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O Dia Seguinte às Revoluções: o que os movimentos de mobilização cívica de 2024–2026 nos ensinam sobre a democracia-e sobre Timor-Leste

Dionísio Babo Soares

Por: Dionísio Babo Soares

As transformações políticas raramente se concretizam no momento em que os manifestantes regressam a casa. É, muitas vezes, nessa fase subsequente que se desenrola a parte mais exigente, e também mais decisiva, da vida democrática: a tarefa de converter a energia da mudança em instituições capazes de lhe conferir sentido, continuidade e núcleo.

Entre 2024 e 2026, o mundo testemunhou uma vaga de mobilizações populares de uma dimensão que, em vários aspetos, não se registava desde a Primavera Árabe. Do Bangladesh ao Nepal, do Sri Lanka ao Paquistão, passando por diferentes países de África e da América Latina e até por democracias europeias, milhões de cidadãos saíram à rua para reclamar transparência, justiça, combate à corrupção, oportunidades económicas e, sobretudo, uma forma diferente de exercer o poder.

À primeira vista, poderíamos ver nesta dinâmica uma demonstração inequívoca de vigor democrático. E, em certa medida, é isso mesmo que ela representa: sociedades mais informadas, mais exigentes e menos dispostas a aceitar como inevitáveis os modelos de governação que deixaram de corresponder às suas expectativas.

Há, porém, uma segunda leitura, porventura mais relevante. A experiência histórica ensina-nos que derrubar governos é frequentemente mais fácil do que construir instituições capazes de responder às expectativas geradas pela mudança. A verdadeira prova de qualquer transformação política profunda começa, por isso, no dia seguinte.

Como observou Samuel P. Huntington em Political Order in Changing Societies (1968), o desafio fundamental das sociedades em transformação não reside apenas na capacidade de mobilização política, mas, sobretudo, na de institucionalizar essa mobilização. Quando as expectativas sociais crescem a um ritmo superior à capacidade de resposta das instituições, abre-se um espaço de frustração que pode comprometer o próprio impulso transformador. A experiência recente oferece lições que merecem ser consideradas com atenção.

O Bangladesh constitui um exemplo particularmente eloquente. A movimentação cívica estudantil de julho de 2024, que conduziu à saída da primeira-ministra Sheikh Hasina em agosto desse ano, abriu caminho a uma nova fase política, culminando nas eleições de fevereiro de 2026, nas quais o Partido Nacionalista do Bangladesh obteve uma expressiva maioria parlamentar. Para muitos observadores, o processo representou uma vitória democrática significativa.

A realidade, contudo, revela-se mais complexa. O afastamento da Liga Awami da vida política — o partido viu-se impedido de concorrer ao escrutínio —, os processos judiciais contra antigos dirigentes, a persistência da polarização social e o arrefecimento das relações com a Índia recordam-nos que uma transição política não se conclui no momento em que se realizam eleições. As eleições são indispensáveis, mas não bastam. Quando uma das principais forças históricas de um país deixa de participar plenamente no processo político, permanece em aberto uma questão essencial: como construir uma democracia suficientemente inclusiva para acomodar a diversidade das sociedades e suficientemente robusta para sobreviver às mudanças de poder?

Esta é, afinal, uma das lições mais consistentes da experiência democrática contemporânea: as democracias duradouras não vivem apenas de eleições livres. Precisam de instituições capazes de assegurar, simultaneamente, justiça, inclusão, segurança, responsabilização e confiança pública.

O Nepal percorre um caminho com algumas semelhanças. A revolta da chamada Geração Z, em setembro de 2025, provocou a queda do Governo de K. P. Sharma Oli e conduziu às eleições de março de 2026, nas quais o eleitorado penalizou de forma clara os partidos tradicionais e abriu espaço a novas forças políticas — o Rastriya Swatantra Party, fundado apenas em 2022, conquistou uma expressiva maioria parlamentar, a primeira do país em quase três décadas. É ainda cedo para saber se a renovação dos protagonistas será acompanhada pela transformação institucional que muitos cidadãos esperam. Mas o caso nepalês deixa uma pergunta que merece ser acompanhada com atenção: até que ponto a mudança dos atores políticos é capaz de produzir uma mudança duradoura no funcionamento do Estado?

