Índice Global da Fome coloca Timor-Leste entre países mais afetados do Sudeste Asiático

DÍLI, 23 de outubro de 2023 (TATOLI) – Timor-Leste ocupou, em 2026, a pior posição no Sudeste Asiático no Índice Global da Fome (IGF). O país situou-se na 114.ª posição entre 122 nações, com uma pontuação de 32,5, um nível considerado ‘grave’ de fome. O relatório foi publicado no dia 14 deste mês.
Um índice é, geralmente, uma classificação de países ordenados de acordo com a pontuação obtida com base em determinados critérios. Existem índices para avaliar a qualidade da democracia, a incidência da corrupção, a igualdade de direitos, as questões de género, a liberdade de imprensa, entre outros. Estes índices resultam de estudos extensos e longitudinais realizados por organizações não-governamentais ou organismos internacionais, como a ONU ou a FAO. A posição obtida permite avaliar o desempenho de um país e a sua evolução em relação a anos anteriores.
Os índices servem tanto para chamar a atenção para situações consideradas inadequadas ou injustas, como para justificar opções políticas adotadas pelos governos. Quando os resultados são positivos, podem também constituir motivo de orgulho nacional. Não é esse, porém, o caso de Timor-Leste no que diz respeito à fome, segundo o estudo da Welthungerhilfe (Ajuda a um Mundo sem Fome, em português), uma organização alemã independente e sem fins lucrativos que atua nas áreas do desenvolvimento, cooperação e assistência humanitária.
Segundo o IGF, Timor-Leste está, juntamente com o Laos, entre os dois países do Sudeste Asiático classificados com um nível grave de fome. Cada país recebe uma pontuação numa escala de 0 a 100 pontos. Os dados indicam que a pontuação de Timor-Leste aumentou de 27,3 pontos, em 2018, para 32,5 pontos, em 2026, representando um agravamento de 5,2 pontos.
O relatório de 2026 utiliza dados relativos de 2021 a 2025 para avaliar a situação de fome, através de indicadores relacionados com a subnutrição, a percentagem de crianças com menos de cinco anos com baixo peso para a altura, o atraso no crescimento infantil e a mortalidade em crianças com menos de cinco anos.
Perante este cenário, a Organização Não-Governamental La’o Hamutuk alertou para os riscos da insegurança alimentar e da má nutrição no país, defendendo mudanças estruturais nas políticas de agricultura, nutrição e proteção social para garantir o acesso da população a alimentos suficientes e nutritivos.
Num comunicado, a organização considera que a fome no país está associada não apenas à falta de alimentos, mas também à pobreza, à baixa produção agrícola, à dependência das importações e ao acesso limitado a uma alimentação nutritiva.
Segundo dados do Programa Alimentar Mundial (PAM), mais de 60% do abastecimento alimentar de Timor-Leste depende das importações. Esta situação torna-se as famílias vulneráveis às flutuações dos preços nos mercados internacionais e às interrupções no abastecimento.
A La’o Hamutuk defende, por isso, que o Governo deve reforçar a produção nacional, apoiar os agricultores familiares, melhorar os sistemas de distribuição e garantir que as famílias, sobretudo as mais vulneráveis, tenham acesso a alimentos nutritivos a preços comportáveis.
A organização alertou igualmente para os possíveis impactos do El Niño na produção agrícola, no acesso à água e na segurança alimentar. De acordo com a atualização da Organização Meteorológica Mundial, de 3 de setembro de 2026, o fenómeno já se tinha formado e existia uma elevada probabilidade de persistir até fevereiro de 2027.
A La’o Hamutuk recordou que o Executivo tinha referido, no passado dia 15, que as previsões disponíveis apontavam para uma redução da precipitação sazonal em Timor-Leste entre novembro de 2026 e abril de 2027, com riscos associados à seca, temperaturas elevadas, escassez de água, irregularidade da precipitação e redução da produção agrícola.
Neste sentido, a organização considera que o Governo deve criar um plano de ação com responsabilidades institucionais definidas, orçamento, calendário de execução e indicadores de resultados, de modo a antecipar os riscos antes de as famílias perderem a produção agrícola ou a capacidade de adquirir alimentos.
O organismo sublinha, contudo, que o El Niño não é a única causa da fome, podendo agravar problemas estruturais já existentes, como a pobreza, a baixa produtividade agrícola e o acesso insuficiente aos serviços públicos.
Má nutrição infantil
A organização manifestou também preocupação com os indicadores de subnutrição infantil apresentados no IGF de 2026, salientando que o atraso no crescimento e a má nutrição aguda continuam a constituir desafios importantes para o país.
Segundo dados do PAM, uma análise da Classificação Integrada da Segurança Alimentar em Fases, publicada em 2024, 27% dos agregados familiares encontram-se em situação de insegurança alimentar aguda.
Uma análise do custo da dieta, atualizada em 2023, indicou ainda que 75% dos agregados familiares não tinham capacidade financeira para pagar uma dieta nutritiva e que o custo dos alimentos aumentou 78% entre 2019 e 2023.
A La’o Hamutuk considera que a má nutrição infantil pode comprometer o crescimento, o desenvolvimento cognitivo e a aprendizagem, afetando as oportunidades futuras das crianças.
Por isso, recomenda o reforço dos serviços de saúde e nutrição, incluindo a deteção precoce e o tratamento da má nutrição, bem como o apoio nutricional às grávidas, às mulheres que amamentam e às crianças.
Seis medidas recomendadas
Para responder aos desafios da insegurança alimentar, a La’o Hamutuk recomenda seis medidas prioritárias: reforçar a proteção social das famílias vulneráveis; aumentar o investimento na agricultura familiar; articular os programas de alimentação escolar com a produção local; melhorar os serviços de saúde e nutrição; publicar um plano de ação e o respetivo orçamento para enfrentar o El Niño; e reforçar a monitorização e a prestação de contas.
A organização defende que o programa Merenda Escolar deve privilegiar, sempre que possível, a aquisição de produtos a agricultores locais, respeitando os padrões de qualidade e garantindo preços justos aos produtores.
Considera ainda que o Governo deve divulgar regularmente dados sobre os preços dos alimentos, a disponibilidade de água, a produção agrícola, a insegurança alimentar e a situação nutricional da população.
A organização pediu igualmente às instituições públicas, aos parceiros de desenvolvimento, às organizações de agricultores e às comunidades que trabalhem em conjunto para responder às necessidades imediatas da população e combater as causas estruturais da insegurança alimentar.
Notícia relevante: Índice Global da Fome classifica Timor-Leste em situação ‘grave’
Equipa da Tatoli

