Por Dionísio Babo Soares*
Padre Domingos da Silva Soares, conhecido em todo o país como Padre Maubere ou Amo Du, foi um dos sacerdotes que colocou a sua vida ao lado do povo timorense durante a ocupação indonésia. Falecido a 16 de maio de 2025, aos 73 anos, recebeu homenagens do Estado, incluindo a condecoração a título póstumo com a Ordem Nicolau Lobato e a Ordem Funu Nain, em reconhecimento do seu contributo para a libertação nacional.
Nascido a 12 de maio de 1952 em Letefoho, no município de Ermera, Domingos Soares cresceu numa família humilde, no meio de comunidades rurais marcadas pela simplicidade e pelo trabalho agrícola. Sentiu cedo a vocação sacerdotal e foi enviado para Portugal, onde estudou Filosofia e Teologia, sendo ordenado padre em 1978, em Braga.
Regressou a Timor-Leste em 1980, já sob ocupação indonésia, e logo ao chegar ao aeroporto soube que a mãe tinha falecido poucos dias antes, ficando apenas o pai vivo. Pouco depois, foi nomeado pároco da paróquia de Santa Teresinha do Menino Jesus, em Ossu, distrito de Viqueque, uma região fortemente militarizada, onde civis eram frequentemente perseguidos por suspeita de ligação à resistência.
Foi em Ossu que se começou a formar a figura de “Padre Maubere”. A palavra “Maubere”, antes usada de forma depreciativa, foi transformada pelo movimento da resistência o significar do povo timorense mais vulnerável, digno e resistente. Assumir esse nome significava, para Padre Domingos, declarar que a sua missão era estar junto desse povo e partilhar o seu destino.
Enquanto sacerdote, celebrava missas, administrava sacramentos e acompanhava as comunidades, mas fazia muito mais do que isso. Usando a liberdade de movimentos que o seu estatuto de padre ainda permitia, visitava aldeias remotas, levava palavras de consolo, recolhia informações e transmitia mensagens entre grupos da resistência e redes clandestinas nas cidades.
Antigos membros da FALINTIL e da resistência clandestina recordam que padres como Domingos Maubere eram dos poucos que conseguiam circular entre zonas controladas pelo Exército indonésio e áreas de presença guerrilheira, funcionando como mensageiros discretos. Além de informação, levava alimentos, medicamentos e algum apoio financeiro, frequentemente angariado junto de comunidades locais e grupos de solidariedade.
A atividade de Padre Maubere não passou despercebida às autoridades de ocupação. Os serviços de informação indonésios vigiavam de perto o clero suspeito de simpatizar com a resistência, e os interrogatórios eram frequentes. Em 1983, Padre Domingos foi colocado em prisão domiciliária, uma forma de o controlar e intimidar, mas isso não o impediu de continuar a apoiar, de forma mais discreta, as comunidades e as redes de resistência.
Nos anos seguintes, assumiu várias responsabilidades na Diocese de Díli, incluindo a presidência da comissão da catequese e a direção de um instituto pastoral, funções que aumentaram a sua visibilidade – e a sua vulnerabilidade. Em 1988, transferido para Díli, aprofundou os contactos com figuras centrais da resistência, como Xanana Gusmão e Nino Konis Santana, reforçando a ligação entre estruturas eclesiais, guerrilha e solidariedade internacional.
Em 17 de agosto de 1997, as tensões com elementos pró-indonésios atingiram um ponto crítico. Um dirigente de milícia entrou na igreja de Letefoho, insultou o sacerdote e disparou sobre a fachada do templo, antes de ser travado por populares, num episódio que mostrou até que ponto a sua figura se tornara incómoda para os aliados da ocupação.
A evolução da posição da Igreja Católica em Timor-Leste foi decisiva para a ação de padres como Domingos Maubere. A partir do final dos anos 80, sob a liderança de figuras como D. Carlos Filipe Ximenes Belo, a Igreja passou de uma postura mais prudente para uma intervenção mais clara na defesa dos direitos humanos e da dignidade do povo.
Em 1990, o Padre Domingos, juntamente com outros sacerdotes timorenses, subscreveu o documento “Reflexão dos Sacerdotes Autóctones”, que defendia um papel mais ativo da Igreja na luta pela liberdade. Em síntese, o texto afirmava que a Igreja não podia permanecer neutra perante uma população sujeita a desaparecimentos e violência sistemática.
