 0,31 em 2014 para 0,36 em 2024. O aumento de 0,05 pontos evidencia que a redução da pobreza não foi acompanhada por uma diminuição da desigualdade económica.
O documento identifica também diferenças entre municípios na evolução da pobreza. As estimativas metodologicamente comparáveis apontam para uma redução na maioria dos municípios entre 2014 e 2024, com exceção de Aileu e Liquiçá.
Acesso a serviços básicos melhora
O TLSLS identifica progressos em vários indicadores não monetários relacionados com as condições de vida das famílias. A percentagem de famílias sem acesso à eletricidade diminuiu de 27,9% em 2014 para 1,7% em 2024, aproximando o país de um acesso quase universal a este serviço.
No mesmo período, a proporção de famílias sem acesso à água potável segura diminuiu de 25,4% para 9,1%. A percentagem de famílias sem saneamento adequado também baixou, de 39,6% para 24,4%, enquanto a proporção de famílias com habitação considerada adequada aumentou de 22,4% para 42,6%.
Para efeitos do relatório, uma habitação adequada é aquela que dispõe de acesso à água potável, eletricidade e materiais de construção resistentes. Apesar destas melhorias, persistem desafios no acesso a condições habitacionais adequadas, saneamento e fontes de energia menos poluentes.
Em 2024, 70,9% das famílias continuavam a utilizar combustíveis poluentes para cozinhar, embora este valor represente uma diminuição face aos 86,8% registados em 2014.
Diferenças nas condições de vida das famílias
O relatório identifica também disparidades entre famílias pobres e não pobres em diferentes dimensões do bem-estar. Apenas 26,8% dos agregados familiares economicamente vulneráveis viviam em habitações consideradas adequadas, em comparação com 51,9% das famílias com recursos financeiros suficientes.
Além disso, 52,1% das famílias pobres tinham pavimentos de terra, face a 29,4% das famílias sem dificuldades financeiras. Na educação, 17,7% das crianças entre os seis e os 11 anos pertencentes a famílias pobres não frequentavam o ensino, enquanto entre as famílias não pobres a proporção era de 8,2%.
O documento indica ainda que 63,3% das famílias carenciadas tinham pelo menos um membro com dez ou mais anos de idade que não sabia ler nem escrever, em comparação com 37,6% dos agregados familiares sem dificuldades financeiras.
No acesso a fontes de energia para cozinhar, 86,7% das famílias pobres utilizavam lenha ou outros combustíveis poluentes, contra 61,7% das famílias não pobres.
Estes indicadores demonstram que a pobreza está associada a dificuldades que ultrapassam o rendimento ou o consumo, refletindo diferenças no acesso à habitação, à educação e a outros serviços essenciais.
Relatório apoia futuras políticas públicas
Segundo o relatório, os resultados do TLSLS constituem uma base para aprofundar a análise das causas e dos fatores que influenciam a pobreza e a desigualdade em Timor-Leste.
Está prevista a elaboração de uma Avaliação da Pobreza e da Equidade, no âmbito da parceria entre o INE-TL, o Ministério das Finanças e o Banco Mundial.
A avaliação deverá analisar fatores como o emprego, os rendimentos do trabalho, os programas sociais, as remessas e o impacto de choques económicos.
O relatório indica ainda que os microdados do TLSLS serão disponibilizados para fins investigação e de elaboração de políticas públicas, mediante a adoção de medidas destinadas a proteger a confidencialidade e a privacidade dos agregados familiares participantes.
O objetivo é apoiar a formulação de políticas baseadas em evidências, acelerar a redução da pobreza e promover um desenvolvimento mais inclusivo e resiliente em Timor-Leste.
Notícia relevante: Timor-Leste regista taxa de pobreza multidimensional de 17,4%, revela ONU
Jornalista: Afonso do Rosário
Editora: Isaura Lemos de Deus

