Princesa do Butão defende ciência ao serviço do bem-estar humano

DÍLI, 24 de agosto de 2026 (TATOLI) – A Princesa do Butão, Sonam Dechan Wangchuck, defendeu hoje que o desenvolvimento científico e tecnológico deve estar associado ao bem-estar humano, à proteção ambiental e à redução das igualdades.
A posição foi apresentada na Cimeira de Ciência para o Desenvolvimento 2026, subordinada ao tema Ciência ao Serviço da Vida, realizada em Díli, onde a Princesa destacou a importância de se colocar o conhecimento científico ao serviço das pessoas e das futuras gerações.
“Os desafios que enfrentamos não respeitam fronteiras. As alterações climáticas, a transformação tecnológica, a desigualdade, a segurança alimentar e energética, a saúde pública e a Inteligência Artificial [IA] irão moldar vidas em todo o mundo. A ciência será fundamental para enfrentá-los”, afirmou.
Segundo Sonam Wangchuck, a ciência não pode existir separadamente da sociedade, porque o conhecimento científico só adquire significado através da forma como é utilizado.
“A questão já não é apenas saber o que a ciência pode fazer, mas o que escolhemos fazer com aquilo que a ciência torna possível. Quem beneficiará? Quem poderá ficar para trás? O que exigirão as nossas escolhas da Terra?”, questionou.
A Princesa defendeu que estas questões devem ser consideradas desde o início dos processos de investigação e inovação, incluindo nos laboratórios, nas unidades de saúde, nos sistemas de dados e no setor agrícola.
Considerou igualmente necessário avaliar o impacto das novas tecnologias sobre diferentes grupos sociais, sobretudo aqueles com menos recursos para beneficiar das mudanças científicas e tecnológicas.
Ao abordar a experiência do Butão, Sonam Wangchuck destacou a reflexão do país sobre o verdadeiro propósito do desenvolvimento, recordando a visão do antigo Rei Jigme Singye Wangchuck, que questionou o significado do progresso numa época em que este era medido sobretudo por indicadores económicos.
Foi neste contexto que surgiu o conceito de Felicidade Interna Bruta, uma abordagem que procura colocar o bem-estar humano no centro do desenvolvimento.
“A prosperidade é significativa quando fortalece o bem-estar humano, as comunidades, a cultura, a boa governação e o ambiente natural”, afirmou.
Segundo a princesa, esta filosofia orientou as decisões do Butão durante várias gerações e continua a influenciar a forma como o país aborda o desenvolvimento económico, tecnológico e social.
Destacou igualmente a política de conservação ambiental do Butão, afirmando que a constituição do país determina que pelo menos 60% do território permaneça coberto por florestas.
“Hoje, as florestas do Butão permanecem amplamente intactas e constituem um sumidouro líquido de carbono”, disse.
Para Sonam Wangchuck , a experiência do Butão demonstra que o desenvolvimento económico e tecnológico pode ser acompanhado por políticas de proteção dos recursos naturais.
Ao abordar a inovação tecnológica, destacou a necessidade de conciliar tecnologia, desenvolvimento económico, cultura e a comunidade natureza, referindo como exemplo a Gelephu Mindfulness City, uma nova iniciativa que procura integrar espiritualidade, saúde, educação, finanças, tecnologia, turismo e economia criativa.
A Princesa recordou também a experiência do Butão durante a pandemia da Covid-19, considerando-a um exemplo da relação entre conhecimento científico e ação humana. A ciência permitiu desenvolver vacinas, mas, segundo afirmou, o conhecimento científico por si só não era suficiente para garantir a vacinação da população.
Ao abordar o futuro da ciência, salientou que o mundo está a entrar num período de rápida expansão das capacidades científicas e tecnológicas, nomeadamente nas áreas de IA, biotecnologia, ciência climática e novas formas de energia.
Neste contexto, defendeu que a sociedade deve discutir não apenas aquilo que estas tecnologias podem fazer, mas também as consequências das escolhas feitas na sua utilização.
Sonam Wangchuck afirmou que estas questões devem estar presentes desde o início da investigação, para garantir que as novas tecnologias contribuam para uma sociedade mais inclusiva e sustentável. Defendeu igualmente uma revisão dos critérios utilizados para avaliar o desenvolvimento.
Indicadores como patentes, produtividade, escala e lucro continuam a ser importantes, mas não devem ser os únicos critérios utilizados para determinar o progresso de uma sociedade.
Considerou igualmente relevantes fatores como vidas mais saudáveis, partilha de conhecimento entre países, recuperação dos ecossistemas, redução das desigualdades e proteção da dignidade humana.
“Estes não são indicadores mais suaves de progresso. Eles mostram-nos se o progresso está a cumprir o seu propósito”, referiu, destacando a responsabilidade das atuais gerações pelas consequências das decisões tomadas no presente.
A Princesa afirmou que uma criança que ainda não nasceu poderá sofrer os efeitos das decisões atuais sobre saúde, educação, meios de subsistência e ambiente.
“Conhecimento dá-nos possibilidades. Os nossos valores determinam o que fazemos com ele. A medida do progresso não é apenas aquilo que criamos, mas a qualidade das vidas que se seguem”, afirmou.
Sonam Wangchuck concluiu defendendo que a ambição científica e a responsabilidade humana devem avançar em conjunto.
Jornalista: Afonso do Rosário
Editora: Isaura Lemos de Deus

