Estudo alerta para aumento global das mortes associadas às alterações climáticas

DÍLI, 29 de outubro de 2026 (TATOLI) – As mortes provocadas pelo calor extremo, pelas secas prolongadas e pela propagação de doenças associadas às alterações climáticas estão a aumentar a um ritmo superior ao registado há uma década, ultrapassando os esforços de adaptação e mitigação em várias regiões do mundo.
O alerta consta do relatório Lancet Countdown 2026, divulgado às vésperas da 31.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, que decorrerá na Turquia, em novembro. O documento foi elaborado por 146 especialistas de 71 instituições internacionais, em colaboração com entidades como a Fundação Oswaldo Cruz.
Segundo o estudo, as emissões de gases com efeito de estufa continuam a atingir níveis recorde. Como consequência, a média anual de mortes associadas às temperaturas elevadas aumentou cerca de 36% no período posterior ao Acordo de Paris, em comparação com a década anterior.
Perante o agravamento dos riscos para a saúde pública, os especialistas defendem o reconhecimento formal das alterações climáticas como uma emergência global de saúde pública pela Organização Mundial de Saúde e pelos mecanismos das Nações Unidas.
América Latina entre as regiões mais afetadas
Na América do Sul, o número anual de mortes atribuídas às ondas de calor mais do que duplicou, ultrapassando as 13 mil. Os idosos com mais de 65 anos, as crianças e as pessoas com doenças preexistentes estão entre os grupos mais vulneráveis.
No Brasil, as mortes ligadas ao calor extremo quadruplicaram em comparação com a década de 1990. A situação é agravada pelo aumento dos incêndios florestais na Amazónia e no Pantanal, que contribuem para a poluição atmosférica através da libertação de partículas finas e fumo tóxico.
A exposição a estes poluentes está relacionada com complicações respiratórias e milhares de mortes prematuras, aumentando simultaneamente a pressão sobre os serviços de urgência.
Impactos económicos e propagação de doenças
Os efeitos da crise climática estendem-se à economia e ao mercado de trabalho. No Brasil, o stress térmico poderá provocar a perda de 6,7 mil milhões de horas de trabalho ao ar livre por ano, afetando sobretudo os setores da agricultura e da construção civil.
As perdas económicas associadas a esta redução da capacidade de trabalho estão estimadas em cerca de 17,7 mil milhões de dólares americanos anuais, o equivalente a aproximadamente 1% do Produto Interno Bruto brasileiro.
O estudo alerta ainda para a expansão da área de distribuição do mosquito Aedes aegypti, favorecida pelas alterações da temperatura e dos padrões de precipitação. Este fenómeno contribui para o risco de surtos de dengue, chikungunya e zika.
Angola e Moçambique enfrentam riscos acrescidos
Em Angola e Moçambique, as limitações das infraestruturas e da capacidade de adaptação tornam as populações particularmente vulneráveis aos fenómenos meteorológicos extremos.
As secas e as inundações agravam a insegurança alimentar e favorecem a propagação de doenças como a febre amarela, a malária e a cólera, sobretudo em zonas com acesso limitado a água potável e a serviços de saúde.
Estas condições contribuem para o aumento da desnutrição infantil e para a sobrecarga dos sistemas de saúde locais, dificultando a resposta a emergências sanitárias.
Europa também regista agravamento dos impactos
Os efeitos das alterações climáticas não se limitam às regiões tropicais. A Europa, considerada um dos continentes onde o aquecimento ocorre mais rapidamente, registou cerca de 62.700 mortes provocadas pelo calor em 2024.
De acordo com o relatório, os alertas de ondas de calor aumentaram até 450% face à década de 1990.
Saúde deve estar no centro das negociações climáticas
Apesar dos progressos registados no investimento em energias limpas e na aprovação de legislação para proteger a saúde pública, os especialistas consideram que as medidas adotadas continuam a ser insuficientes para compensar os danos provocados pela dependência mundial dos combustíveis fósseis.
O relatório sublinha, por isso, a necessidade de reforçar as políticas de prevenção, os sistemas de alerta precoce e a capacidade de resposta dos serviços de saúde, sobretudo nas comunidades mais expostas aos efeitos das alterações climáticas.
Equipa da Tatoli

