“Mauberíadas”, de Xanana Gusmão, regressa a Díli mais de cinco décadas depois

DÍLI, 21 setembro 2026 (TATOLI) – O Primeiro‑Ministro, Xanana Gusmão, participou, na Embaixada de Portugal em Díli, na apresentação da obra Mauberíadas, poema épico escrito em 1975, que retrata a experiência, a identidade e a realidade do povo timorense num período decisivo da história nacional.
Segundo fonte governamental, a sessão decorreu na sexta‑feira, integrada na divulgação da atual edição de Mauberíadas, mais de cinco décadas após a sua primeira publicação, e contou com a presença do Embaixador de Portugal em Timor‑Leste, Duarte Bué Alves, membros do Governo, representantes do corpo diplomático, instituições e parceiros, escritores, poetas e outros convidados.
A mesma fonte recorda que Mauberíadas foi escrita por José Alexandre Gusmão, nome de nascimento do atual Primeiro‑Ministro, quando era jovem jornalista e colaborava regularmente com o semanário A Voz de Timor. O poema foi apresentado ao Concurso Literário de 1975, promovido pela então Administração Portuguesa, através do Centro de Informação e Turismo, sob o tema “Cultura é a Liberdade do Povo”.
O concurso, lançado a 24 de fevereiro de 1975, tinha como objetivos a afirmação de “uma autêntica cultura timorense” e o contributo para o estudo e publicação da história do país. José Alexandre Gusmão recebeu o primeiro prémio pelo poema, posteriormente publicado no semanário A Voz de Timor, a 17 de maio de 1975.
Na obra, Xanana Gusmão estabelece uma ligação com a tradição poética de língua portuguesa, nomeadamente com Os Lusíadas, de Luís de Camões, para refletir sobre Timor, o seu povo, o sofrimento, a esperança, a identidade e o destino da nação.
Durante a apresentação, o Primeiro‑Ministro recordou o contexto histórico em que o poema foi escrito, num período de profundas transformações, e destacou a importância do termo “Maubere” para a identidade e dignidade do povo timorense.
“Timor-Leste atravessou um longo período histórico, que incluiu conflito, sofrimento, ocupação, resistência e luta pela independência. Neste processo, a cultura, a língua, a poesia e a história ajudaram o povo a não esquecer a sua identidade e o percurso histórico que atravessou”, afirmou Xanana Gusmão.
O Chefe do Governo destacou igualmente a relação entre o desenvolvimento nacional e a preservação da memória e da identidade.
“Uma nação não pode ser construída apenas com estradas, edifícios e infraestruturas. Uma nação tem também de ser construída com memória, cultura, educação e capacidade própria de pensar”, afirmou.
Xanana Gusmão agradeceu ainda às pessoas e instituições que contribuíram para a publicação e divulgação da obra e incentivou os jovens timorenses a continuar a ler, escrever e aprofundar o conhecimento sobre a história e a cultura do país.
A atual edição de Mauberíadas foi lançada a 17 de outubro de 2024, no auditório da sede da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, em Lisboa, durante a visita oficial do Primeiro-Ministro a Portugal.
O Embaixador de Portugal, Duarte Alves, por sua vez, destacou o contributo da literatura para a preservação da memória histórica e para o reforço dos laços culturais e linguísticos entre Timor-Leste e Portugal.
“Mauberíadas leva os leitores de volta a um momento importante da história de Timor-Leste, quando o autor era ainda jovem e escreveu esta obra em 1975”, afirmou o diplomata.
Na mesma linha, o Diretor‑Geral da Plural Editores Timor‑Leste, Hélder Carvalho, salientou o trabalho desenvolvido pela instituição ao longo dos últimos 12 anos e a cooperação com entidades timorenses na promoção da leitura e da cultura escrita.
“Esta experiência reforça a necessidade de uma cooperação estreita entre instituições públicas e privadas para promover a leitura, o conhecimento e a cultura escrita”, afirmou.
A apresentação de Mauberíadas em Díli, mais de cinco décadas após a sua primeira publicação, permitiu revisitar o contexto em que o poema foi criado e aproximar a obra de novas gerações de leitores, através de um texto profundamente ligado à memória histórica e à identidade de Timor‑Leste.
Jornalista: Afonso do Rosário
Editora: Isaura Lemos de Deus

