Escritór, Caetano da Costa Bobo
Antes demais, eu gostava de esclarecer que este artigo que redigi não tem nenhuma tendência política, pois sou um cidadão que possui a liberdade e dever cívico de expressar a realidade segundo a minha ótica, desde que não prejudique a privacidade e integridade dos outros, segundo o artigo 40.º da Constituição da RDTL. E creio que este artigo de opinião servirá como contributo para o desenvolvimento de Timor-Leste, e especialmente da capital Díli.
As causas da inundação em Díli encontram-se no comportamento irresponsável do próprio cidadão, das autoridades locais e dos órgãos competentes. Os inconscientes continuam a deixar lixo nos arredores de Díli. A preguiça faz com que atirem o lixo em ribeiras e em lugares inapropriados, sem que contra essas atitudes haja intervenção das autoridades locais (Chefes de Suco e de Aldeia). Também continuam a construir as casas próximas da ribeira e até a edificar casas que bloqueiam as passagens de água.
Tudo isto gera algumas perguntas: qual é afinal o papel dos Conselhos de Suco? As autoridades locais cooperam com a autoridade de segurança que é conhecida como Polícia Comunitária. Quando um cidadão constrói uma casa que viola as leis ou que representa um perigo para os demais cidadãos, as autoridades locais devem contactar de imediato a polícia a fim de o impedir, pois se continuar a edificar vai criar danos para outras famílias no tempo da chuva.
No suco onde moro, há uma família que construiu uma casa, destruindo a valeta feita pelo Governo, para que pudesse ter um espaço mais amplo, embora obstruísse o fluxo da água na época chuvosa. Uma casa construída que impede o fluxo da água, é inequívoco que não vai ter como vítima uma só família; os vizinhos também vão ser prejudicados, pois não há saída da água.
Em Tasi Tolu, dantes havia uma ribeirinha ao lado da Companhia Bandido Qualidade, companhia que vende as viaturas importadas. Onde está agora a referida ribeirinha? Está tapada. As autoridades locais e as partes competentes não fizeram nada, quando essa ribeirinha foi tapada? Aparentemente, não.
Em Tasi Tolu Maslidun, há três lagoas bonitas e que deviam ser protegidas, pois iam ser lugares turísticos quando fossem bem tratadas e cuidadas. É triste que hoje em dia, as comunidades as desrespeitem: deixam os lixos nessas três lagoas e – o que é pior– usam-nas para deitarem os seus dejetos, fazendo delas fossas. O ambiente e a natureza entristeceram, e no dia 4 de abril Maslidun transformou-se numa única lagoa.
Por um lado, é inevitável que acontecessem as cheias de dia 4. Por outro, foi de facto uma força natural da qual ninguém escapou. Na minha vida, foi a primeira vez que vi chover com aquela intensidade, que começou no dia 3 até dia 4, o dia inteiro.
Apesar da força da natureza, devemos continuar a comportar-nos civilizadamente, para minimizar as suas consequências. Aliás, temos que respeitar o nosso ambiente. Não deitemos o lixo em todos os cantinhos; coloquemos o lixo nos locais próprios, em especial os plásticos, pois eles não são destruídos pelo solo, o que é uma ameça para o ambiente, principalmente no tempo chuvoso: a terra fica contaminada, senão infértil, e os plásticos acumulados bloqueiam a passagem da água.
O Governo tem autoridade para impedir os seus cidadãos de edificarem casas perto das ribeiras. Quando o espaço das ribeiras é estreito, é óbvio que água voltará a assolar as construções e moradias das comunidades.
Um dos motivos para o que aconteceu no passado dia 4 deve-se também ao atraso na implementação de descentralização que está prevista no artigo 5.º da nossa Constituição. Na verdade, atualmente os cidadãos de 11 onze municípios, incluindo a Região Administrativa Especial de Oé-Cusse Ambeno (RAEOA) vêm sobreviver em Díli. Estão acumulados em Díli, pelo que é difícil ter espaço na edificação das casas. A consequência é que têm que construí-las em cima da água. Conclui-se, pois, que sem descentralização, não poderá haver ordenamento territorial digno desse nome.
A construção de infraestruturas, especialmente pontes, deveria ser acompanhada de um bom estudo de viabilidade. Por exemplo, a contrução da ponte de Becuse parece não ter sido acompanhada de tal estudo. Construída a ponte com apenas seis furos de medida estreita, com certeza iam ser entupidos, pois não havia espaço suficiente para entrar água, quanto mais quando as chuvas arrastam troncos de árvores e lixo que vem tapar os furos. Evidentemente a água teria que sair dos dois lados, direito e esquerdo, e as casas das populações seriam danificadas. Graça a Deus, recentemente, Sua Ex.ª o Primeiro-Ministro ordenou a destruição da referida ponte e a construção de uma nova ponte.
A ponte que é conhecida por My Friend continua cheia de areia e lama na parte inferior, de tal modo que a medida vertical da passagem de água ronda apenas cerca de 50 centímetros. Essa situação já deveria ter sido resolvida no ano passado, quando devido a essa obstrução, a água inundou e assolou as casas das comunidades em alguns bairros na zona do Cemitério Histórico de Santa Cruz, e destruiu também a escola portuguesa Ruy Cinatti, onde as crianças e jovens lusófonos estudam. Possivelmente, quando vier pela segunda vez chuva desta grande intensidade, aquelas construções serão assoladas de novo, e o número das vítimas poderá ser superior. Oxalá já lá estejam colocados os equipamentos pesados para limparem aquelas ribeiras até Lahane.
Este artigo serve como uma mensagem a todos nós, para que façamos uma instrospeção, e para que estejamos conscientes da importância de amar e proteger o nosso ambiente. Desejo que as vítimas desta calamidade possam recuperar-se e ser realojadas de uma forma digna. Mais aproveito a manifestar a minha solidariedade às vítimas e os meus profundose sentidos pêsames às famílias enlutadas que perderam alguns dos seus membros por causa deste desastre natural.
Mas, com esperança, tenhamos sempre presente o ditado que diz, “por mais longa que a noite seja, o sol volta sempre a brilhar”.
Escritór como Formador de Língua Portuguesa e Tradutor Jurídico
Telemóvel: +670 77366 240




