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Nobel da Paz indiano defende prioridade ao desenvolvimento humano nos Países Menos Desenvolvidos

Os participantes da Cimeira de Ciência para o Desenvolvimento 2026. Foto da Tatoli/Egas Cristóvão

DÍLI, 24 de agosto de 2026 (TATOLI) – O laureado Nobel da Paz de 2014, Kailash Satyarthi, defendeu hoje que o desenvolvimento humano deve ser colocado no centro das políticas dos Países Menos Desenvolvidos (PMD), através de investimentos em saúde, educação, proteção social, emprego e utilização da ciência e tecnologia.

A intervenção ocorreu na primeira sessão plenária da Cimeira de Ciência para o Desenvolvimento 2026, realizada no Centro de Convenções de Díli, dedicada ao tema Como pode ser o progresso nos PMD.

Satyarthi afirmou que Timor‑Leste constitui um exemplo de país que escolheu a paz e a reconstrução nacional após décadas de ocupação e conflito.

“Vocês escolheram a paz em vez da violência, a esperança em vez do medo, a construção da nação em vez da destruição e a fraternidade em vez da divisão”, disse, destacando também a opção timorense de “promover a ciência como instrumento de desenvolvimento”.

O laureado defendeu que o progresso não pode continuar a ser medido apenas pelo crescimento económico. “Temos de redefinir o progresso. A compreensão normal é que apenas o crescimento económico pode ser o motor do progresso humano”, afirmou.

Segundo dados apresentados por Satyarthi, 44 PMD concentram cerca de 14% da população mundial, mas representam pouco mais de 1,4% do Produto Interno Bruto global.

Para o ativista, pobreza, fome, desemprego e iliteracia não devem ser encarados como meros indicadores estatísticos, mas como realidades que afetam pessoas — sobretudo crianças — que enfrentam condições de vida difíceis.

“Quando falamos destes países, eles não são simplesmente números. Quando falamos destas crianças, elas não são simplesmente números. São seres humanos”, sublinhou.

Satyarthi colocou saúde, educação e proteção social entre as principais prioridades para os PMD, defendendo que o desenvolvimento humano deve constituir a base do progresso económico e social.

Destacou a importância da saúde e educação das crianças: “Uma criança saudável aprende mais rapidamente. Depois vem a educação”, afirmou.

Defendeu ainda que os sistemas educativos devem criar condições para o acesso ao emprego e estar alinhados com as necessidades locais, o desenvolvimento de competências e a utilização das tecnologias disponíveis.

O laureado apelou aos países mais desenvolvidos para reforçarem o investimento nos PMD, sobretudo na educação, saúde e proteção das crianças, sublinhando que esse apoio não deve ser encarado como caridade. “Se as crianças destes países forem educadas hoje e tiverem saúde hoje, o retorno para a economia mundial será muito maior do que se pode imaginar”, afirmou.

Criticou também o incumprimento dos compromissos internacionais de financiamento ao desenvolvimento e recordou o princípio dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, segundo o qual nenhum país deve ficar para trás. “Quantos países estão realmente a cumprir essa promessa? Infelizmente, isso não está a acontecer”, disse.

Satyarthi defendeu que a ciência e a tecnologia devem ser utilizadas para resolver problemas concretos das populações e promover o desenvolvimento humano, e não apenas para gerar lucro.

Sobre a Inteligência Artificial, afirmou que o avanço tecnológico deve permanecer sob controlo humano e ser orientado para a justiça, a igualdade, a paz e a sustentabilidade.

“As máquinas não devem controlar a mente humana. O ser humano deve controlar as máquinas”, declarou.

No encerramento da intervenção, apelou à comunidade internacional para reforçar a responsabilidade perante as populações dos PMD, defendendo uma abordagem baseada na compaixão e na ação.

“Globalizámos os mercados e as economias. Globalizámos os dados. Globalizámos a tecnologia. Agora, vamos globalizar a compaixão”, concluiu.

Jornalista: Afonso do Rosário

Editora: Isaura Lemos de Deus

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