Brasil e Timor-Leste apostam no reforço da cooperação com nova dimensão regional

DÍLI, 7 de setembro de 2026 (TATOLI) – Timor-Leste e o Brasil reafirmaram hoje o compromisso de aprofundar a cooperação bilateral e explorar novas oportunidades de parceria em estratégicas, com destaque para a educação, a formação técnico-profissional, a justiça, a agricultura e a saúde.
A cooperação deverá abranger também a economia azul, a transformação digital e o desenvolvimento sustentável, aproveitando a nova dimensão regional resultante da integração de Timor-Leste na Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN).
O compromisso foi assumido pelo Presidente da República (PR), José Ramos-Horta, e pelo Embaixador do Brasil em Timor-Leste, Ricardo Lustosa Leal, durante a cerimónia comemorativa do 204.º aniversário da independência do Brasil, realizada hoje na Embaixada brasileira, no Farol, em Díli.
Ramos-Horta destaca papel da cooperação brasileira

O Chefe de Estado sublinhou a contribuição do país para o processo de construção de Timor-Leste, desde o estabelecimento das relações diplomáticas, em 2002. “A cooperação brasileira tem apoiado o nosso país nas áreas de educação, formação profissional, justiça, administração pública, saúde e desenvolvimento institucional”, afirmou.
Segundo Ramos-Horta, a parceria entre Díli e Brasília entra agora “num novo e promissor capítulo”, com oportunidades para aprofundar a cooperação no ensino superior, formação técnico-profissional, agricultura e segurança alimentar, pescas e economia azul, saúde pública, transformação digital, energias renováveis e desenvolvimento sustentável.
O PR destacou igualmente a experiência brasileira no setor da justiça, nomeadamente o modelo de justiça itinerante, que permite levar serviços judiciais diretamente às comunidades rurais com maiores dificuldades no acesso à justiça. Considerou que esta experiência brasileira poderá oferecer ensinamentos relevantes para Timor-Leste, sobretudo no esforço de aproximar os serviços judiciais dos cidadãos.
A entrada de Timor-Leste na ASEAN, em outubro de 2025, foi apontada como uma nova dimensão da relação bilateral, capaz de aproximar o Brasil do Sudeste Asiático. Ramos-Horta reiterou ainda o apoio de Díli à intenção do Brasil de se tornar parceiro de diálogo da organização, defendendo que a aproximação entre o Brasil, o bloco regional e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) poderá beneficiar as relações inter-regionais.
Alterações climáticas abrem novas áreas de cooperação
O Chefe de Estado destacou igualmente a importância da cooperação nas áreas das alterações climáticas e da proteção ambiental, salientando a experiência internacional do Brasil na defesa da Amazónia e a realização da 30.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP30), em Belém, como exemplos da importância de se conciliar desenvolvimento económico, proteção ambiental e paz.
Para Timor-Leste, enquanto pequeno Estado insular e marítimo particularmente vulnerável aos impactos climáticos, estas questões assumem especial relevância e podem constituir novas áreas de cooperação com o Brasil.
No final do discurso, Ramos-Horta apresentou votos de paz, democracia, prosperidade e unidade nacional ao povo brasileiro, saudando a amizade “duradoura” entre Díli e Brasília.
Embaixador brasileiro vê condições para nova fase da relação bilateral

Por sua vez, Ricardo Lustosa Leal afirmou que a atual posição de Timor-Leste, enquanto membro da ASEAN e Presidente da CPLP, cria condições favoráveis para uma nova fase da relação bilateral. “É especialmente feliz celebrá-la quando Timor-Leste se encontra a exercer a sua Presidência da CPLP na condição de membro pleno da ASEAN”, afirmou o diplomata brasileiro.
O diplomata agradeceu o apoio pessoal de Ramos-Horta à candidatura brasileira ao estatuto de parceiro de diálogo da ASEAN, manifestando expectativa de que o processo avance num futuro próximo.
Brasil e Timor-Leste procuram ampliar relações económicas
O Embaixador reconheceu que as relações comerciais existentes permanecem àquem do potencial existente, mas considerou que a transformação das cadeias regionais de valor poderá abrir novas oportunidades. A presença de marcas brasileiras no setor das carnes e derivados, como Sadia e Perdigão, foi apontada como um exemplo do potencial de expansão económica.
Ricardo Lustosa Leal destacou ainda a cooperação brasileira no fortalecimento do setor da justiça, particularmente da Defensoria Pública, bem como na educação, formação profissional e promoção da língua portuguesa.
Entre as iniciativas mencionadas estão o Programa de Leitorado Guimarães Rosa na Universidade Nacional Timor Lorosa’e, que deverá ser reforçado com a criação de uma unidade do Instituto Guimarães Rosa naquela instituição.
O diplomata referiu ainda projetos relacionados com o ensino técnico e vocacional, formação de professores, especialmente de português, e a criação de cursos na área da cafeicultura e da gestão académica.
No plano internacional, destacou a convergência entre os dois países na defesa do multilateralismo, do direito internacional, da promoção da justiça e do desenvolvimento social. Sublinhou ainda a necessidade de associar os temas da paz e do desenvolvimento equitativo num contexto global marcado pela transformação das regras e instituições internacionais.
Cerimónia contou a presença de várias entidades

O Brasil obteve a independência a 7 de setembro de 1822. A cerimónia de hoje iniciou-se com a execução dos hinos nacionais do Brasil e de Timor-Leste e terminou com uma apresentação de capoeira, manifestação cultural tradicional brasileira.
Entre os participantes estiveram a Coordenadora Residente da Organização das Nações Unidas em Timor-Leste, Funmi Balogun, o Presidente do Tribunal de Recurso, Afonso Carmona, o ex-Primeiro-Ministro Mari Alkatiri, e o Vice-Chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas, Calisto dos Santos ‘Coliati’.
Notícia relevante: Brasil e Timor-Leste analisam novas parcerias estratégicas
Jornalista: Afonso do Rosário
Editora: Isaura Lemos de Deus

