DÍLI, 18 de junho de 2026 (TATOLI) – O Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, alertou esta quarta-feira para o crescimento do discurso de ódio em todo o mundo, defendendo que a liberdade de expressão não pode servir de justificação para mensagens que promovam a discriminação, a violência ou a desumanização de grupos vulneráveis.
A declaração foi feita por ocasião do Dia Internacional para o Combate ao Discurso de Ódio, assinalado anualmente a 18 de junho. Na mensagem divulgada pela ONU, António Guterres descreve o discurso de ódio como “o primeiro passo no caminho da desumanização” e alerta para o papel das plataformas digitais e da Inteligência Artificial (IA) na amplificação deste fenómeno.
Segundo o dirigente, o discurso de ódio tornou-se uma ferramenta utilizada para dividir sociedades e atacar grupos específicos, incluindo mulheres, migrantes, refugiados, grupos LGBTQIA+ (lésbicas, gays, bissexuais, transgénero, queer, intersexuais e assexuais), pessoas com deficiência e outras minorias, muitas vezes com objetivos políticos.
“Na nossa era digital, o discurso de ódio propaga-se mais rapidamente do que nunca, amplificado por plataformas sem regulamentação adequada e intensificado pela Inteligência Artificial”, afirmou.
António Guterres criticou ainda o funcionamento de alguns algoritmos das redes sociais, que, segundo disse, favorecem conteúdos polarizadores e sensacionalistas.
“Demasiados algoritmos recompensam a indignação e a divisão, incentivando mentiras em troca de gostos e promovendo a violência em busca de visualizações. O anonimato online também dificulta a responsabilização dos autores destes atos”, acrescentou.
António Guterres recordou que, em 2019, foi lançada a Estratégia e Plano de Ação da ONU sobre o Discurso de Ódio, numa resposta ao aumento deste fenómeno a nível global.
A iniciativa procura coordenar os esforços de todo o sistema da organização para identificar, prevenir e combater o discurso de ódio, garantindo simultaneamente o respeito pelos direitos humanos e pela liberdade de expressão. “A liberdade de expressão nunca deve servir de desculpa para mensagens prejudiciais”, afirmou o Secretário-Geral.
A preocupação com o impacto das plataformas digitais foi igualmente destacada por Kalliopi Mingeirou, Chefe da Secção para a Eliminação da Violência contra as Mulheres da ONU Mulheres, em Nova Iorque.
A responsável afirmou que os rápidos avanços tecnológicos estão a facilitar a disseminação de conteúdos misóginos e de ideias contrárias à igualdade de género.
Kalliopi Mingeirou destacou o crescimento da chamada manosfera, um conjunto de comunidades e conteúdos digitais que promovem visões hostis em relação às mulheres.
“Trata-se de um ecossistema de conteúdos impulsionados por algoritmos que pode difundir rapidamente a misoginia e a oposição à igualdade de género e aos direitos das mulheres, fazendo com que essas ideias pareçam normais ou aceitáveis”, explicou.
A dirigente sublinhou ainda que a IA está a ser utilizada para criar novas formas de violência digital, deepfakes, usurpação de identidade e outros tipos de abuso visual.
Mais recentemente, a ONU apresentou os Princípios Globais para a Integridade da Informação, um conjunto de orientações destinadas a promover um espaço digital mais transparente e democrático.
Entre as propostas está o reforço do controlo dos cidadãos sobre os conteúdos que consomem, sobre as suas experiências online e sobre a utilização dos seus dados pessoais, reduzindo a concentração do poder informativo nas mãos de um número reduzido de empresas tecnológicas.
É de lembrar que o Dia Internacional para o Combate ao Discurso de Ódio foi criado pela ONU em 2021 para sensibilizar a comunidade internacional, promover a tolerância e reforçar o compromisso global de combate ao discurso de ódio, tanto online como offline.
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