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OPINIÃO

Português é o idioma estratégico para o desenvolvimento de Timor-Leste

Português é o idioma  estratégico para o desenvolvimento de Timor-Leste

Imagem: Francisco de Araújo.

Escritor: Francisco de Araújo

O presente artigo tem como objetivo refletir o estado atual da promoção e difusão da língua portuguesa em Timor-Leste – a adoção como língua oficial, a afirmação como identidade nacional e cultural e os progressos alcançados ao longo dos últimos anos. Tentarei igualmente refletir, nesta abordagem, o processo de ensino e aprendizagem da língua portuguesa no atual contexto da pandemia da COVID-19 e no contexto do impasse político que se tem vivido nos últimos anos em Timor-Leste.

Timor-Leste é um país localizado no Sudeste Asiático e foi colonizado pelos portugueses ao longo de 450 anos e, logo a seguir, foi invadido e ocupado ilegalmente pelos indonésios durante 24 anos.

Após uma consulta popular realizada no dia 30 de agosto de 1999, em que o resultado mostrou 78.5% do povo timorense votou pela independência, Timor-Leste voltou a restaurar a sua independência no dia 20 de maio de 2002. Para construir esse novo Estado, era preciso escolher uma língua com riqueza semântica e precisão linguística a fim de nortear todo o processo comunicativo, quer isto no plano de produção dos conceitos político-administrativos, técnico-jurídicos, científicos, sociais e culturais, quer isto no plano de produção técnico-oral.

O tétum, uma das línguas oficiais a par do português, carece desses conceitos, uma vez que essa língua é utlizada mais na expressão oral. Durante o período colonial , principalmente na segunda metade do Séc. XIX,  a língua tétum e as outras línguas autóctones do país começaram a ficar impregnados de expressões, vocábulos e estruturas sintáticas da língua portuguesa – foi um processo inicialmente desenvolvido pelos missionários da igreja católica ao longo do processo de evangelização da fé cristã em Timor-Leste. O linguista timorense, Benjamim de Araújo e Corte-Real, afirma igual forma que “foi através da língua portuguesa que o tétum se modernizou e experimentou toda a metamorfose do seu desenvolvimento.” A avaliação que podemos fazer neste processo é de facto o português tem colocado o tétum num patamar cada vez mais evoluído, uma vez que os falantes de tétum oficial têm usado muitas expressões e terminologias técnico-modernas nas suas comunicações formais e não formais.

Importa dizer que a escolha da língua portuguesa como uma das línguas oficiais de Timor-Leste, ao lado do tétum, previsto no artigo 13.º n.º 1 da CRDTL, foi crucial para a construção do Estado e para a afirmação da identidade nacional e cultural do povo timorense – português é o idioma estratégico para o desenvolvimento de tétum e de Timor-Leste.

Com a celebração do dia mundial da língua portuguesa, proclamado pela UNESCO no dia 5 de maio de 2020, e dia da língua portuguesa e cultura na CPLP é um momento oportuno para todos refletirem e avaliarem o progresso da difusão da língua portuguesa em Timor-Leste, bem como o seu potencial económico e a sua relevância no mundo globalizado.

Desde a restauração da independência, Timor-Leste tem feito esforços para difundir esse idioma comum da CPLP em todos os níveis, principalmente no sistema de ensino, no desenvolvimento do ordenamento jurídico e das instituições judiciárias, na vida política, na administração, na aplicação do direito e no plano das relações internacionais (CRDTL anotada, pg. 61 – 63).

Mesmo com os desafios enfrentados, até ao momento já é notável o progresso da promoção e difusão da língua portuguesa em Timor-Leste. Destaca-se, neste sentido, o papel crucial das seguintes instituições responsáveis na condução e execução da política do país relativamente à difusão da língua portuguesa, nomeadamente o próprio Ministério da Educação e os seus estabelecimentos de ensino, público e privado, CAFE; o Ministério do Ensino Superior, Ciência e Cultura (MESCC) e as universidades ou institutos que promovam as atividades de ensino da língua portuguesa; o Departamento de Língua Portuguesa e o Centro de Língua Portuguesa da UNTL; a Delegação da Fundação Oriente em Timor-Leste; a Faculdade de Direito da UNTL; o Centro Cultural Português em Díli, a Escola Portuguesa Ruy Cinatty de Díli; a Escola de Externato de São José, a INFORDEPE; a Igreja Católica e outras instituições públicas e privadas, ou qualquer projeto, que têm dedicado nas atividades de promoção e difusão da língua portuguesa em Timor-Leste.

