DÍLI, 15 de julho de 2026 (TATOLI) – Está a decorrer até ao dia 17, no Palm Springs Hotel, em Díli, uma Conferência Internacional sob o tema Verdade, Memória e Justiça para a Consolidação da Paz e a Reconciliação. A iniciativa foi promovida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) e pelo Centro Nacional Chega! (CNC).
O evento reúne decisores políticos, académicos, sobreviventes de violações dos direitos humanos e especialistas em comissões da verdade e reconciliação de vários países, com o objetivo de partilharem experiências na promoção de uma paz duradoura. A conferência pretende produzir também recomendações destinadas a reforçar a preservação da memória histórica, expandir a educação para a paz e fortalecer a cooperação internacional em apoio à reconciliação e à construção de sociedades pacíficas em Timor-Leste e na região da Ásia-Pacífico.

Durante a sua intervenção, o Diretor-Executivo do CNC, Hugo Fernandes, afirmou que a iniciativa não constitui apenas um espaço de intercâmbio de políticas ou de aprendizagem técnica sobre comissões da verdade, mas representa também uma homenagem ao percurso da humanidade rumo à paz.
O responsável recordou que os 24 anos de conflito político e a violência de 1999 deixaram marcas profundas na história de Timor-Leste, que não devem ser esquecidas. “A nossa soberania é tão forte quanto a nossa memória e o nosso desenvolvimento é tão seguro quanto o nosso compromisso com a justiça”, afirmou o dirigente.
Segundo o responsável, o relatório Chega!, elaborado pela Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação, e o relatório Per Memoriam Ad Spem, produzido pela Comissão de Verdade e Amizade entre Timor-Leste e a Indonésia, constituem pilares fundamentais para a promoção da justiça restaurativa no país, através do Nahe Biti Boot, um mecanismo tradicional timorense.
Ao abrigo deste mecanismo, milhares de autores de infrações de menor gravidade tiveram a oportunidade de reconhecer os seus atos, manifestar arrependimento e ser reintegrados nas respetivas comunidades. Paralelamente, foram preservados milhares de testemunhos de vítimas em arquivos históricos, de modo a garantir que tragédias semelhantes não se repitam.
Hugo Fernandes explicou ainda que, desde a criação do CNC, há nove anos, a instituição tem desenvolvido diversos programas para garantir que a história não permaneça apenas nos arquivos, mas constitua também um instrumento de aprendizagem para as gerações mais jovens.

Por sua vez, a Diretora do Escritório Regional da UNESCO em Jacarta e em Timor-Leste, Maki Katsuno-Hayashikawa, afirmou que a conferência representa o culminar da cooperação entre a UNESCO, o Governo e a Agência de Cooperação Internacional da Coreia (KOICA), iniciada em 2021 no âmbito do Projeto de Digitalização dos Arquivos do CNC.
A responsável explicou que o projeto assenta em três pilares fundamentais: a preservação dos arquivos históricos; o reforço do ensino da história através do desenvolvimento curricular e da formação de professores; e a promoção do diálogo a nível nacional, regional e internacional sobre a reconciliação e a construção da paz.
Maki Katsuno-Hayashikawa sublinhou que a experiência de Timor-Leste nos domínios da verdade e da reconciliação é uma das mais abrangentes do mundo e pode servir de referência para outros países que enfrentam desafios semelhantes.
“Timor-Leste escolheu a coragem de revelar a verdade em vez do conforto do esquecimento. Esta experiência oferece muitas lições para a região e para o mundo”, afirmou.
Acrescentou que, numa altura em que a democracia, os direitos humanos e a cooperação multilateral enfrentam desafios globais, a preservação da memória histórica se torna cada vez mais importante para que as sociedades compreendam o passado com honestidade e previnam o ressurgimento de conflitos.

Na mesma linha, o Diretor da KOICA em Timor-Leste, Youn Hwa Kang, salientou que o desenvolvimento sustentável não depende apenas do crescimento económico e da construção de infraestruturas, mas também da solidez das instituições, da capacidade de transmitir conhecimentos às gerações futuras e da compreensão da própria história por parte da sociedade.
Segundo o responsável, o apoio da KOICA ao Projeto de Digitalização dos Arquivos do CNC constitui um investimento de longo prazo destinado a preservar a memória nacional, reforçar a educação e promover o diálogo com vista à consolidação da reconciliação.
“Os resultados deste investimento podem não ser imediatos, mas constituem uma base essencial para o fortalecimento das instituições e para a construção de uma paz duradoura”, concluiu.
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Jornalista: Cidalia Fátima/Traduções: Equipa da Tatoli
Editora: Armandina Moniz




