DÍLI, 9 de abril de 2026 (TATOLI) – A organização Psychosocial Recovery and Development in East Timor (PRADET) alertou para a escassez dos serviços de saúde mental no país, sobretudo ao nível das infraestruturas e dos recursos humanos, defendendo o reforço dos centros de reabilitação para garantir um tratamento mais completo e integrado.
Em causa está o recente caso de esfaqueamento envolvendo uma pessoa com perturbações mentais, que resultou na morte de uma criança e em ferimentos noutras três pessoas em Díli.
Em declarações à Tatoli, em Manleuana, Díli, o Diretor da PRADET, Manuel dos Santos, considera que o ocorrido é um alerta para a necessidade de medidas concretas por parte das autoridades. “Se não houver um plano concreto, os problemas vão continuar a aumentar”, advertiu.
O responsável sublinhou que os centros de reabilitação desempenham um papel essencial, não apenas no tratamento clínico, mas também na terapia, na atividade física e no desenvolvimento de competências básicas, como música, aprendizagem e atividades do quotidiano.
“Os centros de reabilitação são fundamentais, porque garantem o respeito pelos direitos humanos. A recuperação em saúde mental exige paciência e um compromisso firme por parte do Governo”, salientou.
O dirigente afirmou que, ao longo de 2025, a organização desenvolveu várias ações de sensibilização comunitária, incluindo prevenção de perturbações mentais, mecanismos de encaminhamento de casos e campanhas de combate à Violência baseada no Género (VBG) e ao tráfico de seres humanos.
A organização prestou ainda formação de capacitação económica a sobreviventes de VBG e assegurou intervenções diretas a cerca de mil pessoas vítimas de diferentes formas de violência.
No âmbito do tratamento de pessoas com problemas de saúde mental, a PRADET tem colaborado com unidades de saúde para o encaminhamento de pacientes de Díli para o Centro de Apoio à Saúde Mental de São João de Deus, em Laclubar, Manatuto.
Manuel dos Santos informou ainda que, desde 2017, a organização tem igualmente assegurado serviços de cuidados primários a grupos vulneráveis, incluindo pessoas com problemas psicossociais em situação de sem-abrigo em Díli e noutros municípios. Esta intervenção é reforçada com o apoio de jovens voluntários que realizam visitas domiciliárias para identificar e acompanhar os casos.
“Em 2025, cerca de 58 pessoas com perturbações mentais foram reintegradas nas suas famílias. No entanto, cerca de 90 pessoas com doença mental ainda vivem nas ruas de Díli, sendo que os voluntários prestam apoio diário, facultando-lhe alimentação, vestuário e assistência na sua higiene pessoal”, afirmou.
Questionado sobre por que razão nem todas as pessoas com problemas de saúde mental encontrados nas ruas de Díli são tratadas em Laclubar, Manuel dos Santos explicou que o encaminhamento para essa unidade é uma responsabilidade do Governo, através do Ministério da Saúde e do Ministério da Solidariedade Social e Inclusão.
“A PRADET é apenas uma Organização Não-Governamental que atua no setor, tal como outras organizações da sociedade civil”, referiu.
O dirigente sublinhou que o papel organismo se centra apenas na sensibilização e no acompanhamento, enquanto o tratamento médico é assegurado pelas unidades de saúde, como o Centro de Apoio à Saúde Mental de São João de Deus, especializado em cuidados de longa duração.
Atualmente, a PRADET mantém um centro de reabilitação móvel em Díli, funcionando com limitações de espaço. Diariamente, cerca de dez pacientes participam em atividades terapêuticas, embora as restrições existentes dificultem a expansão dos serviços.
Nos restantes municípios, as atividades incidem sobretudo em visitas domiciliárias realizadas por técnicos, em articulação com enfermeiros de saúde mental a nível local, para prestar apoio psicológico aos pacientes e às suas famílias.
Manuel dos Santos reconheceu que os principais desafios do setor incluem a “falta de infraestruturas, a escassez de recursos humanos e a necessidade de políticas públicas mais robustas”.
Para este ano, a PRADET pretende reforçar as ações de sensibilização sobre a saúde mental e promover a importância da comunicação.
Os programas incluem ainda intervenções em Ataúro em coordenação com as autoridades locais, bem como a promoção do acesso a serviços médicos em detrimento de práticas tradicionais no tratamento de perturbações mentais.
A PRADET conta atualmente com 48 colaboradores em Díli e oito nos restantes municípios, incluindo psicólogos, assistentes sociais e enfermeiros de saúde mental.
Manuel dos Santos apelou à população para procurar ajuda médica de imediato perante sinais de perturbações mentais. “Não ignore os sinais. Procure imediatamente uma unidade de saúde ou organizações como a ALFeLa [Asistensia Legal ba Feto no Labarik] e a Casa Vida, para garantir um tratamento atempado”, concluiu.
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Jornalista: Afonso do Rosário
Editora: Isaura Lemos de Deus




