OMM alerta para El Niño de intensidade sem precedentes e risco de fenómenos climáticos extremos

DÍLI, 23 de outubro de 2026 (TATOLI) – A Organização Meteorológica Mundial (OMM) alertou para a possibilidade de o El Niño atingir uma intensidade sem precedentes, aumentando o risco de fenómenos meteorológicos extremos em várias partes do mundo. Segundo as previsões, o fenómeno deverá atingir o seu pico no final deste ano, embora os efeitos possam prolongar-se para além desse período.
A Secretária-Geral da OMM, Celeste Saulo, afirmou esta quarta-feira durante uma conferência de imprensa em Genebra, Suíça, que o agravamento do fenómeno poderá intensificar os episódios de calor extremo, secas e inundações, aumentando a pressão sobre as populações mais vulneráveis.
De acordo com a mais recente Atualização Global do Clima Sazonal da organização, as temperaturas da superfície do mar no Pacífico tropical poderão atingir valores até 3,8 graus Celsius acima da média entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
Celeste Saulo advertiu que “os fenómenos meteorológicos extremos já em curso poderão multiplicar-se e alastrar-se à medida que o El Niño se intensifica”, defendendo a adoção de medidas preventivas para reduzir os riscos e proteger as comunidades expostas.
A dirigente salientou que os fenómenos meteorológicos extremos não têm necessariamente de resultar em emergências humanitárias ou na perda de vidas humanas, sublinhando que a prevenção e o acesso atempado à informação científica fiável podem fazer a diferença.
A responsável defendeu, por isso, o reforço dos sistemas de alerta precoce e da cooperação entre Governos e organizações humanitárias, para a identificação antecipada dos riscos e a proteção das populações mais vulneráveis.
Cerca de 50 milhões de pessoas em risco de insegurança alimentar
Os possíveis impactos humanitários do fenómeno foram igualmente destacados pelo Subsecretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Assuntos Humanitários, Tom Fletcher, que classificou o El Niño como “colossal”, alertando para as consequências potencialmente devastadoras em diferentes partes do mundo.
Segundo o responsável, cerca de 50 milhões de pessoas poderão enfrentar um agravamento da insegurança alimentar, num contexto internacional já marcado por conflitos, deslocações forçadas e aumentos dos preços dos combustíveis, fertilizantes e alimentos.
A redução significativa da ajuda humanitária poderá agravar ainda mais a situação, dificultando a resposta às necessidades das populações afetadas.
Tom Fletcher advertiu também que os efeitos do El Niño poderão ultrapassar as regiões diretamente atingidas, provocando perturbações na economia mundial e contribuindo para o agravamento de conflitos, novas deslocações populacionais e fluxos migratórios.
ONU mobiliza mais de 50 milhões de dólares
Apesar dos riscos, a ONU considera que ainda existem oportunidades para preparar as comunidades e reduzir as consequências humanitárias do fenómeno.
Tom Fletcher destacou os progressos registados nas tecnologias e nos sistemas de previsão meteorológica desde o último episódio de El Niño, defendendo o aproveitamento destes avanços para reforçar a capacidade de antecipação e resposta a situações de emergência.
Neste âmbito, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários disponibilizou mais de 50 milhões de dólares americanos do Fundo Central de Resposta a Emergências para apoiar 11 países particularmente expostos aos efeitos do fenómeno.
Entre os países abrangidos encontram-se o Chade, El Salvador, Etiópia, Somália e Sudão do Sul.
Regiões poderão enfrentar impactos distintos
As previsões da OMM apontam para consequências diferentes consoante a região, com potenciais efeitos na agricultura, nos recursos hídricos e nos meios de subsistência.
África Oriental: Algumas zonas poderão registar condições mais húmidas do que o habitual durante a estação chuvosa, entre outubro e dezembro, aumentando o risco de precipitação intensa e inundações.
África Austral: A probabilidade de condições mais secas poderá aumentar a partir de novembro, coincidindo com o início do período de chuvas. A situação poderá comprometer a produção agrícola, reduzir a disponibilidade de água e afetar os meios de subsistência das comunidades.
Sudeste Asiático: A subida das temperaturas e a diminuição da precipitação poderão agravar a exposição ao calor, pressionar a agricultura e dificultar o abastecimento de água. A região poderá ainda enfrentar um risco acrescido de incêndios florestais e de episódios de neblina associados ao fumo.
Américas: As previsões indicam a possibilidade de precipitação acima do normal no noroeste dos Estados Unidos da América e no sudoeste da América do Sul. A América do Norte e a região setentrional das Caraíbas poderão igualmente registar níveis de precipitação superiores à média. Em contrapartida, o risco de seca poderá aumentar em partes da América Central, nas Caraíbas meridionais e na região amazónica.
Prevenção é fundamental para reduzir os riscos
Perante o cenário previsto, a OMM e a ONU apelam ao reforço da preparação e da cooperação internacional para minimizar os impactos climáticos, humanitários e económicos associados ao El Niño.
As duas organizações sublinham que a disponibilização de informação meteorológica fiável, a preparação antecipada dos serviços de emergência e a adoção de medidas preventivas são fundamentais para reduzir a vulnerabilidade das populações.
Embora a intensificação do fenómeno represente um risco significativo para várias regiões do mundo, os responsáveis consideram que a antecipação e a resposta coordenada poderão ajudar a evitar que os fenómenos meteorológicos extremos se transformem em crises humanitárias de grande escala.
Equipa da Tatoli

