Por: Dionísio Babo Soares*
O triplo veto no Conselho de Segurança em abril de 2026 — exercido pela Rússia, pela China e pela França sobre a resolução relativa ao Estreito de Ormuz — não é apenas um episódio de rotina diplomática. É um momento revelador de como as principais potências organizam a ordem internacional quando os seus interesses vitais se cruzam. Em volta de um estreito por onde passa uma fração decisiva do petróleo mundial, aquilo que se discute não é apenas o texto de uma resolução, mas a distribuição de responsabilidade e influência num sistema em crescente desagregação.
A proposta original, apresentada pelo Bahrein e apoiada por vários Estados árabes, visava autorizar “todas as medidas necessárias” para assegurar a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz. Na linguagem da alta política, tal formulação equivalia a conferir, sob a égide das Nações Unidas, legitimidade ao eventual recurso à força numa das zonas mais sensíveis do globo. As três potências leram essa iniciativa à luz de uma questão central: quem comandaria essa força, quem fixaria o precedente e a favor de que configuração do equilíbrio regional essa autoridade seria exercida. Ao bloquearem o texto, não puseram em causa a relevância de Ormuz; rejeitaram, isso sim, a ideia de que a gestão de uma artéria estratégica pudesse ser delegada a uma coligação sobre a qual não detêm controlo efetivo.
O Estreito de Ormuz é, há décadas, um elemento central na arquitetura da ordem energética mundial. Por ali transita uma parcela significativa do petróleo e do gás que abastecem as economias da Ásia, da Europa e de outras regiões, o que o torna um dos principais corredores energéticos globais. Do ponto de vista geopolítico, configura um ponto de particular vulnerabilidade: a sua ameaça projeta influência muito para além das suas margens, enquanto a sua proteção é frequentemente invocada como fundamento para a assunção de responsabilidades de garante da estabilidade internacional. Enquanto palco recorrente de tensão diplomática e de incidentes militares, Ormuz espelha uma tensão clássica do direito e da prática internacionais: por um lado, a salvaguarda da liberdade de navegação, pilar do comércio mundial; por outro, a tendência de alguns Estados, regionais e globais, para utilizar este corredor estratégico como instrumento de pressão política e de afirmação de poder.
Os mercados reagiram com a frieza que caracteriza o próprio cálculo de poder. A simples perceção de que um canal desta relevância poderia permanecer condicionado fez disparar o preço do petróleo para níveis que refletem menos a escassez imediata e mais o prémio de risco associado à incerteza estratégica. O nervosismo não nasce apenas do perigo de interrupção física do fornecimento, mas também da possibilidade de a crise se prolongar na ausência de uma autoridade reconhecida capaz de a gerir. Em sistemas complexos, a falta de coordenação converte-se, por si só, num fator adicional de instabilidade.
Para muitos países importadores de energia, em especial no mundo em desenvolvimento, os efeitos desta dinâmica são imediatos e pouco abstratos. Combustíveis mais caros traduzem-se em inflação mais elevada, maior pressão sobre as finanças públicas e aumento do potencial de tensão social. Do ponto de vista da arquitetura internacional, estes efeitos colaterais não são um mero acidente: resultam de uma ordem em que os custos das decisões estratégicas tomadas por alguns são distribuídos, de forma assimétrica, entre muitos. Os Estados sem capacidade de projetar poder em Ormuz ficam entregues à gestão das consequências, sem terem participado na definição do rumo da crise.
A crise do estreito, como outras antes dela, evidencia um dilema recorrente na política mundial. As instituições multilaterais foram desenhadas para canalizar rivalidades dentro de procedimentos previsíveis, mas, quando estão em causa interesses fundamentais das grandes potências, essas instituições revelam com frequência os seus limites. O triplo veto não exprime apenas a força de três Estados; expõe a fragilidade de um sistema que depende do consenso precisamente entre aqueles que mais beneficiam do impasse. O resultado é um vácuo de autoridade em que cada ator procura soluções ad hoc, alianças temporárias e mecanismos paralelos.
Para pequenos Estados, como TimorLeste, a questão central não é escolher um lado na disputa, mas compreender a natureza do jogo. Num contexto em que corredores estratégicos podem ser convertidos, quase de um dia para o outro, em instrumentos de pressão, a verdadeira margem de manobra reside menos nas proclamações de princípio e mais na capacidade de adaptação. Diversificar fontes de energia, reforçar reservas, consolidar instituições económicas e sociais e construir redes diplomáticas amplas não eliminam a vulnerabilidade, mas reduzem a distância entre a nossa vontade e a nossa capacidade de agir.
Em última análise, a crise de Ormuz e o triplo veto que a marcou recordam uma constante da história internacional: a ordem global é, simultaneamente, um sistema de normas e uma arena de poder. Quando estas duas dimensões entram em colisão, as normas tendem a ser reinterpretadas à luz dos interesses dos atores com maior capacidade de influência. O desafio para os restantes não é apenas denunciar essa realidade, mas encontrar, no seu interior, espaços de influência e mecanismos de proteção que impeçam que o preço das decisões alheias continue a ser pago, de forma quase automática, pelos mesmos.
* Este é um artigo de opinião, de caráter pessoal, e não vincula a instituição que o autor representa.




