DÍLI, 27 de junho de 2023 (TATOLI) – As limitações físicas e mentais não deveriam ser fronteiras para um envolvimento no mundo desportivo. Esta é a opinião de Teófilo Freitas, 30 anos, atleta de atletismo com deficiência motora. O atleta vai mais longe: crê que cada pessoa, mesmo com limitações, tem oportunidade de descobrir as suas potencialidades. E Teófilo Freitas é exemplo disso: conquistou duas medalhas de ouro nos ASEAN Para Games 2023, realizados no Camboja, e, em competições internacionais, já conquistou dez medalhas de ouro e uma de prata.
Nos Jogos Paralímpicos ASEAN 2023, na corrida de 1500 metros numa “moderna pista oval traçada a branco”, Freitas nunca vacilou. Na segunda competição, com um percurso de 800 metros, perdeu a força devido à energia gasta na competição anterior, circunstância agravada por as duas competições terem sido intervaladas por apenas dois dias. Acresceu o calor intenso, mais de 33 graus, “que parecia queimar a pele”, sob o manto de gritos do público que ensurdecia os seus ouvidos.
Aquelas circunstâncias não o impediram de conquistar a sua segunda medalha de ouro. O corpo acusou os esforços, infelizmente, e Teófilo Freitas não participou na competição dos 400 metros devido ao agravamento das suas condições de saúde.
Seis anos consecutivos de sucessos

Mateus Lucas e Teófilo cumrimentam-se (fonte: Facebook do CPNTL)
“Ateo” é o nome carinhoso que muitos amigos chamam a Teófilo Freitas. Na infância, vivia com os quatro irmãos e a sua mãe numa pequena casa de bambu próximo do Monte Matebian, em Quelicai, Baucau.
Entrou no mundo do desporto em 2016. Em 2017, na ASEAN Para Games em Kuala Lumpur, venceu as provas dos 400 e 800 metros, recolhendo duas medalhas de ouro. Em 2018, na mesma competição, desta vez em Jacarta, Indonésia, Teófilo Freitas venceu as corridas dos 400 e 1500 metros.
Em 2019, nos Arafura Games, realizados em Darwin, venceu a prova dos 400 metros e ficou em segundo lugar na dos 800. A partir de 2020 não participou em qualquer competição devido à pandemia da covid-19. Retomou em 2022, nos Jogos Paralímpicos da ASEAN Para Games, em Solo, Indonésia, onde ganhou três medalhas de ouro.
A maratona que o impulsionou para corridas de fundo
Teófilo Freitas confessou que nunca pensou se tornar atleta profissional, muito menos de alto nível. Quando estudava na UNITAL, onde ainda não terminou o curso de Engenharia de Minas, não tinha possibilidades económicas para pagar os custos das aulas práticas. Não o quis pedir à mãe. Preferiu arranjar o dinheiro por sua iniciativa.
Por mero acaso, participou numa maratona para universitários, em 2016, onde participavam jovens sem quaisquer limitações físicas. Teófilo decidiu participar. Não ganhou, mas não desistiu e terminou o percurso “Senti-me muito triste, mas não desisti”.
Quando o agora medalhado regressava a casa, um treinador de atletas paralímpicos, Calistro da Costa, reparou no modo de caminhar de Teófilo. Achou-o diferente de todos os outros atletas que participaram na maratona. Calistro da Costa inquiriu-o e Teófilo respondeu-lhe com a sua limitação motora. Nesse dia, foi convidado a juntar-se à equipa de atletas do comité paralímpico.
Logo no primeiro dia de treino, Teófilo enfrentou dificuldades que lhe causavam dores musculares no dia seguinte, ao sair da cama. Contou a amigos que o motivaram a desistir. Teófilo ignorou este conselho. Para o atleta, muitas pessoas, incluindo os seus amigos, ainda não sabem que existem atividades desportivas para pessoas com necessidades especiais, como é o seu caso.
“Por vezes, corria atrás dos aviões até romperem as nuvens brancas e então perdia-os de vista”
Teófilo Freitas recorda que, depois de ouvir explicações sobre a competição de 2017 na Malásia, começou a treinar com muita intensidade e disciplina. Quase todas as madrugadas e ao fim das tardes, conforme a disponibilidade. Nunca parava, mesmo quando os colegas de treino intervalavam a corrida para descansar. Pelos seus esforços, foi selecionado pelo comité para ir para a Malásia.
Freitas lembrou que, aquando das suas primeiras viagens de avião para Malásia, não acreditou que no que estava a acontecer. Recorda-se de que, quando era criança, via os aviões no céu, e, por vezes, corria atrás deles até romperem as nuvens brancas e então perdia-os de vista. “Agora, esse sonho tornou-se realidade e estou sentado num banco de avião”. Esta oportunidade motivou-o a cuidar bem da sua saúde, da sua condição física e impulsionou a sua autoconfiança para competir.
“A maioria dos atletas timorenses não compreende a noção de esforço para a excelência”
Durante os treinos, Teófilo ensaia com atletas não portadores de qualquer limitação física óbvia. Acredita que, deste modo, terá mais coragem, mais força e mais motivação para ultrapassar os seus limites, mitigar as suas fraquezas, ou seja, ultrapassar-se a si enquanto pessoa e tornar-se um melhor atleta. “Devemos pôr toda a energia para ultrapassar nossos limites para termos o poder e a oportunidade de vencer na competitividade”.
Segundo Teófilo Freitas, o problema da maioria dos atletas timorenses é o isolamento. Simultaneamente, testemunhou muitas situações onde atletas não treinam profissionalmente. Nalgumas ocasiões, lamenta Teófilo, quando convida alguns amigos para treinar com ele, perguntam-lhe “Quanto pagam por mês?”. Curiosamente, quando Teófilo é selecionado para se deslocar em competições internacionais, o teor das perguntas já se altera: “Quando treinamos?” e “ Quando podemos ir?”. Os mesmos autores, de umas perguntas e outras, não raro, acham que são discriminados porque em algumas competições no estrangeiro o único selecionado é Teófilo. “Na verdade”, diz o inquirido, “no mundo do atletismo profissional, não existem atletas privilegiados, apenas quem tem uma boa preparação e um bom desempenho”. Assim sendo, “a maioria dos atletas timorenses não compreende a noção de esforço para a excelência”.
Teófilo contesta a falta de apoio estatal. Refere-se a uma “estagnação” ou manifesta falta de apoio. Para ele há circunstâncias inerentes ao treino de alta competição que são ignoradas pelas autoridades e que estas, em geral, ainda não investiram verdadeiramente no desenvolvimento do desporto e na valorização dos atletas profissionais. Dá exemplos: não existem subsídios para os atletas, há escassez de equipamentos e falta de infraestruturas para treinar.
Daí resulta que, cada vez mais, Teófilo e colegas atletas são obrigados a criar algumas das condições logísticas e materiais para o treino de alta competição. Refere-se a água, a equipamentos, amiúde comprados por eles próprios, e a espaços adequados para treinos cuja disponibilidade é limitada. Aponta um itinerário burocrático demasiado lento e complexo na senda da busca de apoios e aponta-o como responsável de ter perdido subsídios relativos a 3 das 10 medalhas que conquistou.
Na corrida da vida, Teófilo Freitas enfrentou muitas dificuldades, mas foi sempre tentando remar contra a maré. “O importante é lutar constantemente com resiliência, ser bravo e não hesitar nas decisões. Freitas conclui com um curioso jogo de palavras: “as pessoas terão que pro(mover) as suas capacidades para se tornarem estrelas e deixar estas memórias às gerações futuras”.
Equipa da TATOLI




