DÍLI, 04 de abril de 2023 (TATOLI) – Dado que as diversas formas de conservação da água não são conhecidas por todos os cidadãos, Eugénio Lemos pretende partilhar o conhecimento sobre as técnicas e os serviços que a PERMATIL oferece para a conservação da água.
Ego Lemos é, desde 2018, o diretor da PERMATIL, uma organização que se dedica à conservação da água, tendo sido nomeado, pelo Presidente da República de Timor-Leste, José Ramos Horta, Embaixador da Boa Vontade para o Ambiente e a Cultura. A PERMATIL trabalha com cerca de 400 grupos comunitários que já escavaram mais de 300 bacias em todo o território para armazenamento de água.
O que tem feito a PERMATIL durante a sua existência?
A organização PERMATIL percebeu que o problema que a comunidade enfrenta é a água. Sabemos que, desde a nossa independência, muitos investimentos foram feitos pelo Governo e por organizações Não-governamentais (ONG), mas o problema da água ainda persiste. Penso que os implementadores dos programas não se aperceberam do impacto que ocorre de o facto das nascentes terem secado. Sabemos a origem do problema: a migração agrícola, a desflorestação, as alterações climáticas e as más atitudes são as principais causas.
Há uma realidade dolorosa que assistimos quando viajamos pelas montanhas: mulheres e crianças a carregar água para as suas casas e isso motivou-nos a lutar pela água no nosso território.
Para conservar a água utilizamos métodos tradicionais tais como o recurso a búfalos que fazem pequenas bacias que podem naturalmente armazenar água no fundo do solo, pelo que, quando os búfalos são mortos ou deslocados para outro lugar, perde-se automaticamente um dos conservadores naturais de água.
Inspirados neste fenómeno natural, ficamos motivados a aplicar uma técnica semelhante para conservar a água. Pensámos: se os búfalos podem criar pequenas bacias, porque não podemos nós criar mais ou maiores bacias? Há ainda outro benefício nesta técnica: evitar a erosão porque o solo fica rico em água e nutrientes.
Depois de uma investigação soubemos que antigamente havia muitas bacias, mas por causa da construção de casas e infraestruturas como estradas, muitas bacias naturais foram eliminadas, pelo que, na época das chuvas, a água flui diretamente para o mar.
A nossa organização também estabeleceu a PERMATIL Global que está localizada na Austrália tendo sido registada de acordo com as leis deste país. O objetivo é ajudar os países que têm problemas e necessidades semelhantes. Através do nosso escritório em Timor Leste, fornecemos atividades e informação técnica à PERMATIL Global como centro.
É previsível que Timor-Leste enfrentará consequências das alterações climáticas. Quais são as ações que aconselha aos cidadãos para poupar água?
Sabemos que todos os anos, as alterações climáticas estão sempre a acontecer. Por isso, queremos avisar todas as comunidades para se prepararem ao máximo, porque a água pode acabar. Por isso, estamos a utilizar a estação das chuvas para escavar o solo. Este mecanismo irá permitir criar reservatórios naturais de água.
Onde estão os locais alvos deste programa?
Os pontos que visamos são nascentes da água muito próximas de cada comunidade e utilizadas todos os dias. Mas também algumas nascentes mais distantes e que se encontram na floresta. Gostaria de vos informar que esta atividade tem abrangido desde as zonas rurais até às urbanas.
Como é que a comunidade tem reagido à vossa atividade?
A comunidade não acreditou em nós quando iniciamos este projeto e perguntou-nos porque é que tínhamos de cavar água de uma forma pouco comum. Depois de termos feito o trabalho, e dado provas da sua eficácia, as pessoas mudaram a sua perspetiva sobre estas técnicas. Por exemplo, em Dare, a população de Fatsuka, no passado, quando o tempo estava seco, tinha dificuldade em ir buscar água. Agora, através desta técnica tradicional, os habitantes já podem usar a água para cultivar legumes e flores. Penso que com esta tecnologia mais simples, as pessoas podem fazer a sua própria bacia.
Sinto-me triste quando as nossas autoridades investem em tecnologia avançada, quando isso não beneficia o nosso povo.
Ouvimos falar de uma organização internacional que implementa um projeto de destilação de água através da bombagem usando a energia solar. Trata-se de um sistema hidroelétrico que armazena água devido à evaporação. Mas este sistema não está a funcionar bem. Há algumas organizações que querem filtrar a água do mar para água potável, mas penso que este sistema é difícil de ser utilizado no quotidiana das pessoas e o projeto custa mais dinheiro.
Que atividades serão organizadas no próximo ano?
Este ano, a PERMATIL organizará campos de jovens em Aileu, Baucau e Oé-Cuse. Visará grupos de jovens de todos os postos administrativos. Os jovens vão aprender a conservar a água através de práticas tradicionais e irão trabalhar diretamente durante cinco dias.
Estamos também a planear com o Presidente da República a organização de um acampamento em Timor-Leste e vamos convidar jovens de outros países.
Como Embaixador da Boa Vontade para o Ambiente e a Cultura ao mais alto nível, quais são os seus projetos?
Quando o Presidente Ramos Horta me perguntou se estaria disposto a ser Embaixador da Boa Vontade para o Ambiente e a Cultura ao mais alto nível, eu disse que sim, estava pronto. Como timorense, sinto-me muito orgulhoso e empenhado em trabalhar mais, porque esta é uma pesada responsabilidade.
Trabalharei não só em Timor-Leste, mas representarei o nosso país em eventos internacionais para falar sobre a nossa riqueza e problemas.
Além disso, quando em abril recebi um convite para participar em festivais na Austrália para falar sobre os serviços da PERMATIL, como orador principal, o Presidente pediu-me para ir e representá-lo na qualidade de embaixador da Boa Vontade para o Ambiente e a Cultura.
Iremos também convidar os australianos a visitar o país para ver o nosso trabalho ao nível da conservação da água. Será uma boa forma de reforçar o vínculo de amizade entre os dois países.
Quais os conselhos que gostaria de deixar?
Devemos plantar árvores para conservar a água, fazer barragens de água para a manter disponível. Temos também de lutar para poupar água, porque a água é o recurso mais importante deste planeta. Quando resolvermos este problema, Timor-Leste será resiliente em todos os sentidos.
Recomendamos a todos os cidadãos o cultivo de plantas multifuncionais, por exemplo, plantas que produzem frutos, fertilizam o solo, conservam água e outras funções importantes para o planeta, como é disso exemplo a manga e os abetos. Muitas vezes, neste país, cultivamos plantas que contribuem para a degradação do solo como a teca que se vê por vezes cultivada em hortas. A teca é uma planta que absorve muita água e torna o solo infértil.
Sugiro que o Governo e as ONG que têm projetos de cultivo de árvores, avaliem os benefícios desta flora para que o nosso solo e água sejam poupados.
Numa outra observação, seria melhor que as autoridades conservassem a fauna, uma vez que os animais plantam mais do que os humanos. Eles trabalham durante 24 horas para reflorestar as nossas culturas. Portanto, vamos salvar este recurso. Quando se trata de alimentação, é melhor alimentarmo-nos.
Equipa da TATOLI




