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Queimadas na Indonésia provocam episódio de poluição atmosférica sem precedentes em Díli

A má qualidade do ar em Díli. Foto da Tatoli/António Daciparu

DÍLI, 12 de outubro de 2026 (TATOLI) – A má qualidade do ar em Díli, que se mantém desde o passado dia 6, deve-se ao fumo proveniente de queimadas florestais e terrestres na região da Papua Ocidental, na Indonésia, transportado pelos ventos até à ilha de Timor.

A informação foi avançada, esta segunda-feira, pela Direção Nacional de Meteorologia e Geofísica (DNMG).

A Direção informou que as estações de monitorização instaladas no Aeroporto Internacional Presidente Nicolau Lobato, em Comoro, e nas instalações do Ministério dos Transportes e Comunicações (MTC), em Caicoli, registaram sete dias consecutivos de má qualidade do ar na capital.

Segundo a DNMG, a qualidade do ar reflete o grau de poluição atmosférica que a população respira e, quando há concentrações elevadas de poluentes como fumo e poeira, podem surgir riscos para a saúde, sobretudo para pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares.

Entre os poluentes associados ao fumo destacam-se as partículas finas PM2,5, com diâmetro igual ou inferior a 2,5 micrómetros. Um micrómetro corresponde a um milésimo de milímetro, o que torna estas partículas suficientemente pequenas para penetrarem profundamente nos pulmões, atingindo as zonas responsáveis pelas trocas de oxigénio com o sangue.

A exposição a níveis elevados de PM2,5 pode provocar irritação nos olhos, tosse e dificuldades na respiratórias, além de agravar doenças como a asma e outros problemas pulmonares e cardiovasculares. Crianças, idosos e pessoas com problemas de saúde são particularmente vulneráveis.

O transporte do fumo depende, entre outros fatores, da circulação atmosférica e dos ventos sazonais associados à monção que podem alterar a direção e a intensidade das massas de ar, permitindo que o fumo produzido numa região atravesse fronteiras e afete territórios distantes da origem das queimadas.

A DNMG prevê uma melhoria temporária da qualidade do ar a partir de 13 de outubro. Contudo, a situação poderá voltar a agravar-se nos dias 16 e 17, caso os ventos transportem novamente fumo proveniente de Papua. As queimadas realizadas localmente para fins agrícolas também poderão contribuir para aumentar a concentração de fumo no ar.

A responsável pelas previsões públicas da DNMG, Angelina Freitas, explicou que a situação está relacionada com as condições de tempo seco e a circulação dos ventos na região.

Segundo a responsável, o fenómeno El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial, pode alterar os padrões de chuva e contribuir para períodos mais secos, deixando a vegetação mais vulnerável a incêndios. No entanto, a influência específica do fenómeno na situação atual ainda necessita de avaliação mais detalhada.

Angelina Freitas acrescentou que a presença de fumo na atmosfera regional já era observada desde 17 de setembro, tendo-se tornado mais visível em Timor-Leste nos últimos dias. A atividade vulcânica na Indonésia foi também mencionada como um possível fator adicional, embora a sua contribuição para a situação atual ainda não tenha sido quantificada.

A dirigente afirmou que este é o episódio de fumo mais intenso e prolongado de que tem conhecimento. “Durante o período em que trabalho com os meus colegas na DNMG, este episódio é o mais grave e o de maior dimensão”, declarou.

A responsável recordou que Timor-Leste também foi afetado pelo fumo de incêndios na Austrália, entre 2017 e 2018, mas referiu que, naquela ocasião, o fenómeno terá durado apenas três a quatro dias.

Apesar da situação observada, Angelina Freitas salientou que são necessárias medições mais completas para determinar a concentração dos poluentes e avaliar com maior precisão os riscos para a população. A DNMG está a procurar obter equipamentos adicionais e informações técnicas mais detalhadas para reforçar a monitorização da qualidade do ar.

Perante os riscos associados à inalação de partículas finas, a DNMG recomenda que a população utilize máscaras adequadas à filtragem de partículas quando tiver de permanecer no exterior, evite a prática de exercício físico ao ar livre durante os períodos de maior concentração de fumo e mantenha as janelas fechadas quando o ar estiver muito poluído.

A instituição aconselha ainda a evitar a queima de resíduos e a procurar assistência médica em caso de dificuldades respiratórias.

Angelina Freitas disse ter conhecimento de crianças com sintomas como tosse e febre, mas esclareceu que a DNMG não dispõe de dados oficiais do Ministério da Saúde (MS) que permitam confirmar o número de casos ou estabelecer uma relação direta entre esses sintomas e a poluição atmosférica.

A DNMG está a colaborar com a Cruz Vermelha de Timor-Leste, através das suas ações antecipatórias, e com o MS na discussão de medidas preventivas, incluindo a possibilidade de distribuição de máscaras à população.

A instituição desenvolve também o Sistema de Informação sobre Riscos Climáticos para a Saúde Pública, uma ferramenta destinada às instituições de saúde para acompanhar indicadores climáticos e apoiar decisões relacionadas com os riscos para a saúde.

O sistema permite relacionar informações sobre o clima com possíveis impactos na saúde pública, mas não se destina à consulta direta pelo público.

A situação tem causado preocupação entre os residentes de Díli. Albino da Silva Barbosa contou à Tatoli que, quando regressava de Ataúro, na passada quarta-feira, observou que a capital parecia estar coberta por uma camada escura de fumo.

“Quando regressava de Ataúro, vi, a partir do barco, que a cidade de Díli parecia muito escura. No entanto, até àquele momento, ainda não havia informações oficiais do Governo sobre a situação”, afirmou.

Jornalista: Afonso do Rosário

Editora: Isaura Lemos de Deus

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