iklan

HEADLINE, NOTÍCIAS DE HOJE, SAÚDE

Nefrologista Gustavo Cruz: “Insuficiência renal não é bem conhecida em Timor-Leste”

Nefrologista Gustavo Cruz: “Insuficiência renal não é bem conhecida em Timor-Leste”

Nefrologista Gustavo Cruz. Fotografia da Tatoli.

DÍLI, 21 de março de 2023 (TATOLI) – A insuficiência renal está entre as doenças de rins da qual pouco se sabe em Timor-Leste. Esta foi uma das ideias de Gustavo Cruz, nefrologista do Hospital Nacional Guido Valadares (HNGV), que se disponibilizou a uma entrevista para falar desta doença no contexto médico e hospitalar de Timor-Leste.

Natural de Bobonaro, Gustavo Cruz, em 2003 chegou a estudar Medicina em Cuba durante o seu percurso académico, concluído em 2010, na Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL). Em 2017, o médico voltou a Cuba para fazer uma especialização em Hemodiálise, concluída em 2021. Naquele ano, regressou a Timor-Leste e desde então trabalha no HNGV. Segundo Cruz, desde janeiro deste ano até o momento, sete pessoas no país morreram em decorrência de complicações nos rins.

O que é a insuficiência renal?

A insuficiência renal é uma doença que afeta diretamente o sistema urinário e os rins, e normalmente influencia negativamente a anatomia e a função renais. Há dois tipos de insuficiência renal: insuficiência renal aguda e insuficiência renal grave. Geralmente a insuficiência renal aguda, ao contrário da grave, tem possibilidades de recuperação quando se seguem as indicações do médico.

Quais são as causas da doença?

A insuficiência renal aguda divide-se também em três tipos: pré-renal, renal e pós-renal. A maioria das causas do pré-renal são infeções, acidentes de trânsito e desidratação. O tipo renal, por outro lado, tem a sua origem no próprio rim. Um exemplo visível está nas crianças que sofrem desde a infância pelo consumo excessivo de medicamentos, tais como ibuprofeno e medicamentos tradicionais. O tipo pós-renal provém de causas como pedras nos rins e tumores.

Entretanto, na sua vertente crónica, a insuficiência renal tem como causa a diabetes, a tensão arterial e a existência de rins policísticos (inflamações semelhantes a bolhas que surgem nos rins). A maioria dos registos no país é causada pela hipertensão arterial, depois pela diabetes e pelos rins policísticos.

“É importante para o cidadão evitar o consumo de medicamentos tradicionais e antibióticos vendidos na Internet, porque não conhecemos os níveis de toxicidade destes medicamentos”.

Como é que se identificam os sintomas?

Para pacientes com insuficiência renal aguda, sintomas como a dificuldade de respirar, a hipotermia (sentir frio), inchaço nas mãos, pés ou rosto e urina espumosa são normalmente os mais frequentes. Nos doentes que já se encontram numa condição grave, estes sintomas aparecem, em geral, lentamente porque o corpo teve tempo para se adaptar aos danos renais, pelo que não há sintomas visíveis até à fase final da doença. Sinais como fadiga, náuseas e vómitos, perda de apetite, perda de peso e falta de ar aparecem quando o paciente já se encontra na fase terminal.

O que deve ser feito se se sofrer de alguns destes sintomas?

Cada paciente tem um tratamento diferente, isto é, é casuístico. Os que se encontram na fase aguda devem ter prioridade no tratamento para evitar piorar a situação. Muitas vezes, os doentes recebem alguns medicamentos ou transfusões de sangue para prevenir alguns dos efeitos.

O tratamento segue um itinerário. Inicialmente, o paciente deve estar sob a supervisão de pessoal médico para monitorizar o progresso da situação. Numa fase seguinte, se necessário, cirurgia. Nesta, o cirurgião procura uma pequena artéria ou uma pequena veia no braço, perfura-a e insere uma pequena fístula arteriovenosa e, então, efetua uma ligação cirúrgica entre a máquina (como artéria artificial) e o paciente. Finalmente, os pacientes na última fase podem ir diretamente para a hemodiálise, onde uma máquina filtra e limpa o sangue.

“Em Timor-Leste, os pacientes que procuram tratamento já estão em estado grave, pelo que necessitam de uma veia temporária através do pescoço, do peito ou da virilha, com anestesia local. Os cateteres são normalmente uma opção temporária para pacientes que ainda não têm uma fístula, mas necessitam de diálise”.

Os equipamentos do HNGV permitem que os pacientes sejam bem diagnosticados?

Existem três fases importantes no diagnóstico: uma consulta entre médico e paciente, um exame à urina e testes laboratoriais. Infelizmente, para os cuidados primários nos centros de saúde e nos hospitais de referência não existem equipamentos suficientes, enquanto que, nos cuidados secundários, o panorama ainda é pior. Assim, a maioria dos pacientes está concentrada no HNGV.

A falta de equipamento dificulta a prestação de serviços por parte dos profissionais de saúde, tornando difícil para os médicos examinar os doentes para determinar a fase da doença, especialmente para os mais complicados. O número de casos graves está a aumentar”.

Será que o Governo precisa de investir em recursos humanos?

Penso que os nossos recursos humanos são em número adequado, porque todos os anos as universidades timorenses têm formado mais de mil profissionais de saúde, tais como médicos de clínica geral, técnicos de laboratório, enfermeiros, e outros profissionais especializados. É importante que o Governo invista em equipamentos médicos e em materiais de laboratório, tais como reagentes e fármacos. Se tivéssemos estes equipamentos e materiais,  o trabalho dos médicos e dos técnicos de laboratório estaria facilitado. Embora tenhamos muitos médicos especializados nestas áreas, não temos os equipamentos necessários há muitos anos, o que dificulta a realização de exames médicos de diagnóstico.

Quantos doentes foram hospitalizados, quantos recuperaram e quantos morreram?

De acordo com os últimos dados do HNGV, 98 pessoas estão a fazer diálise em hospitais. Este ano, de janeiro a março, registamos 21 novos casos, sete dos quais morreram. Por idades, a maioria tem entre 50 e 59 anos, em segundo lugar, 40 a 49 anos, depois 30 a 39 anos e ainda  há um paciente de 18 anos.

Que tipo de tratamentos utilizam os profissionais de saúde para tratar esta doença?

Normalmente há três tipos, tais como hemodiálise, diálise peritoneal e transplante. Em Timor-Leste, só existe a modalidade de diálise peritoneal desde 2018. Atualmente, o HNGV tem 14 máquinas de hemodiálise que funcionam como artérias artificiais, entre elas, uma máquina específica para pessoas com doenças complicadas, tais como a diabetes.

Há três pacientes que fizeram transplantes renais na Indonésia, nas Filipinas e no Reino Unido. Eles pagaram do seu bolso. Neste momento, estão a recuperar e ainda sob o vigilância médica.

Equipa da TATOLI

iklan
iklan

Leave a Reply

iklan
error: Content is protected !!