A UNTL, através do seu Departamento de Língua Portuguesa e do Centro de Língua Portuguesa, tem produzido, desde os primeiros anos da restauração da independência, muitos recursos qualificados na área de língua portuguesa, encontrando-se atualmente a trabalhar em diversos departamentos governamentais, estabelecimentos de ensino, bem como em outras instituições privadas ou organizações não-governamentais. Havendo, ainda, um certo número desses recursos que está a estudar o grau de mestrado e doutoramento em Portugal (e outros países da CPLP) nas áreas especializadas de língua portuguesa. Já a Delegação da Fundação Oriente em Timor-Leste tem organizado, desde 2013, concursos de escrita de língua portuguesa para os jovens timorenses. Esse programa contribui bastante para o desenvolvimento das competências de escrita dos jovens participantes. Os vencedores ou classificados deste concurso, em cada edição, têm oportunidade de frequentar um curso de língua portuguesa dentro e fora do país (Timor, Macau e Portugal).

Um dos programas de prioridade do Ministério do Ensino Superior, Ciência e Cultura, MESCC, do VIII Governo Constitucional, é a capacitação dos docentes das Instituições do Ensino Superior Privadas através de um curso de língua portuguesa. A realização deste curso, que decorreu desde o mês de julho de 2019,  justifica-se pelo facto de o português ser, por um lado, o idioma oficial e de instrução do sistema educativo timorense, a par do tétum, e, por outro, o idioma potencial de acesso ao conhecimento, de desenvolvimento científico e de interação pedagógica no campo do ensino superior de Timor-Leste.

Acredita-se, por isso, que este curso de língua portuguesa, ministrado pelo MESCC, tem vindo a resolver, gradualmente, os problemas de competências linguísticas em português enfrentados pela maioria dos docentes das IESP, uma vez que o resultado de teste diagnóstico realizado em 2019 aponta que a maior parte desses docentes manifestou uma proficiência muito baixa, o que significa que havia certamente uma grande necessidade de realizar uma formação apartir do nível de iniciação (A1 e A2).

Este programa de capacitação linguística cumpre o Plano Estratégico do Desenvolvimento (PED 2011-2030), na qual define, no setor social, o compromisso do Governo em promover o investimento na área de educação e formação a fim de garantir ao povo timorense uma vida bem instruída e culta, verdadeiras âncoras para o desenvolvimento sustentável da economia, da sociedade e da cultura timorense.

Os desafios do ensino e aprendizagem da língua portuguesa no contexto da pandemia COVID-19.

A pandemia COVID-19 tem trazido muitos desafios para todo o sistema educativo, alterando, na maior parte, a rotina de ensino e aprendizagem de todas as disciplinas ministradas em cada estabelecimento, desde o ensino primário até ao ensino superior, uma vez que todas as atividades letivas em regime presencial têm sido suspensas, em muitos casos, mantendo apenas aulas em regime online (à distância). A presença da tecnologia mais avançada no mundo atual é a solução para esse desafio global.

O cenário da pandemia COVID-19 tem impedido, igualmente, a rotina presencial de ensino da língua portuguesa em Timor-Leste. Creio que, neste sentido, todos os professores de língua portuguesa têm feito esforços para manter as suas atividades letivas à distância, através da plataforma digital ZOOM, google meet, google classroom, Grupos de WhatsApp, E-mail, e outros meios necessários. A utilização desta plataforma digital traz (ou pode trazer), sem dúvida, muitos benefícios para os professores e alunos, mas creio que, de certa forma, há também muitos desafios encontrados desde quando a aplicação do regime online.

Neste sentido, o problema comum do ensino e aprendizagem da língua portuguesa (e de qualquer outra disciplina) neste tempo da pandemia, no contexto de Timor-Leste, é a conexão lenta da rede da internet e a falta dos equipamentos de qualidade (Mocrofone, Computador, Portátil, Smartphone, etc.), e também de “como utilizar” e “saber utilizar”. Muitos professores e alunos não têm esses equipamentos de qualidade e nem todos “sabem utilizar” para dar aulas e para aprender. Todo esse desafio comum dificulta os professores para adiantar o processo de ensino e aprendizagem.

Apesar dos desafios, os professores de língua portuguesa têm que pensar sempre em outras estratégias que contribuem significativamente para o desenvolvimento das competências linguísticas dos formandos ou dos alunos, nomeadamente, a elaboração de exercícios com base nos vídeos e músicas, o envio das fichas com exercícios, dicas e outros materiais necessários para o aperfeiçoamento da língua portuguesa. Nesta estratégia, o aluno vê sempre os vídeos, ouve sempre as músicas, assimila e familiariza as pronúcias, vocabulários e sabe identificar e descobrir os conteúdos essenciais que os vídeos e as músicas falam.

As opiniões manifestadas no presente artigo são da exclusiva responsabilidade do autor, não vinculando qualquer entidade!

Escritor como Docente de Língua Portuguesa do Ministério do Ensino Superior, Ciência e Cultura, Timor-Leste.

Contactos: WhatsApp: 77558549 – Email: q2francis@gmail.com.

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