As paróquias passaram a ser, cada vez mais, lugares de refúgio relativo. Igrejas e casas paroquiais acolhiam pessoas perseguidas, escondiam fugitivos por curtos períodos e serviam de espaços de negociação para libertar detidos ou evitar abusos maiores. Muitos sobreviventes recordam ter encontrado em Padre Maubere e noutros sacerdotes uma voz que dizia: “O vosso sofrimento não é invisível” e “Não devemos esquecer quem somos”, palavras que alimentavam a esperança em tempos de medo.
Um dos episódios mais conhecidos da vida do Padre Maubere ocorreu em 1995, quando ajudou 18 jovens timorenses – vários ligados à resistência clandestina – a fugir de barco, de noite, a partir da baía de Tibar rumo à Austrália. Antes da partida, celebrou o casamento de um casal, baptizou um bebé de seis meses e entregou um pequeno crucifixo a cada um dos que embarcavam, prometendo que, se em sete dias não houvesse notícias, voltaria ao mar com velas e flores para os honrar como heróis do seu país. O grupo chegaria em segurança à Austrália ao sexto dia de viagem.
Em 1997, perante crescentes pressões das autoridades indonésias, o Padre Domingos da Silva Soares deixou Timor-Leste e partiu para o exílio em Portugal. Mesmo fora do país, continuou a intervir em defesa da causa timorense, participando em conferências, encontros e campanhas de sensibilização. Nesse mesmo ano, recebeu em Londres o Prémio Internacional da Paz da Pax Christi, que partilhou com a leiga timorense Maria de Lourdes Cruz, distinção que reconheceu o trabalho de ambos junto das comunidades mais desfavorecidas e a denúncia das violações de direitos humanos em Timor-Leste.
Nas intervenções internacionais, descrevia um povo “que vive na esperança e chora dia e noite pela libertação”, pedindo que a comunidade internacional não esquecesse Timor-Leste. O seu papel ajudou a consolidar uma frente política unida, que culminaria na criação do Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT).
Com o referendo de 1999 e a restauração da independência em 2002, o foco da luta mudou, mas o compromisso de Padre Maubere manteve-se. De regresso ao país, assumiu funções de coordenação e porta-voz em estruturas ligadas à resistência, antes de retomar plenamente a atividade pastoral.
Entre 2008 e 2017 viveu em Macau, onde estudou e acompanhou de perto a comunidade timorense migrante, continuando a ser uma referência espiritual para muitos. De volta a Díli, foi pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, em Becora, até ao fim da vida.
Em tempos de paz, tornou-se uma consciência crítica da nação: denunciou a corrupção, os abusos de poder, a violência contra as mulheres e as desigualdades sociais que persistiam no país. Para ele, a independência não podia ser apenas bandeiras e discursos; tinha de traduzir-se em justiça para os mais pobres.
Padre Domingos Maubere faleceu a 16 de maio de 2025, em Díli. O Presidente da República expressou, em voto de pesar oficial, “as mais sentidas condolências” à família, aos amigos e a todos os combatentes da libertação nacional, sublinhando que a morte do sacerdote representava “uma grande perda para o país”. No mesmo dia, o Chefe de Estado condecorou-o a título póstumo com altas distinções nacionais em reconhecimento da sua entrega à causa da independência e ao serviço do povo.
Apesar destas honras, a sua história não está totalmente registada em arquivos militares ou comunicados oficiais. Grande parte do que sabemos sobre o Padre Maubere vive na memória das comunidades, em testemunhos de antigos combatentes e na gratidão silenciosa de muitas famílias que ele ajudou.
Chamam-lhe “sacerdote revolucionário” não porque tenha comandado batalhas, mas porque fez da sua vocação uma forma de resistência: usou a palavra, o acolhimento, a proteção e a denúncia como armas contra a injustiça. Num tempo em que a história de Timor-Leste corre o risco de se reduzir a alguns nomes mais conhecidos, recordá-lo é reconhecer que a libertação do país também se construiu nas sombras, com gestos discretos, mas decisivos, de homens e mulheres que nunca abandonaram o povo maubere.
*Este artigo exprime uma opinião estritamente pessoal, com fins educativos, não vinculando qualquer instituição à qual o autor esteja ou tenha estado associado




