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Laureados Nobel alertam para riscos da desglobalização e dos conflitos geopolíticos

Foto da Tatoli/António Daciparu

DÍLI, 25 de agosto de 2026 (TATOLI) — Os laureados com o Prémio Nobel de Economia James Robinson e Robert Merton alertaram hoje para os riscos que a desglobalização, os conflitos geopolíticos e as perturbações nas cadeias globais de abastecimento representam para a economia mundial.

As declarações foram proferidas durante a sessão Desglobalização e desafios dos conflitos globais para a economia mundial, realizada no Palácio Presidencial, em Díli, no âmbito da Cimeira de Ciência para o Desenvolvimento 2026.

A reação contra a globalização e os efeitos tecnológicos

Na sua intervenção, James Robinson afirmou que a crescente reação contra a globalização nos Estados Unidos da América (EUA) está relacionada, em parte, com o aumento das desigualdades e com a redução dos salários reais dos trabalhadores com menor nível de escolaridade.

“Se não tiver um diploma universitário, o seus salários são agora mais baixos do que eram há 50 anos”, afirmou Robinson.

Robison explicou que, embora a globalização e o aumento das importações provenientes da China tenham contribuído para a desindustrialização dos EUA, estes fatores não explicam totalmente a redução dos salários. Segundo o economista uma parte significativa resulta da disseminação dos computadores, que substituíram trabalhadores com menor qualificação.

O laureado sublinhou que a reação contra a globalização decorre de uma combinação de fatores económicos e políticos, incluindo nacionalismo económico, questões de identidade e políticas de imigração. Recordou ainda que fenómenos semelhantes ocorreram durante a Grande Depressão dos anos 1930, quando políticas protecionistas norte‑americanas desencadearam retaliações comerciais.

Cadeias de abastecimento vulneráveis

Por sua vez, Robert Merton destacou os riscos associados à excessiva concentração das cadeias globais de abastecimento. A procura pelo menor custo possível levou muitas empresas a concentrar produção e fornecimento em determinados mercados, aumentando a vulnerabilidade perante guerras, crises ou outras perturbações.

“O custo mais baixo tem um preço: o risco de que, por qualquer razão, essa cadeia de abastecimento seja interrompida”, afirmou.

O economista observou, contudo, que a desglobalização não ocorre de forma uniforme, sobretudo nos mercados financeiros internacionais, onde os capitais continuam interligados. Considerou que a diversificação internacional permanece uma estratégia essencial de gestão de risco: “Uma carteira globalmente diversificada é muito menos arriscada, tendo em conta o retorno esperado, do que concentrar o dinheiro num único país.”

Oportunidades para Timor‑Leste na integração regional

Ao abordar a situação de Timor-Leste, Merton afirmou que a integração do país na Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) constitui uma vantagem perante as mudanças na economia mundial.

Por ser uma economia de pequena dimensão, Timor‑Leste dispõe, segundo o economista, de ampla margem para expandir a sua atividade através do comércio e da integração regional. O acesso ao mercado alargado da ASEAN poderá criar oportunidades para aumentar exportações e dinamizar o crescimento económico.

Ciência como ponte diplomática

Nikolaus Turner, dirigente da Fundação dos Encontros de Laureados do Nobel de Lindau, destacou o papel da ciência na aproximação entre países. Recordou que a primeira reunião de Lindau, em 1951, procurou estabelecer ligações entre jovens cientistas alemães e a comunidade científica internacional num período em que a Alemanha se encontrava politicamente isolada.

Turner salientou que os encontros de Lindau reúnem atualmente jovens cientistas e laureados do Nobel de diferentes países, independentemente da nacionalidade, género ou religião. “Enquanto acreditarem na ciência e nas suas regras básicas, esse é o lugar onde podem estabelecer ligações”, afirmou.

O responsável revelou que o memorando de entendimento assinado na segunda‑feira entre Timor‑Leste e a organização permitirá a participação de jovens cientistas timorenses nos encontros internacionais realizados em Lindau, na Alemanha. Investigadores entre os 25 e os 35 anos poderão integrar estas iniciativas, reforçando as ligações da comunidade científica nacional com investigadores e laureados do Nobel de todo o mundo.

Notícia relevante:Ramos-Horta: A ciência deve servir quem mais precisa

Jornalista: Afonso do Rosário

Editora: Isaura Lemos de Deus

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