Ramos-Horta defende redução das emissões de carbono e combate à pobreza e ao desemprego

DÍLI, 23 de setembro de 2026 (TATOLI) – O Presidente da República (PR), José Ramos-Horta, defendeu, esta segunda-feira, o combate à pobreza e ao desemprego, bem como a redução das emissões líquidas de carbono, como prioridades para se enfrentar os desafios globais.
O Chefe de Estado apresentou a visão dos Três Zeros (zero pobreza, zero desemprego e zero emissões líquidas de carbono), promovida pelo Prémio Nobel da Paz Muhammad Yunus, como um quadro de ação para alcançar um desenvolvimento mais inclusivo e sustentável, durante a sua intervenção num evento paralelo de alto nível da 81.ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), dedicado aos Negócios Sociais, à Juventude e à Tecnologia.
O evento, subordinado ao tema 2026: 50 Anos de Microcrédito, o Ano dos Negócios Sociais, teve lugar na sede da ONU, em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América.
O PR manifestou satisfação por participar no encontro, a convite do Prémio Nobel da Paz Muhammad Yunus, destacando o contributo do economista para a promoção do microcrédito e dos negócios sociais como instrumentos de combate à pobreza.
Ramos-Horta recordou a relação de amizade que mantém há mais de duas décadas com Yunus, salientando igualmente o papel do economista bengalês na promoção de modelos económicos destinados a criar oportunidades para populações de baixos rendimentos.
O Chefe de Estado lembrou que convidou o economista Yunus a visitar Timor-Leste em 2004, numa altura em que o país ainda enfrentava as consequências da ocupação e da destruição provocada pelo conflito, para apresentar a experiência do microcrédito e discutir possibilidades de desenvolvimento económico para a população timorense.
Segundo o PR, a experiência de Muhammad Yunus demonstrou que as pessoas em situação de pobreza não devem ser vistas apenas como beneficiárias de assistência, mas também como potenciais empreendedoras quando lhes são proporcionados oportunidades e acesso a recursos financeiros.
O Chefe de Estado recordou ainda a sua visita ao Bangladesh, em dezembro de 2024, durante a qual foram assinados acordos e discutidas possibilidades de cooperação entre os dois países nas áreas do comércio, do investimento, da educação, da agricultura e das microfinanças.
Ramos-Horta afirmou que a visão de Muhammad Yunus sobre um mundo baseado em Três Zeros constitui uma referência para enfrentar os atuais desafios globais. “Não é um slogan. É um enquadramento moral”, afirmou, defendendo que o desenvolvimento económico deve colocar o bem-estar das pessoas acima da acumulação de riqueza.
Desafios globais exigem novas respostas
Ramos-Horta salientou que o mundo atravessa um período marcado pela fragmentação geopolítica, pelos riscos associados às alterações climáticas, pelo aumento das desigualdades económicas e pela rápida transformação tecnológica, incluindo o desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA).
Neste contexto, considerou que os países do Sul Global estão a assumir um papel crescente na inovação, no crescimento demográfico e na procura de novos modelos económicos, embora continuem a enfrentar dificuldades no acesso ao financiamento necessário para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Apontou ainda como desafios a falta de oportunidades de emprego para os jovens, a vulnerabilidade às alterações climáticas e o acesso limitado às tecnologias avançadas, defendendo uma resposta internacional que permita reduzir estas desigualdades.
Timor-Leste aposta na diversificação económica
Em relação a Timor-Leste, Ramos-Horta afirmou que o país procura diversificar a sua economia para além do petróleo e do gás, através do investimento em setores como o turismo, as energias renováveis e o desenvolvimento sustentável.
O PR referiu igualmente a integração de Timor-Leste na Associação das Nações do Sudeste Asiático, como 11.º membro, considerando que esta adesão permite ao país reforçar as ligações entre o Sudeste Asiático e o Pacífico e criar oportunidades numa região com cerca de 700 milhões de habitantes.
Tecnologia e IA criam oportunidades e riscos
O Chefe de Estado dedicou igualmente parte da sua intervenção ao impacto da tecnologia e da IA no futuro das sociedades, considerando que estas ferramentas podem criar oportunidades nas áreas da educação, da saúde, da agricultura, da energia e do financiamento inclusivo.
Ao mesmo tempo, alertou para os riscos associados ao desenvolvimento tecnológico, incluindo questões éticas, preconceitos nos sistemas de IA, lacunas na governação, substituição de postos de trabalho e aprofundamento da exclusão digital.
“Precisamos de garantir que a tecnologia serve a humanidade e não aprofunda as desigualdades”, disse, defendendo uma abordagem que coloque as pessoas no centro da transformação digital.
Ramos-Horta considerou que, para países pequenos como Timor-Leste, o desenvolvimento tecnológico representa uma questão importante para garantir que os jovens possam participar na construção do futuro digital e não sejam apenas consumidores de tecnologia.
Juventude deve assumir liderança
Ramos-Horta questionou se os jovens timorenses serão apenas consumidores das novas tecnologias ou se terão condições para participar ativamente na criação e definição do futuro digital.
Destacou que quase metade da população de Timor-Leste tem menos de 25 anos, salientando que os jovens já desempenham um papel importante no presente e não devem ser vistos apenas como os líderes do futuro.
Nesse sentido, apelou aos jovens para assumirem responsabilidades e iniciativas na construção de soluções para os principais desafios sociais, económicos e ambientais, sem esperar autorização para exercerem a sua liderança.
O Chefe de Estado referiu também o movimento “3ZEROS”, inspirado pela visão de Muhammad Yunus e desenvolvido por jovens em diferentes partes do mundo, assente nos objetivos de zero emissões de carbono, zero desemprego e zero concentração da riqueza.
Segundo o Presidente, milhares de iniciativas lideradas por jovens estão a desenvolver-se em vários países em 2026, demonstrando o potencial desta geração para criar soluções inovadoras para problemas globais.
Ramos-Horta destaca responsabilidade dos jovens pela paz
Na mesma intervenção, recordou o desafio lançado anteriormente aos jovens timorenses para escreverem à mão uma frase em defesa da paz para as populações afetadas pelos conflitos em Gaza, Ucrânia, Sudão, Myanmar e noutras regiões do mundo.
Para Ramos-Horta, a iniciativa representa uma forma de os jovens expressarem a sua responsabilidade perante os conflitos e as crises que afetam diferentes comunidades.
Microcrédito transforma oportunidades em desenvolvimento
O Chefe de Estado destacou ainda o percurso de Muhammad Yunus na defesa das pessoas sem acesso às estruturas tradicionais de financiamento e na promoção de oportunidades económicas para comunidades vulneráveis.
Ramos-Horta considera que a experiência do microcrédito demonstra como o acesso a pequenos empréstimos e a oportunidades económicas pode contribuir para que pessoas em situação de pobreza desenvolvam atividades produtivas e melhorem as suas condições de vida.
PR apela à transformação de princípios em ações
Ao concluir a sua intervenção, o PR relacionou os 50 anos de desenvolvimento do microcrédito com a necessidade de se manter a esperança e transformar os princípios dos negócios sociais em ações concretas.
“Cinquenta anos de microcrédito. Cinquenta anos de esperança concretizada”, afirmou Ramos-Horta, reiterando que zero pobreza, zero desemprego e zero emissões líquidas de carbono devem ser encarados como responsabilidades e não apenas como objetivos de longo prazo.
Jornalista: Afonso do Rosário
Editora: Isaura Lemos de Deus

