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Ramos-Horta pede ação global para travar ciclo de conflitos e reforçar multilateralismo

O Presidente da República, José Ramos-Horta, discursou na 81.ª sessão da AGNU, em Nova Iorque. Foto-GPR

DÍLI, 24 de setembro de 2026 (TATOLI) – O Presidente da República, José Ramos-Horta, apelou, esta quarta-feira, aos líderes mundiais para que adotem uma ação mais determinada na prevenção de conflitos, na redução dos arsenais nucleares e na defesa do multilateralismo, alertando que a humanidade corre o risco de caminhar para guerras cada vez mais amplas.

Ao discursar na 81.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), em Nova Iorque, Ramos-Horta defendeu que os Estados devem privilegiar o diálogo com adversários e inimigos, de forma a evitar que tensões evoluam para novos conflitos.

“Falamos com os adversários para não nos tornarmos inimigos. Falamos com os inimigos para evitar guerras e, talvez, tornarmo‑nos parceiros na paz”, afirmou.

O Chefe de Estado alertou igualmente para os riscos associados à acumulação de armas nucleares, considerando que um acidente, um erro de cálculo, uma falha informática ou uma decisão estratégica errada podem colocar em risco toda a humanidade.

Segundo Ramos-Horta, parte dos recursos financeiros destinados ao desenvolvimento de armamento deveria ser canalizada para áreas essenciais como o acesso à água potável, a alimentação, a educação e os serviços de saúde.

O Presidente apelou ainda ao fim da indiferença perante o sofrimento das populações afetadas por conflitos, particularmente mulheres e crianças, sublinhando que as vítimas das guerras não podem ser reduzidas a números ou estatísticas.

“Não é falta de informação. Estamos inundados de informação. Podemos transmitir tudo em direto, à medida que acontece. É uma falta de sentimento, uma insensibilidade que permitimos que se instale sobre nós como poeira”, afirmou.

Ramos-Horta defendeu também uma reforma das instituições multilaterais, argumentando que nenhum país, independentemente da sua dimensão ou poder, consegue responder sozinho aos desafios globais atuais.

No âmbito da reforma das Nações Unidas, Timor-Leste defendeu a expansão do Conselho de Segurança, tanto na categoria de membros permanentes como na não permanentes, de modo a reforçar a representação dos países em desenvolvimento e das regiões historicamente sub-representadas.

O Presidente considerou ainda que o direito de veto é incompatível com o princípio da igualdade soberana dos Estados-membros e apelou ao cumprimento da Carta das Nações Unidas.

Sobre a situação no Médio Oriente, Ramos-Horta reafirmou que Timor-Leste se junta à maioria dos Estados-membros da ONU na defesa da solução de dois Estados para israelitas e palestinianos.

O Chefe de Estado abordou igualmente os conflitos na Ucrânia, no Sudão, no Sudão do Sul, na República Democrática do Congo, no Afeganistão, em Myanmar e no Iémen, defendendo uma resposta internacional mais eficaz às crises humanitárias.

Ramos-Horta apelou ainda à comunidade internacional para reforçar a ação climática e garantir financiamento previsível e acessível, transferência de tecnologia e capacitação para os países mais vulneráveis.

No domínio das novas tecnologias, salientou que os países em desenvolvimento devem participar ativamente na governação e no desenvolvimento da inteligência artificial, e não se limitar a receber tecnologias concebidas noutros países.

O Presidente destacou também a adesão de Timor-Leste à ASEAN, em outubro de 2025, considerando-a um momento histórico e reafirmando o compromisso do país com uma ASEAN unida, centrada nas pessoas e resiliente.

No final do discurso, Ramos-Horta apresentou mensagens de crianças e jovens timorenses que apelaram à paz e rejeitaram a guerra, salientando que a juventude deve herdar escolas, casas e oportunidades, e não medo, destruição e ódio.

“Da parte de um país que aprendeu com a guerra, Timor-Leste envia uma mensagem ao mundo: a paz não é apenas um sonho, mas uma decisão que todos temos de escolher”, citou o Presidente, a partir da mensagem de uma jovem timorense de 16 anos.

Ramos-Horta terminou o discurso recordando a Declaração Global de Compaixão, lançada à margem da AGNU no ano anterior, defendendo que a comunidade internacional deve transformar a compaixão numa força para promover a justiça e a paz.

“Globalizámos os mercados e a tecnologia. Chegou agora o momento de globalizarmos a compaixão”, afirmou, citando o também laureado com o Prémio Nobel da Paz, Kailash Satyarthi.

Jornalista: Afonso do Rosário

Editora: Isaura Lemos de Deus

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