Cuidados paliativos: conforto, dignidade e qualidade de vida até ao fim

DÍLI, 10 de outubro de 2025 (TATOLI) – O HNGV assinalou o Dia Mundial dos Cuidados Paliativos, celebrado anualmente no segundo sábado de outubro, com a realização de um seminário, sob o tema Acesso universal aos cuidados paliativos. Os presentes destacaram a importância do acompanhamento clínico, contrariando a ideia de que representa “esperar pela morte”.
O Diretor Clínico do Hospital Nacional Guido Valadares (HNGV), Arcanjo Nunes, informou que, desde janeiro, 45 pessoas que se encontravam nos cuidados paliativos perderam a vida:
“Registámos, desde janeiro, 130 doentes em cuidados paliativos, dos quais 44 decidiram regressar para casa e 45 faleceram”. Já no ano passado, acrescentou Arcanjo Nunes, 49 pacientes dos 224 doentes acompanhados em cuidados paliativos no HNGV faleceram.
O responsável informou que se pretende criar um centro de cuidados paliativos no Antigo Hospital António Carvalho, em Lahane, para que os pacientes que se encontram nessa situação sejam acompanhados num local adequado e para que sejam estabelecidos protocolos de tratamento.
“Os doentes oncológicos chegam ao hospital com a doença em estado avançado, alguns em fase três ou quatro, e não conseguimos salvá-los. Por isso, é preciso estabelecer serviços de cuidados paliativos”, salientou.
Arcanjo Nunes acrescentou que os doentes que não estão em estado grave ficam ao cuidado da família. Só serão tratados em Lahane aqueles com quadro clínico avançado.
Migota da Costa, uma representante do Ministério da Saúde, presente no seminário, destacou que os cuidados paliativos são essenciais para proporcionar conforto e dignidade aos doentes, não apenas em casos de cancro, mas em várias doenças. Referiu que a população ainda confunde cuidados paliativos com “esperar pela morte”, apesar de o foco ser aliviar o sofrimento e melhorar a qualidade de vida até o fim.
Na mesma linha, a responsável pela Nutrição e Segurança Alimentar da Organização Mundial de Saúde, Shweta Sharman, defende a importância de um sistema de saúde fortalecido para garantir cuidados paliativos de qualidade.
“Também nos desafia a questionar o que realmente torna um sistema de saúde excelente. Um sistema ótimo não cura apenas doenças. Compromete-se a cuidar das pessoas com compaixão, dignidade e humanidade em todas as fases da vida”, afirmou.
A dirigente acrescentou que os cuidados paliativos são um direito humano e uma parte fundamental da cobertura universal de saúde, tratando-se de um trabalho ativo de alívio do sofrimento — não apenas da dor física, mas também do sofrimento emocional, social e espiritual.
Shweta Sharman chama ainda a atenção para as lacunas existentes no setor. “O acesso a medicamentos paliativos essenciais — especialmente analgésicos —, a presença de profissionais de saúde qualificados em hospitais secundários e terciários e o apoio comunitário são áreas que ainda requerem a nossa atenção. Estes não são, no entanto, desafios impossíveis”, referiu.
A Diretora Médica do HOSPIS, uma organização de caridade da Malásia, que oferece cuidados paliativos profissionais a pessoas com doenças graves, Sylvia McCarty, referiu que o organismo está empenhado em apoiar Timor-Leste para reforçar os serviços de cuidados paliativos, promovendo formação técnica, desenvolvimento de políticas de saúde e melhoria do acesso a medicamentos nas unidades de saúde.
A dirigente recordou que, desde 2019, os especialistas do HOSPIS têm vindo ao país duas vezes por ano para disponibilizar formações aos profissionais de saúde nos hospitais de referência.
“Queremos ajudar Timor-Leste a criar uma rede de especialistas em cuidados paliativos, tanto nos hospitais como nas comunidades. É importante que todos os profissionais de saúde tenham algum conhecimento nesta área, pois mesmo nas aldeias mais remotas há formas de aliviar o sofrimento dos doentes”, disse.
A dirigente salientou que durante esta visita, além das formações, os especialistas apoiam a criação de políticas que garantam o acesso contínuo a medicamentos essenciais para o controlo da dor.
“Um dos principais desafios observados atualmente é a dificuldade de acesso a medicamentos para o controlo da dor fora dos hospitais, o que muitas vezes obriga os doentes a permanecerem internados por mais tempo do que o necessário”, acrescentou.
Para Sylvia McCarty, as autoridades de saúde timorenses “estão empenhadas” no setor. “Os cuidados paliativos são considerados uma parte essencial do sistema de saúde, especialmente para doentes com patologias crónicas avançadas como cancro, insuficiência cardíaca, renal ou doenças neurológicas graves. Com um bom controlo da dor e apoio psicológico, é possível melhorar significativamente a qualidade de vida dos pacientes e dos seus familiares”, concluiu.
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Jornalista: Ivonia da Silva
Editora: Isaura Lemos de Deus

