DÍLI, 24 de setembro de 2022 (TATOLI) – A Madre Guilhermina Marçal venceu, na categoria de Direitos Humanos, um dos Prémios da Lusofonia 2022.
Os Prémios da Lusofonia são uma iniciativa que homenageia anualmente cidadãos e cidadãs de países lusófonos que se distinguiram por obra e carreira nas mais diversas atividades e campos. Contemplam prémios em áreas como a música, literatura, artes plásticas, comunicação social, passando pelo teatro e cinema, educação, direitos humanos, moda e estilismo, entre outras.
A madre considerou que ter recebido esta distinção é um desafio para continuar a servir para o bem-estar do povo. “Tenho andado a fazer a obra da Santa Madalena de Canossa para anunciar o evangelho e ajudar os pobres, crianças e jovens. O prémio Direitos Humanos da Gala Lusofonia é um desafio para melhorar a ação [caritativa] para o futuro e para o bem estar do povo. O prémio pertence a todos os fiéis, ao povo e ao Estado timorense.”, afirmou à Tatoli, em Balide.
Questionada sobre o que sentiu por ter sido distinguida, a religiosa disse que aprecia o prémio e agradeceu à comissão da Gala do Prémio da Lusofonia, pois “receber este prémio é um reconhecimento internacional, mas o importante é ter uma ação solidária na vida quotidiana para aqueles necessitam de ajuda sem esperar uma recompensa, mas agir de acordo com o evangelho de Cristo através da palavra e ação”, assegurou a madre.
Guilhermina Marçal declarou que a comissão considerou, para este prémio, outras pessoas cuja atividade era de teor caritativo com pessoas necessitadas em Itália, Indonésia e Timor-Leste, mas que, a seu respeito, aquela comissão teve em conta a sua contribuição para a luta da independência.
A este propósito, a premiada referiu que teve um contributo para o povo refugiado nas matas, entre 1975 e 1978, uma vez que ensinou os analfabetos a ler e a escrever. Ela recordou, particularmente, o trabalho com os jovens e com o Padre Domingos Maubere.
No período mais alargado da ocupação da Indonésia, trabalhou secretamente com os timorenses no país e no estrangeiro, sobretudo levando cartas dos prisioneiros da prisão de Cipinang (Indonésia) para o Vaticano sem as irmãs da congregação saberem.
A respeito desta função de “carteira” clandestina, a memória de entrega de uma carta específica ao Vaticano em 1992, emocionou Guilhermina Marçal. Ela lembrou: “Escondi a carta num calção que cosi [para ficar escondida]. O meu coração batia fortemente, mas nunca perdi a confiança em Deus. Fiquei tranquila quando cheguei a Singapura e tirei a carta do esconderijo para a colocar na minha bolsa”, recordou a madre.
Madre Guilhermina Marçal continuou: “Levei também cartas dos líderes de então para o Maun Boot [Xanana Gusmão] na prisão de Cipinang, preso a 12 de novembro de 1991 e outros. Recebi uma carta do Secretariado do Vaticano como resposta a uma carta anterior e entreguei eu mesma a carta ao Maun Boot”. A religiosa especificou que o conteúdo da carta dos presos eram pedidos ao Santo Padre para que tivesse uma intervenção explícita na independência do povo timorense.
Segundo Guilhermina Marçal, o Santo Padre reconheceu Timor-Leste como uma nação, e o Papa respondeu com uma carta dizendo que estava a acompanhar e a rezar para a paz em Timor-Leste. Recordou ainda que quando o Papa recebeu cartas dos reclusos timorenses, convocou todos os diplomatas internacionais e pediu ao Governo indonésio que respeitasse, aquando do referendo, a decisão do povo de Timor-Leste.
A religiosa recordou ainda que, quando conseguiu uma audiência com o Papa e apresentou-se como timorense, o Santo Padre respondeu: “Timor-Leste está no meu coração”.
No seu percurso de vida, a religiosa ainda lecionou gratuitamente na Universidade Nacional Timor Lorosa’e para cumprir uma promessa dos tempos de ocupação: “Quando Timor-Leste for independente, quero dedicar-me à educação”, e foi membro do conselho da universidade até 2017. Atualmente, ensina na Escola Canossa e exerce atividades de teor caritativo na congregação.
Por fim, a religiosa apelou aos jovens que se ajudem mutuamente e pratiquem a solidariedade e a fraternidade.
A premiada dos direitos humanos, Guilhermina Marçal, nasceu a 20 de maio de 1958, em Fatuku, do suco de Holarua, no posto administrativo de Same, do Município de Manufahi.
Notícia relevante: Maria Ângela Carrascalão: “Prémio Mérito Lusófono é para todos os timorenses”
Jornalista: Jesuína Xavier
Editora: Maria Auxiliadora




