DÍLI, 3 de julho de 2026 (TATOLI) – O Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, apresentou, esta quarta-feira, a primeira avaliação científica global e independente sobre a Inteligência Artificial (IA), alertando para a necessidade de os Governos agirem rapidamente para estabelecer regras comuns que orientem o desenvolvimento desta tecnologia.
“A ciência está aqui. Já não podemos dizer que não sabíamos. O que fizermos com este conhecimento depende agora de todos nós”, afirmou António Guterres na página oficial da organização.
Segundo o líder da ONU, quanto mais a IA evoluir sem uma estrutura de governação internacional, menor será a capacidade dos Governos e dos cidadãos para influenciarem o seu desenvolvimento. “A minha mensagem aos Governos é simples: não esperem”, sublinhou.
O documento, intitulado Relatório Preliminar do Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial: Avaliação baseada em evidências de oportunidades, riscos e impactos da IA, constitui a primeira avaliação produzida por um organismo científico internacional totalmente independente dedicado a analisar os efeitos da IA na economia, na sociedade e no desenvolvimento humano.
O relatório destaca que mais de mil milhões de pessoas utilizam atualmente, todas as semanas, sistemas de IA conversacional, numa altura em que os Governos enfrentam decisões complexas num contexto de rápida evolução tecnológica e de informação frequentemente contraditória.
António Guterres considera que, se for utilizada de forma responsável, “a IA poderá tornar-se o mais poderoso motor de desenvolvimento”, contribuindo para acelerar progressos em áreas como a saúde, a educação, o combate à fome e a ação climática. No entanto, alerta que o potencial da tecnologia é acompanhado por riscos significativos.
O painel, composto por 40 cientistas e especialistas de todas as regiões do mundo, conclui que as capacidades da IA estão a evoluir mais rapidamente do que o conhecimento científico e do que a capacidade dos Executivos para regularem a tecnologia.
Por sua vez, o Copresidente do painel, Yoshua Bengio, advertiu que existem já evidências de comportamentos enganadores por parte de alguns sistemas de IA e que a ciência ainda não consegue garantir que, à medida que estas tecnologias se tornam mais avançadas, não possam causar danos catastróficos, seja autonomamente ou através da utilização por agentes mal-intencionados.
Para o investigador, os decisores políticos necessitam de uma base científica sólida para compreenderem estes sistemas e desenvolverem respostas adequadas aos desafios que colocam.
Entre as principais conclusões do relatório destaca-se o facto de a adoção da IA estar a crescer rapidamente, embora de forma muito desigual.
O acesso à tecnologia continua a ser bastante inferior nos países em desenvolvimento, enquanto as economias mais desenvolvidas concentram a maior parte da capacidade computacional e do desenvolvimento dos modelos de IA mais avançados.
Segundo os dados apresentados, os Estados Unidos da América concentram cerca de 75% da capacidade de computação dos 500 maiores supercomputadores dedicados à IA, enquanto a China representa aproximadamente 15%. Empresas destes dois países desenvolvem praticamente todos os modelos de IA de uso geral atualmente considerados de referência.
O relatório reconhece que a IA já permitiu importantes avanços científicos, nomeadamente na deteção precoce do cancro da mama, no desenvolvimento de vacinas e na melhoria dos serviços de saúde.
Contudo, identifica também vários riscos emergentes. Entre eles encontram-se a inexistência de garantias de que sistemas altamente autónomos cumpram sempre as instruções recebidas, a crescente utilização da IA para apoiar ciberataques, o aumento da fraude e da desinformação e a ausência de mecanismos fiáveis para manter o controlo sobre sistemas cada vez mais autónomos.
Os especialistas alertam ainda para o comportamento denominado sycophantic, em que determinados sistemas reforçam as crenças dos utilizadores independentemente da sua veracidade, fenómeno já associado a graves problemas de saúde mental, incluindo casos documentados de morte.
Segundo o painel, estes impactos tendem a afetar de forma mais intensa as populações mais vulneráveis.
O relatório defende que a redução dos riscos associados à IA exige uma governação eficaz e investimentos sustentados que permitam aos Estados desenvolver capacidades para avaliar, regular e utilizar esta tecnologia de forma segura.
Os especialistas consideram igualmente necessário promover políticas que assegurem um acesso mais equitativo à IA, incentivem a inovação e previnam a exploração das populações mais vulneráveis.
Na mesma linha, o Subsecretário-Geral da ONU e Enviado Especial para as Tecnologias Digitais e Emergentes, Amandeep Gill, afirmou que o relatório fornece, pela primeira vez, uma base científica comum que poderá apoiar as futuras decisões dos Governos.
“A IA não eliminará, por si só, as desigualdades”, afirmou.
Segundo explicou, os benefícios da tecnologia concentram-se onde já existem instituições robustas, competências técnicas e acesso a dados. Nas regiões onde essas condições não existem, a IA poderá contribuir para agravar desigualdades, substituir postos de trabalho e aumentar a dependência de sistemas desenvolvidos sem considerar as necessidades das comunidades locais.
As conclusões do relatório serão apresentadas aos Governos durante o primeiro Diálogo Global das Nações Unidas sobre a Governação da IA, que decorrerá em Genebra, nos dias 6 e 7 de julho, e deverá marcar um novo passo na construção de um quadro internacional para a governação da IA.
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Equipa da Tatoli




