DÍLI, 23 de fevereiro de 2023 (TATOLI) – Aves de Timor-Leste estão ameaçadas de extinção em consequência da diminuição e degradação das florestas tropicais causadas por atos humanos. Entre as espécies que podem desaparecer encontra-se a catatua de crista amarela e o pardal de Timor, afirmou Alito Rosa, coordenador do Grupo de Conservação da Flora e Fauna (CFF).
As aves desempenham um papel ecológico relevante na regeneração das florestas naturais já que, por exemplo, dispersam as sementes depois de comerem os frutos.

“Devido à caça, dentro de cinco anos, perderemos algumas das nossas espécies, especialmente a catatua de crista amarela”, afirmou Alito. Além da caça, há outros fatores que contribuem para o problema, como o corte ilegal de árvores, as queimadas para a agricultura e, em geral, os efeitos das mudanças climáticas.
Um estudo de 2007, conduzido pela organização Bird Life International (BLI) e pelo Ministério da Agricultura e Pescas (MAP) de Timor-Leste, revelou que no país, além da catatua, existem outras 15 espécies de aves ameaçadas de extinção, como o pombo verde de Timor. Embora este relatório tenha sido feito há 16 anos, o Governo ainda não dispõe de dados mais recentes sobre esta questão – ou seja, pode ser que algumas dessas espécies já tenham desaparecido.
O Diretor de Pecuária e Veterinária do MAP, Domingos Gusmão, explicou que as autoridades não se têm preocupado com a preservação dos pássaros. “dependemos da alocação do orçamento do Estado. Vimos que outros países priorizam a conservação das suas espécies, e que isso não é a nossa realidade”, salientou.
A fiscalização das áreas verdes em Timor-Leste é da responsabilidade dos guardas florestais. O Chefe do Departamento Florestal de Díli, Gil Oliveira, reconheceu que o número de profissionais é insuficiente para cobrir uma extensa área, e que faltam recursos, como veículos, para monitorizar.
“Temos 11 guardas-florestais e só podemos colocar um para toda a área entre Hera e Cristo-Rei. Os membros são obrigados a utilizar o transporte próprio para vigiar todas as zonas”, contou.
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Impunidade tem consequências na floresta timorense
O diretor da conservação internacional de Timor-Leste, Manuel Mendes, também lamentou que as autoridades sejam fracas na implementação de leis contra crimes ambientais. “Até agora, ainda não temos quaisquer casos julgados em tribunal. Quem tem o poder de intervir? Ninguém quer assumir essa responsabilidade”, desabafou.
Manuel ainda faz um alerta: “Na floresta timorense, 58% da área, o equivalente a 869 mil hectares, são floresta tropical e, desde 2017, perdeu 1,7%, deste tipo de floresta, isto é, mais de 14 mil hectares. Se continuarmos a perder a nossa floresta tropical, em cerca de 60 anos colocamos em perigo a sobrevivência da nossa fauna e flora”.
O diretor também pediu às autoridades que prestassem atenção às atividades de alguns investigadores estrangeiros, que estariam a transportar ilegalmente aves para o exterior, além de artefactos históricos.
De acordo com o artigo 217.º do Código Penal, qualquer ação contra a flora ou fauna que prejudique ilegalmente o ambiente é punível com multa ou pena de prisão até três anos.
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A ilha de Timor e o potencial ornitológico
A ilha de Timor (área geográfica entre Timor-Leste e ilhas da Indonésia, tais como Wetar, Alor, Rote e Semau) tem grande potencial ornitológico, isto é, aptidão para a observação de aves, uma atividade turisticamente interessante.
De acordo com o estudo da BLI, a fauna de Timor-Leste tem uma biogeografia mista, ou seja, caracteriza-se por ser uma zona geográfica que mistura características biológicas da Ásia e da Austrália.
Em Timor-Leste existem mais de 240 espécies de aves, incluindo pelo menos 23 não encontradas em qualquer outro país. Estas espécies endémicas (que vivem exclusivamente numa região), são o Timor-coucal, a toutinegra de Timor, o pássaro-da-erva de Timor, a felosa do mato de Timor, o olho escuro malhado, a papa-mel-de-peito-preto e o pássaro-monge de Timor.
Alguns deles encontram-se em lugares como a lagoa de Tasi-Tolu, no monte Manukoko em Ataúro, no mar de Oé-Cusse, na lagoa de Maubara, na lagoa de Masin Fatuk e na floresta de Loré, entre outros.
Se não se travar esta ameaça de extinção às aves nativas, correm-se perigos na biodiversidade das florestas timorenses e ouviremos o lamento que o cantor Ego Lemos fez soar em 2021: “Qualquer dia não ouvimos as canções do papagaio e do kakuak”.
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Equipa da TATOLI




