DÍLI, 5 de maio de 2026 (TATOLI) – O Presidente da República (PR), José Ramos-Horta, afirmou, ontem, que “a evolução da língua portuguesa em Timor-Leste tem sido extraordinária”, salientando que mais de 30% da população já fala português, face a menos de 1% no início dos anos de 2000.
A afirmação foi feita durante a cerimónia de abertura da Semana da Língua Portuguesa 2026, realizada no Centro Cultural Português, em Díli, evento que integra as celebrações do Dia Mundial da Língua Portuguesa, assinalado anualmente a 5 de maio.
Segundo o Chefe de Estado, “o progresso registado ao longo das últimas duas décadas resulta de grandes decisões do Estado timorense, de optar pelo português para uma das línguas oficiais, aliadas ao apoio consistente de Portugal e do Brasil”, permitindo recuperar uma língua que praticamente desapareceu durante o período da ocupação indonésia.
Ramos-Horta recordou que, após cerca de 24 anos sem ensino formal em português, muitos dos timorenses que dominavam a língua perderam a vida ou emigraram, sobretudo para Portugal e para a Austrália. Ainda assim, destacou o papel da resistência nacional, nomeadamente das Forças Armadas de Libertação Nacional de Timor-Leste e dos habitantes nas montanhas, na preservação do português como língua de comunicação e identidade.
O PR evocou também o encerramento da Escola de São José, após o Massacre de Santa Cruz, sublinhando que o estabelecimento era visto como um “centro de subversão” por promover o ensino da língua portuguesa durante o período da ocupação. “Onde começamos com menos de 1%, hoje temos mais de 30%. Isto é impressionante”, afirmou.
Ramos-Horta destacou ainda a capacidade linguística dos timorenses, sobretudo dos mais jovens, que considera serem naturalmente poliglotas. “Um jovem timorense fala três, quatro, cinco línguas, com grande facilidade. Aprende inglês, espanhol e mandarim com rapidez”, referiu.
Apesar de reconhecer que o tétum continua a ser predominante no contexto familiar, o Chefe de Estado considera esta realidade normal, comparando-a com outros países onde coexistem diferentes línguas entre o espaço doméstico e o académico.
Dirigindo-se aos jovens, o PR defendeu que o domínio da língua portuguesa é essencial não só para a afirmação da identidade nacional, mas também para o acesso a oportunidades académicas e profissionais no espaço europeu e na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
“O acesso à educação em Portugal permite obter diplomas válidos em toda a Europa, no quadro do Processo de Bolonha, o que representa uma vantagem estratégica para os jovens timorenses”, sublinhou.
Ramos-Horta rejeitou ainda a ideia de que a adesão de Timor-Leste à Associação das Nações do Sudeste Asiático possa representar uma ameaça à língua portuguesa, esclarecendo que o inglês é apenas utilizado como língua de trabalho naquela organização regional. “Nenhum país asiático abandona a sua língua nacional. O inglês é apenas funcional”, frisou.
Questionado sobre as críticas relativas ao uso limitado do português no quotidiano, o PR reconheceu que a realidade ainda é mista, mas sublinhou que há um número crescente de jovens com domínio efetivo da língua, sobretudo os que frequentam escolas como a Escola Portuguesa de Díli e os Centros de Aprendizagem e Formação Escolar (CAFE).
O Chefe de Estado apontou ainda exemplos recentes de sucesso académico internacional de estudantes timorenses, incluindo prémios obtidos em concursos realizados no estrangeiro, como no Camboja. Para Ramos-Horta, “estas conquistas são prova da qualidade do ensino, apesar das críticas existentes”.
Por sua vez, o Embaixador de Portugal em Timor-Leste, Duarte Alves, referiu que a iniciativa visa assinalar o Dia Mundial da Língua Portuguesa, instituído em 2019 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), através de um programa alargado de atividades culturais e educativas.
Segundo o diplomata, este ano as celebrações assumem particular relevância, uma vez que Timor-Leste exerce atualmente a Presidência da CPLP e a organização celebra 30 anos de existência.
“No lugar de assinalarmos apenas o dia 5 de maio, decidimos organizar uma semana inteira de atividades, com um programa ambicioso e diversificado”, afirmou.
Na abertura da Semana da Língua Portuguesa, foi inaugurada uma exposição dedicada ao escritor português José Saramago, Prémio Nobel da Literatura, que estará patente ao público durante todo o mês de maio, com entrada gratuita.
Duarte Alves explicou que a escolha de José Saramago resultou de um consenso entre os Embaixadores dos países lusófonos presentes em Timor-Leste, destacando o facto de ser, até à data, o único escritor de língua portuguesa distinguido com o Prémio Nobel da Literatura.
O programa da Semana da Língua Portuguesa inclui atividades nas áreas de cinema, música, literatura e dança, envolvendo países como Portugal, Angola, o Brasil e Timor-Leste, com o objetivo de promover a diversidade cultural do espaço lusófono.
O Embaixador sublinhou ainda o crescente interesse dos jovens timorenses pela aprendizagem do português, destacando que cerca de 12 mil estudantes frequentam atualmente os CAFE, enquanto a Escola Portuguesa de Díli conta com cerca de 1.500 alunos, enfrentando uma elevada procura e uma extensa lista de espera.
“A avaliação que fazemos é muito positiva. Há um crescimento exponencial e um interesse enorme por parte dos jovens. Se aumentarmos a capacidade de oferta, esse interesse será ainda maior”, afirmou.
É de lembrar que o dia 05 de maio é o Dia Mundial da Língua Portuguesa. A data foi decidida em 2009 pela CPLP e depois confirmada em 2019 pela UNESCO, tornando a data oficial no calendário das Nações Unidas. O Dia 5 de maio é o dia de união e de comunicação entre os mais de 270 milhões de falantes de português nos nove países de língua oficial portuguesa.
Notícia relevante: MESCC promove língua portuguesa de forma lúdica
Jornalista: Afonso do Rosário
Editora: Isaura Lemos de Deus