O Sri Lanka oferece uma reflexão complementar. Apesar da recuperação gradual dos indicadores macroeconómicos depois da grave crise de 2022 — com o Banco Mundial a estimar o regresso ao crescimento, após uma contração acumulada significativa nos anos anteriores —, persistem interrogações sobre a qualidade da governação, a transparência das instituições e as oportunidades disponíveis para as novas gerações. A estabilização económica foi, naturalmente, uma condição necessária. Mas não se revelou suficiente para restaurar, por si só, a confiança política.

É esta, talvez, uma das características mais interessantes da atual transformação da legitimidade política. Na América Latina, em vários países africanos e mesmo em democracias europeias consolidadas, os cidadãos parecem avaliar cada vez menos os governos apenas pelos seus programas ou pelos resultados eleitorais, e cada vez mais pela sua capacidade concreta de produzir resultados. Este fenómeno reflete uma exigência legítima de eficácia, transparência e proximidade por parte dos cidadãos.

Como têm sublinhado Francis Fukuyama e, mais recentemente, Daron Acemoglu e James A. Robinson — distinguidos em 2024 com o Prémio Nobel de Ciências Económicas —, a solidez das democracias assenta em pilares fundamentais: um Estado eficaz, o Estado de direito, instituições sujeitas a mecanismos de responsabilização e, acrescentam os autores, instituições inclusivas capazes de distribuir oportunidades com razoável equidade e de limitar concentrações excessivas de poder político e económico. Quando um destes pilares enfraquece, a confiança nas instituições também começa a enfraquecer. As mobilizações cívicas dos últimos anos parecem, em grande medida, confirmar estas preocupações. Na maioria dos casos, os protestos não significaram uma rejeição da democracia. Exprimiram, antes, a perceção de que as instituições democráticas não estavam a cumprir suficientemente bem a sua promessa de representar e servir a maioria.

Há, contudo, um elemento novo nesta vaga de mobilização que merece atenção particular. A Geração Z emergiu como protagonista política de dimensão global. É uma geração que cresceu num ambiente digital, com níveis de escolarização elevados e permanentemente conectada. A informação circula em tempo real, e a capacidade dos governos de controlar a narrativa pública diminuiu consideravelmente. Com ela diminuiu também a paciência dos cidadãos perante aquilo que entendem como ineficácia, opacidade ou distanciamento do poder. A legitimidade política deixou, assim, de depender exclusivamente da representação eleitoral. Passou a depender, cada vez mais, do desempenho. As democracias do século XXI serão, inevitavelmente, democracias em que a qualidade dos resultados contará tanto quanto a dos processos.

Para Timor-Leste, estas transformações encerram ensinamentos que seria prudente acompanhar — não com apreensão, mas com a confiança de quem reconhece que uma democracia jovem tem a vantagem de aprender com a experiência dos outros.

O primeiro ensinamento é que a estabilidade democrática não se esgota na realização regular de eleições. Depende, sobretudo, da qualidade das instituições públicas. Tribunais independentes, uma administração pública profissional, mecanismos eficazes de combate à corrupção, forças de segurança apartidárias e sistemas transparentes de prestação de contas constituem, nesse sentido, muito mais do que requisitos técnicos de boa governação. São parte do verdadeiro património de uma democracia consolidada. Timor-Leste dispõe, neste domínio, de uma experiência que não deve ser subestimada. A construção democrática timorense foi realizada em condições particularmente exigentes e, ao longo das últimas décadas, o país demonstrou uma capacidade notável de resolver diferenças por meio do diálogo político e das instituições. É precisamente essa experiência que pode agora ser aprofundada.

O segundo ensinamento prende-se à juventude. Timor-Leste dispõe ainda de uma preciosa janela demográfica. A questão fundamental não será apenas saber quantos jovens o país terá, mas que oportunidades será capaz de lhes oferecer. Educação de qualidade, formação profissional, inovação, emprego produtivo e participação cívica não devem ser vistos como políticas setoriais isoladas. São componentes de uma mesma estratégia nacional. Uma juventude que encontre oportunidades poderá constituir o principal motor do desenvolvimento de Timor-Leste. Uma juventude que não as encontre poderá, naturalmente, transformar expectativas legítimas em frustração. A diferença entre estes dois cenários dependerá, em larga medida, da capacidade das instituições de antecipar e responder às aspirações de uma nova geração.

