DÍLI, 02 de março de 2023 (TATOLI) – É uma pessoa enérgica e de bom humor. É Mr. Jack, o guarda civil que tem o dom de comunicar em vários idiomas. Apaixonado em aprender línguas, contou que nunca viveu fora do país, mas, mesmo assim, fala inglês, português, malaio e o dialeto javanês.
Mr. Jack, como é carinhosamente conhecido, é Zeferino Correia Varela, 53 anos. Ganhou o apelido quando trabalhava como tradutor em Díli, no início deste século. “Era como os diplomatas me chamavam. Naquela altura não havia muitos timorenses que falavam inglês. Diziam que era um nome mais fácil e até hoje as pessoas chamam-me assim”, revelou o poliglota.
Além de saber algumas línguas estrangeiras, Zeferino fala fluentemente vários dialetos de Timor-Leste, tais como o makasa’e, o midiki, o waimua, o kairui, o tétum-terik e o fataluku, idiomas mais falados nos municípios de Baucau, Lautém, Manatuto e Covalima.
Narrou que teve de abandonar os estudos ainda no ensino primário para trabalhar, porém, isto nunca foi impeditivo para aprender. “Aprendi inglês durante dois meses com uma Irmã americana em Venilale”.
Durante o período da ocupação indonésia, foi obrigado a mudar-se de um lugar para o outro, por isso teve de aprender outros idiomas para sobreviver.
Em 1985, decidiu deixar a sua terra natal, Venilale, para começar uma nova jornada no mundo dos negócios em Díli. “Comecei a vender cigarros e algumas bebidas não alcoólicas nos cantos da cidade”, recordou.
Já em 1989, o então jovem ouviu falar da visita do Santo Padre João Paulo II a Timor-Leste. Sem pensar duas vezes e motivado pelo amor à pátria, decidiu envolver-se na resistência pró-independência e ajudar na preparação de manifestações em Díli. Como consequência, foi capturado pelas forças indonésias e interrogado durante alguns dias na Casa Europa.
Pouco depois foi libertado e voltou ao seu negócio. Em 1991, deu-se o massacre de Santa Cruz que chamou a atenção da comunidade internacional. Zeferino foi um dos sobreviventes da tragédia.
Nos anos seguintes, continuou envolvido na luta pela independência de Timor-Leste, sendo muitas vezes agredido pelos militares indonésios.
Acidente
Após os episódios violentos que marcaram o país depois da consulta popular de 1999, provocados pelas milícias indonésias inconformadas com o resultado que apontava para a independência de Timor-Leste, a comunidade internacional tomou uma atitude e muitos diplomatas vieram ao país para apoiar a transição.
Foi quando Zeferino iniciou oficialmente a sua carreira como tradutor. Bem relacionado e articulado, trabalhava para figuras influentes da Austrália, dos Estados Unidos da América (EUA) e do Brasil. Desempenhou a atividade por uma década.
Em 2011, sofreu um acidente de mota em frente à embaixada dos EUA. Teve ferimentos que resultaram em seis anos numa cadeira de rodas. Com a ajuda de colegas australianos, conseguiu ser operado às pernas e passou a utilizar um aparelho metálico acoplado às suas ancas, que o ajuda a andar.
Desde o acidente, não conseguiu trabalhar mais como tradutor. Tanto as instituições privadas como as públicas não o contratam. “Sinto-me desprezado. As minhas qualificações e contribuições para a libertação nacional são ignoradas. Posso ter um pouco de dificuldade para andar, mas tenho plena capacidade para trabalhar como tradutor”, desabafou.
Zeferino ainda afirmou que chegou a ter o nome na lista dos veteranos e que nunca recebeu nenhum subsídio do Estado. “Ganhei apenas uma medalha, como reconhecimento do esforço na luta pela libertação nacional”, disse. O trabalho como guarda civil, conta, foi obtido com a ajuda dos amigos que também sobreviveram ao massacre de Santa Cruz.
De acordo com os dados da Associação dos Deficientes de Timor-Leste (ADTL), em 2015 (dados mais recentes), Timor-Leste registava 38.118 pessoas com deficiência, dos quais 14 mil eram invisuais, sete mil portadoras de deficiência mental e cerca de duas mil pessoas surdas-mudas. Não há dados sobre deficiências motoras.
Notícia relacionada: ADTL: “25 mil pessoas com deficiência sem acesso a educação”
Equipa da TATOLI




