Rui Gomes: Conflito no Médio Oriente pode ter impacto indireto significativo na economia do país

DÍLI, 11 de março de 2026 (TATOLI) – O economista Rui Gomes alertou que o atual conflito no Médio Oriente, envolvendo o Irão, Israel e os Estados Unidos da América, poderá ter um impacto indireto significativo na economia de Timor-Leste, particularmente devido ao aumento dos preços do petróleo e dos custos de transporte, bem como ao risco de uma crise de segurança alimentar.
Segundo Rui Gomes, o impacto está relacionado com o Estreito de Ormuz, um ponto estratégico no transporte de petróleo e gás, responsável por cerca de 20 milhões de barris de petróleo bruto, condensado e produtos petrolíferos refinados por dia, representando aproximadamente 20% da procura mundial de petróleo e gás natural.
“Cerca de 90% deste combustível destina-se ao mercado asiático, com a China, a Índia, o Japão e a Coreia do Sul como principais importadores, o que confere grande relevância económica a esta região”, explicou à Tatoli.
Com a intensificação das tensões, o economista observa que a China já antevia ter reservas suficientes para não enfrentar escassez de petróleo em caso de crise, mas outros países podem vir a sofrer dificuldades, o que poderá ter um impacto direto no preço do petróleo.
Rui Gomes também fez uma simulação do preço do petróleo em três cenários distintos:
- Cenário Base (Disrupção Parcial): Caso o conflito se limite a uma área específica, mas com tensões mais amplas, o preço do petróleo poderia atingir entre os 100 e os 120 dólares americanos por barril. Recentemente, o preço do Brent aumentou para os 111 dólares por barril, um aumento de 19,6% numa única semana, o que confirma a tendência do cenário base.
- Cenário de Escalada (Bloqueio Completo): Caso o Estreito de Ormuz seja fechado de forma prolongada, as previsões de instituições como o Goldman Sachs e o Banco Mundial apontam para um aumento do preço do petróleo para até os 150 dólares por barril.
- Cenário Extremo: Se as infraestruturas críticas da região forem danificadas, o fornecimento de 20 milhões de barris de petróleo por dia poderá ser interrompido, fazendo com que o preço do petróleo atinja até os 200 dólares por barril. Neste cenário, os analistas falam de um super-pico de preços.
Rui Gomes explicou que um aumento abrupto nos preços afetaria gravemente a economia global, incluindo a de Timor-Leste. “Até março, a economia timorense já está altamente exposta ao aumento dos preços do petróleo no mercado global, uma vez que o país depende das importações de combustíveis e não possui produção doméstica”, referiu.
O economista alertou que, caso o preço do petróleo ultrapasse os 150 dólares por barril, haverá uma pressão fiscal significativa, afetando o Orçamento Geral do Estado e acelerando o esgotamento do Fundo Petrolífero.
Segundo Rui Gomes, o Governo é o maior consumidor de combustível no país, especialmente para a produção de energia elétrica e serviços públicos, como o fornecimento de eletricidade nas centrais de Hera e Betano. “As importações de combustível para Timor-Leste são estimadas em 180 milhões de dólares anuais. Em 2025, o Executivo alocou 166,5 milhões de dólares especificamente para subsidiar a Eletricidade de Timor-Leste, cobrindo os custos de combustível das centrais elétricas de Hera e Betano”, disse.
Entre 2019 e 2024, o Executivo gastou entre 146 milhões e 174 milhões de dólares anualmente em combustível para eletricidade. “Sabemos que Timor-Leste já é um dos países mais dependentes de combustível e eletricidade na Ásia. Isso significa que o Governo financia entre 0,12 e 0,42 dólares por kWh. Se o preço do petróleo atingir os 150 dólares por barril, o subsídio anual do Governo para eletricidade poderá alcançar os 300 milhões de dólares, exclusivamente para o combustível”, explicou.
Rui Gomes destacou ainda que um aumento de 100 dólares no preço do petróleo resultaria numa redução significativa dos recursos financeiros disponíveis para áreas essenciais, como a saúde, a educação e a agricultura, originando o fenómeno económico conhecido como crowding out fiscal. Ou seja, o aumento da despesa com combustível pode limitar o investimento em outros setores prioritários.
“Este impacto será visível. O aumento dos preços dos combustíveis fará com que os custos de transporte se elevem, o que provavelmente levará a uma inflação superior a 1,8% em 2026, conforme as previsões do Governo”, advertiu.
Riscos para segurança alimentar
Rui Gomes recordou que Timor-Leste depende fortemente da importação de alimentos. Durante crises globais anteriores, como a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, o preço dos alimentos em Díli subiu consideravelmente. No caso do arroz, que constitui um alimento essencial na dieta dos timorenses, o preço aumentou de 11 para 18 dólares por saco. Atualmente, um saco de 25 kg custa entre 13 e 19 dólares.
“O conflito no Médio Oriente representa cerca de 45% do fornecimento global de fertilizantes. Qualquer perturbação no transporte pode aumentar substancialmente os custos para os agricultores timorenses, reduzindo a produção interna de alimentos e agravando a insegurança alimentar”, alertou.
Para mitigar os impactos no mercado doméstico, Rui Gomes sugeriu que o Governo tome medidas imediatas para garantir o fornecimento de bens essenciais, especialmente através de intervenções no mercado. Um exemplo disso é a importadora Esperança Timor Oan, que deve garantir o carregamento prioritário de combustível de Singapura para assegurar a estabilidade do fornecimento nos próximos meses.
“Para combater a possibilidade de aumentos nos preços dos alimentos importados, sugiro que o Ministério do Comércio e Indústria se foque na promoção da produção doméstica de alimentos e implemente programas de subsídios alimentares para garantir a acessibilidade às famílias vulneráveis”, sugeriu.
Rui Gomes também recomendou que o Executivo continue a monitorizar o mercado através do Programa Alimentar Mundial, para acompanhar a evolução dos preços dos alimentos essenciais e permitir intervenções oportunas.
Por fim, Rui Gomes destacou a necessidade de o Governo acelerar a construção de infraestruturas de energia renovável em Laleia, como painéis solares fotovoltaicos, para garantir a sustentabilidade energética e reduzir os custos da eletricidade em até 50%.
“A aposta em energias renováveis pode ajudar a mitigar a dependência de combustíveis fósseis e reduzir o impacto dos aumentos de preços globais sobre a economia timorense, garantindo ao mesmo tempo a estabilidade dos preços da eletricidade no país”, concluiu.
Notícia relevante: Tensão no Médio Oriente: ETO garante suprimento de combustível para próximos quatro meses
Jornalista: Arminda Fonseca/Tradução: Equipa da Tatoli
Editora: Maria Auxiliadora

