Banco Mundial esclarece que estimativa de 71,7% de pobreza resulta de dados de 2014

DÍLI, 22 de setembro de 2026 (TATOLI) – O Representante do Grupo Banco Mundial em Timor-Leste, David Freedman, afirmou que a estimativa de 71,7% de pobreza divulgada num relatório publicado em abril de 2026 não corresponde a dados recolhidos em 2026, mas sim a uma projeção baseada no Inquérito aos Padrões de Vida de Timor-Leste de 2014, atualizada com informação económica posterior.
A estimativa refere‑se à proporção da população com um consumo inferior a 4,20 dólares por pessoa por dia, linha internacional de pobreza aplicada aos países de rendimento médio‑baixo. O relatório apresenta também uma estimativa de 44,3% da população com consumo inferior a três dólares por dia, linha utilizada para países de baixo rendimento.
Freedman recordou que o Banco Mundial coopera com o Governo timorense desde 2001 na análise dos padrões de vida, tendo participado nos levantamentos de 2001, 2007 e 2014, bem como na análise dos dados recolhidos no levantamento nacional de 2024.
Linhas internacionais permitem comparações entre países
O responsável explicou que, além de apoiar cada país na análise da pobreza segundo as suas condições específicas, o Banco Mundial utiliza linhas internacionais de pobreza para permitir comparações entre países através de uma metodologia comum. A instituição utiliza atualmente três linhas internacionais: 3 dólares/dia – países de baixo rendimento; 4,20 dólares/dia – países de rendimento médio‑baixo; e 8,30 dólares/dia – países de rendimento médio‑alto.
Timor‑Leste está classificado como país de rendimento médio‑baixo, razão pela qual o Banco Mundial apresenta estimativas com base nas linhas de 3 dólares e 4,20 dólares.
“É claro que as condições nos países de baixo, médio e médio-alto rendimento não são iguais. Por isso, existem diferentes linhas internacionais de pobreza”, explicou David Freedman numa entrevista exclusiva realizada no estúdio da Tatoli, no Farol.
Estimava de 71,7% baseia-se em dados de 2014
Freedman sublinhou que os valores de 71,7% e 44,3% não representam a taxa nacional de pobreza, pois foram calculados com base em dados de 2014 e utilizando linhas internacionais. Reconheceu também que a divulgação de diferentes métricas pode gerar confusão quando não é acompanhada de explicações metodológicas.
Taxa nacional de pobreza caiu para 37% em 2024
Em contraste com as estimativas internacionais, os resultados do Levantamento das Condições de Vida de 2024 indicam que a taxa nacional de pobreza em Timor‑Leste foi de 37%, uma redução face aos 41,8% registados em 2014. A pobreza atinge 45,5% da população nas áreas rurais e 18,4% nas zonas urbanas.
A linha nacional de pobreza é calculada com base nos padrões de consumo e no custo dos bens essenciais no país, incluindo alimentação, vestuário, eletricidade e outros serviços. A metodologia considera também os alimentos produzidos e consumidos diretamente pelos agregados familiares.
“Para analisar a realidade interna de um país, recomendamos a utilização da linha nacional de pobreza, porque esta reflete melhor os padrões de consumo e as condições específicas da população”, afirmou.
Linha nacional considera padrões de consumo
A definição da linha de pobreza considera a capacidade dos agregados familiares para satisfazer as suas necessidades, tendo em conta os padrões de consumo, incluindo alimentação, vestuário, eletricidade e outros bens e serviços essenciais.
Na componente alimentar, os especialistas analisam a quantidade e a qualidade dos alimentos consumidos pelos agregados familiares, incluindo os produtos produzidos e consumidos pelos próprios agregados. “Quando falamos de pobreza, não estamos a falar apenas de dinheiro ou de despesas monetárias. Também temos de considerar aquilo que as famílias produzem e consomem diretamente”, afirmou.
Com base nestes dados, os especialistas calculam a linha nacional de pobreza a partir dos recursos necessários para satisfazer as necessidades da população.
Levantamento utiliza amostra representativa
Sobre a metodologia utilizada para calcular a taxa de pobreza, David Freedman explicou que não é possível recolher informações detalhadas de todos os agregados familiares existentes no território nacional.
Por essa razão, os especialistas utilizam uma amostra representativa da população, definida com base nos dados do Recenseamento Geral da População e Habitação.
Os entrevistadores recolhem informações sobre o trabalho dos membros dos agregados familiares, fontes de rendimento, atividades agrícolas, produtos cultivados e colhidos, alimentos consumidos, compras realizadas nos mercados e outras despesas.
Atualmente, a recolha de dados é realizada através de tablets, em vez de formulários em papel, permitindo melhorar o processo de recolha, controlo e validação da informação.
Depois da recolha, os dados são tratados e analisados para identificar os padrões de consumo e calcular a linha nacional de pobreza.
Dados de 2024 vão atualizar estimativas internacionais
David Freedman afirmou que os resultados do levantamento de 2024 constituirão uma nova base estatística para atualizar as estimativas internacionais de pobreza de Timor-Leste.
“Quando os novos dados de 2024 forem publicados, serão utilizados como base para novas estimativas sobre a percentagem da população que se encontra abaixo das diferentes linhas internacionais de pobreza”, explicou.
Os novos dados permitirão também atualizar a análise sobre a evolução da pobreza e apoiar futuras projeções relacionadas com o desempenho económico do país.
O representante salientou a importância de apresentar cada indicador juntamente com a respetiva definição e metodologia, de modo a evitar interpretações incorretas sobre a situação da pobreza em Timor-Leste.
Jornalista: Afonso do Rosário
Editora: Isaura Lemos de Deus