O terceiro ensinamento diz respeito à diversificação económica. Boa parte das mobilizações cívicas observadas entre 2024 e 2026 nasceu de dificuldades económicas persistentes, de desigualdades percebidas e da ausência de perspetivas suficientemente claras para as gerações mais jovens. A dependência excessiva de um único recurso tende, em qualquer sociedade, a aumentar a vulnerabilidade económica e, indiretamente, a vulnerabilidade política. Para Timor-Leste, acelerar a diversificação económica — através da agricultura moderna, do turismo sustentável, da economia azul, das energias renováveis, da economia digital e de uma indústria transformadora adequada à dimensão do país — não constitui apenas uma estratégia de crescimento. É também uma política de reforço da coesão social e, nesse sentido, de consolidação democrática.

Há, finalmente, um quarto ensinamento, porventura o mais importante. A democracia fortalece quando é capaz de criar instituições suficientemente robustas para acomodar as diferenças, gerir os conflitos e preservar a confiança dos cidadãos. A inclusão política, o diálogo institucional e o respeito pelo Estado de direito têm-se revelado, em praticamente todas as experiências democráticas, instrumentos de estabilidade muito mais sólidos. Esta é uma conclusão que vale a pena recordar num mundo em que a política se tornou, em muitos lugares, mais polarizada e menos paciente.

A adesão plena de Timor-Leste à ASEAN, formalizada em outubro de 2025, acrescenta uma dimensão particularmente interessante a esta reflexão. Numa região onde coexistem diferentes modelos políticos e trajetórias de desenvolvimento, Timor-Leste tem a oportunidade de desempenhar um papel discreto, mas construtivo. A sua própria experiência de reconciliação, diálogo e construção institucional pode constituir um contributo útil para uma cultura regional assente na estabilidade, na cooperação, na boa governação e no desenvolvimento inclusivo. Não se trata de procurar modelos para exportar. Trata-se, antes, de partilhar uma experiência que tem valor precisamente porque foi construída em circunstâncias difíceis.

As ondas de mobilização que atravessaram diferentes sociedades entre 2024 e 2026 não devem, portanto, ser vistas apenas como uma sucessão de protestos contra os governos. São também o sinal de uma transformação mais profunda na relação entre o Estado e a sociedade. Os cidadãos exigem governos mais capazes, mais transparentes e mais próximos. Pedem instituições que funcionem e que os resultados sejam percetíveis no seu dia a dia. Esta exigência não é uma ameaça à democracia; é, em última análise, uma oportunidade para a democracia se renovar.

Para Timor-Leste, a mensagem que emerge destas experiências internacionais é, por isso, menos de advertência e mais de confiança. O futuro da democracia timorense não dependerá apenas da capacidade de vencer eleições. Dependerá, sobretudo, da capacidade de construir instituições que sobrevivam aos governos, resistam às mudanças políticas, inspirem confiança aos cidadãos e transformem o desenvolvimento económico em oportunidades efetivamente partilhadas.

Essa é uma tarefa necessariamente gradual. Não há instituições perfeitas nem democracias acabadas. Há, sim, democracias que aprendem, corrigem os seus erros e procuram tornar-se melhores. Talvez seja essa a verdadeira lição do dia seguinte às revoluções. A mudança política pode abrir uma porta, mas são as instituições que determinam até onde uma sociedade consegue caminhar depois de a atravessar mudanças. E Timor-Leste, pela sua história recente, tem razões para acreditar que pode continuar a trilhar esse caminho com confiança, prudência e ambição.

Nas próximas décadas, será essa capacidade institucional — mais do que a simples alternância no poder — que permitirá distinguir as democracias verdadeiramente resilientes das democracias vulneráveis.

*Este artigo reflete exclusivamente a opinião pessoal do autor e destina-se a fins de reflexão e debate académico. Não traduz necessariamente as posições das instituições às quais o autor está ligado.

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