DÍLI, 17 de dezembro de 2021 (TATOLI) – A esposa de Max Stahl, Ingrid Bucens, com lágrimas nos olhos, expressou a sua gratidão pelo amor e carinho de todos os timorenses pela sua família, cujos membros foram reconhecidos como cidadãos deste país.
“Agradeço a todos os timorenses por darem Timor-Leste ao Max. Esta é a sua casa. É uma honra para nós sermos reconhecidos como cidadãos deste país e é também uma honra para o Max”, disse Ingrid à Tatoli numa entrevista exclusiva no Arquivo e Museu da Resistência, em Díli.
Durante a entrevista, Ingrid agradeceu também a todas as entidades envolvidas na cerimónia de deposição das cinzas do seu marido.
“Obrigada a todos, à comissão organizadora, aos veteranos, ao Comité 12 de Novembro, ao Governo, a Ramos Horta, aos trabalhadores do CAMSTL e a todos os timorenses. Max está feliz por estar de volta e ser bem-recebido”, frisou.
Ingrid contou que, ainda vivo, Max Stahl não fez nenhum pedido de nacionalidade devido à sua doença, mas sentia-se orgulhoso por ser aceite por todos os timorenses e viver para sempre no país.
“A doença impedia-o de comunicar, mas estamos muito gratos pelo amor que sempre recebemos, especialmente desde que as suas cinzas chegaram. Obrigada a todos os que participaram desde o início”, agradeceu.
Ingrid Bucens informou também que os seus filhos vão ficar na Austrália para continuarem os seus estudos, onde já estavam desde o início do tratamento do pai. No entanto, admitiu que foi uma decisão difícil, uma vez que os seus filhos vivem em Timor-Leste desde a infância e um deles tem 15 anos.
“Saímos de Timor-Leste em março do ano passado para o tratamento de Max. Durante este tempo, enfrentámos várias dificuldades. Infelizmente, após alguns meses, o estado de saúde de Max piorou devido ao cancro e, durante esse período, as crianças estudaram na Austrália. Então, decidimos que deveriam ficar e continuar aí os seus estudos”, concluiu.
É de lembrar que, depois de ter passado por vários cenários de conflito, sobretudo na América Latina, em agosto de 1991, Max Stahl veio para Timor-Leste para filmar o documentário que viria a chamar-se “In Cold Blood: The massacre of East Timor”.
A 12 de novembro de 1991, acompanhou e filmou a marcha de homenagem da igreja de Motael até à campa de Sebastião Gomes, que culminou no massacre do cemitério de Santa Cruz, em que centenas de jovens timorenses foram mortos por militares indonésios. As imagens correram o mundo e deram a conhecer o drama timorense.
A filmagem impulsionou a frente diplomática, catapultando Timor-Leste para as primeiras páginas dos meios de comunicação mundiais, depois de vários anos em que a situação timorense permanecia adormecida para a comunidade internacional.
Christopher Wenner, mais conhecido como Max Stahl, nasceu a 6 de dezembro de 1954 no Reino Unido. Faleceu no dia 28 de outubro, em Brisbane, vítima de doença prolongada, no mesmo dia em que se assinalavam os 30 anos da morte de Sebastião Gomes, que originou a homenagem que culminou no massacre de Santa Cruz.
As suas cinzas, que viajaram com a sua esposa e filhos desde a Austrália, chegaram, a 15 de dezembro, num voo da Qantas, ao Aeroporto Internacional Nicolau Lobato, em Díli, por volta das 11h45.
As cinzas do jornalista foram recebidas pelos líderes históricos Kay Rala Xanana Gusmão e o ex-Presidente José Ramos-Horta e entregues oficialmente ao Governo timorense representado pelo Ministro da Presidência do Conselho de Ministros, Fidélis Magalhães.
Na cerimónia de entrega das cinzas do jornalista, o Ministro Fidélis Magalhães, em nome do Governo e do Primeiro-Ministro, Taur Matan Ruak, disse que foi uma honra recebê-las.
O governante recordou que a independência do país contou com a contribuição de Max Stahl quando este relatou a situação e a história de Timor-Leste ao mundo.
“Represento o Executivo timorense e gostaria de dar as boas-vindas à família de Max Stahl. Peço a todos que lhe prestem uma última homenagem pelo seu trabalho e contribuição na luta pela independência”, frisou.
O ministro pediu também aos jovens timorenses que aprendessem com Max Stahl a respeitar Timor-Leste e a valorizar a solidariedade internacional, para se tornarem cidadãos responsáveis no seio da comunidade internacional, pois vários países do mundo ainda vivem com dificuldades.
De acordo com o cronograma divulgado pela comissão organizadora, as cinzas de Max Stahl serão depositadas num túmulo, especialmente preparado nos últimos dias, no mesmo local do cemitério de Santa Cruz onde o jornalista recolheu as imagens trágicas do massacre que levaram a uma viragem na atenção mundial para a luta timorense contra a ocupação indonésia.
Notícia relevante: Governo timorense recebe oficialmente cinzas de Max Stahl
Jornalista: Afonso do Rosário
Editora: Maria Auxiliadora




