António Guterres defende reforma da ordem mundial perante crescimento das economias emergentes

DÍLI, 14 de setembro de 2026 (TATOLI) — O Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, defendeu uma reforma profunda da ordem internacional, argumentando que as que as instituições multilaterais devem refletir as novas realidades económicas, demográficas e geopolíticas marcadas pela crescente influência das economias emergentes.
A posição foi apresentada durante a cimeira dos BRICS, inicialmente formado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, e posteriormente alargado a outros países, que decorreu entre nos dias 12 e 13, em Nova Deli.
“As realidades de hoje não são as de 1945”
Perante os líderes reunidos, o dirigente afirmou que a atual configuração do mundo exige mudanças profundas nas instituições internacionais.
“As realidades económicas, demográficas e geopolíticas de hoje não são as de 1945”, declarou, defendendo que as estruturas institucionais devem refletir essa realidade.
Segundo o responsável da ONU, os próprios países representados na cimeira demonstram a transformação em curso. “Estamos cada vez mais a caminhar para um mundo multipolar”, salientou.
António Guterres considera que a multipolaridade deve ser encarada como uma oportunidade para alcançar maior equilíbrio e equidade no sistema internacional, mas advertiu que isso só será possível através de reformas estruturais.
Entre as reformas consideradas essenciais, destacou a revisão da composição e funcionamento do Conselho de Segurança da ONU e a atualização do sistema financeiro internacional de Bretton Woods, criado em 1944.
Quatro prioridades para um crescimento inclusivo
O responsável apresentou ainda quatro áreas prioritárias para promover aquilo que designou por crescimento global inclusivo: financiamento, tecnologia, justiça climática e paz.
No domínio do financiamento, salientou que os países em desenvolvimento necessitam de um enorme apoio internacional para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Nesse sentido, defendeu uma transformação dos bancos multilaterais de desenvolvimento, que, segundo o Secretário-Geral, se devem tornar “maiores, melhores e mais ambiciosos”.
Sobre a Inteligência Artificial (IA), António Guterres manifestou preocupação com a concentração dos benefícios e do poder tecnológico num número reduzido de empresas e países.
“O seu poder está nas mãos de algumas empresas, em alguns países”, referiu, alertando que, sem mecanismos adequados de controlo e governação, o fosso da IA irá aprofundar todas as outras desigualdades — no rendimento, nas oportunidades, na segurança e na soberania.
Para o Secretário-Geral, garantir um acesso mais equilibrado aos benefícios da IA tornou-se uma questão central para o desenvolvimento e para a soberania dos Estados.
Clima entre os principais desafios
A crise climática foi outro dos temas centrais da intervenção. António Guterres utilizou uma linguagem particularmente contundente para descrever os riscos associados ao aquecimento global.
“O calor abrasador, o degelo devastador dos glaciares, os incêndios florestais violentos e as inundações devastadoras são apenas uma antevisão”, explicou.
O responsável alertou ainda que um eventual episódio de El Niño de grandes proporções poderá agravar as condições climáticas, numa altura em que o mundo se aproxima do limite de 1,5 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais.
O dirigente apelou aos países mais ricos para que cumpram os compromissos financeiros assumidos, incluindo a mobilização de 300 mil milhões de dólares americanos por ano, o reforço do financiamento para a adaptação climática e um maior apoio para responder às perdas e aos danos provocados pelas alterações climáticas.
O Secretário-Geral criticou também a exploração dos minerais críticos, defendendo uma abordagem mais justa e sustentável.
Reforma como responsabilidade coletiva
No final da intervenção, António Guterres afirmou que a reforma do sistema multilateral deve ser entendida como uma responsabilidade partilhada, e não como uma concessão das atuais potências.
“À medida que avançamos irreversivelmente para um mundo multipolar, todos os países devem trabalhar para fortalecer e proteger um sistema multilateral que funcione para todos, tendo as Nações Unidas no seu centro”, defendeu.
A mensagem do Secretário-Geral surge num contexto de crescente influência das economias emergentes e de pressão para adaptar as principais instituições internacionais às novas realidades do poder económico e geopolítico global.
Vale lembrar que o BRICS surgiu como conceito económico em 2001 e consolidou-se como grupo político-diplomático entre 2006 e 2009, com o objetivo de reforçar a influência dos países emergentes na governação global.
Equipa da Tatoli

