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OPINIÃO

Conferência da APCC em Díli: Valores partilhados, memória coletiva e perspetivas futuras

Conferência da APCC em Díli: Valores partilhados, memória coletiva e perspetivas futuras

Escrita por:

Rafael Ximenes de A. Belo

A. Introdução

Entre os dias 27 e 29 de junho de 2025, Díli tornou-se palco de um encontro memorável: a 4.ª Conferência da Comunidade Asiática de Língua Portuguesa (APCC). Mais do que um evento institucional, a conferência foi um espaço vivo de reencontro entre histórias, afetos e identidades que atravessam fronteiras e séculos. Representantes de comunidades lusófonas de países como Malásia, Sri Lanka, Índia, Myanmar, Indonésia, Tailândia, Macau e Timor-Leste trouxeram connosco não apenas discursos e estudos, mas também memórias, músicas, sabores e gestos que compõem o mosaico da herança luso-asiática (Governo de Timor-Leste, 2025; Diligente Online, 2025).

Na sessão de abertura, o Presidente José Ramos-Horta afirmou que “as comunidades luso-descendentes sobreviveram a guerras, fomes, migrações e convulsões políticas. Salvaguardaram tradições, histórias, rituais e cozinhas únicas. A sua sobrevivência é um acto de resistência contra o esquecimento” (TATOLI, 2025). A conferência culminou com a assinatura da Declaração de Díli, que oficializou a criação da Associação das Comunidades Luso-Asiáticas (APCA), representando um compromisso intergeracional com a preservação da memória, a dignificação da diversidade e a construção de pontes de solidariedade regional (Tribuna de Macau, 2025; TATOLI, 2025).

Como sublinhou o Primeiro-Ministro timorenese Xanana Gusmão, “reconhecemo-nos não apenas pela herança comum, mas também pelas vulnerabilidades e aspirações partilhadas” (TATOLI, 2025). Este artigo propõe uma leitura sensível e crítica da conferência, explorando como ela se tornou um catalisador de diálogo intercultural, um gesto de resistência contra o esquecimento e uma semente para futuros mais inclusivos. A partir de discursos oficiais, contribuições académicas e experiências comunitárias, refletimos sobre o papel da APCC na preservação patrimonial e na construção de redes de solidariedade entre povos que partilham uma língua, mas sobretudo, uma história comum.

B. Revisão de literatura e discussão

  1. Revisão de literatura
  • Memória Coletiva e Identidade Cultural

A memória coletiva, como nos lembra Maurice Halbwachs (1950), não é um simples depósito de lembranças, mas uma reconstrução viva e socialmente mediada. Ela pulsa nos gestos, nas palavras e nos silêncios dos grupos que a cultivam (Halbwachs, 1950). É através desses marcos que comunidades constroem sua identidade e reforçam seus laços de pertencimento. Michael Pollak (1989) amplia essa perspetiva ao iluminar as chamadas “memórias subterrâneas” – aquelas que foram silenciadas, marginalizadas ou esquecidas pelas narrativas oficiais. São essas memórias que, quando resgatadas, tornam-se atos de resistência e afirmação cultural (Pollak, 1989). A 4.ª Conferência da APCC, ao reunir vozes luso-asiáticas de países como Malásia, Sri Lanka, Myanmar e Indonésia, encarna esse gesto de escuta e valorização. Cada testemunho ali partilhado é uma centelha que desafia o esquecimento e reativa vínculos identitários transgeracionais.

  • Patrimônio Cultural e Diálogo Intercultural

Para Néstor García Canclini (1994), o patrimônio cultural é mais do que um acervo de objetos ou tradições – é um recurso simbólico e político que molda imaginários coletivos e pode ser mobilizado para promover inclusão e diálogo (Canclini, 1994). A APCC, ao celebrar músicas, danças, sabores e saberes, transforma o patrimônio em linguagem comum entre povos que compartilham raízes lusófonas e trajetórias de resistência. Essa celebração não é apenas estética, mas profundamente diplomática: ela constrói pontes entre comunidades e reafirma o papel da cultura como ferramenta de coesão regional.

  • Identidade Cultural em Movimento

Stuart Hall (1996) convida-nos a pensar a identidade cultural como um processo fluido, sempre em construção. Não há essência fixa, mas sim narrativas em disputa, moldadas por contextos históricos e relações de poder (Hall, 1996). A conferência, ao reconhecer ancestralidades comuns e vulnerabilidades compartilhadas, propõe uma identidade transnacional que se ancora em valores como dignidade, amizade e paz — uma identidade que não exclui, mas acolhe. 

  1. Discussão 
  • Memória como Território de Encontro

A APCC em Díli não foi apenas um evento –foi um território simbólico onde memórias se encontraram, se reconheceram e se projetaram para o futuro. O discurso do Primeiro-Ministro Xanana Gusmão ecoou esse espírito ao afirmar: “Nos reconhecemos não apenas pela herança comum, mas também pelas vulnerabilidades e aspirações partilhadas.” Essa postura humanista e inclusiva transforma a memória coletiva em base para uma cooperação regional que não se limita a acordos políticos, mas se enraíza na empatia, na escuta e na construção de futuros sustentáveis. 

C. Conclusão

De acordo com as explicações apresentadas, conclui-se que:

  1. A 4.ª Conferência da APCC em Díli foi mais do que um encontro institucional – foi um reencontro de almas, histórias e esperanças. Ao reunir comunidades luso-asiáticas dispersas pelo continente, o evento tornou-se um espaço de reconhecimento mútuo, onde cada gesto, cada palavra e cada expressão cultural reafirmaram a dignidade de memórias que resistem ao tempo (Governo de Timor-Leste, 2025; Diligente Online, 2025);
  2. Mais do que preservar o passado, a conferência acendeu novas possibilidades de futuro. Os laços históricos foram revisitados com afeto, e as vulnerabilidades partilhadas transformaram-se em pontes de solidariedade. A assinatura da Declaração de Díli e a criação da Associação das Comunidades Luso-Asiáticas (APCA) simbolizam esse compromisso coletivo: cuidar da memória, fortalecer identidades e construir caminhos colaborativos para as próximas gerações (Tribuna de Macau, 2025; TATOLI, 2025);
  3. Díli, nesse contexto, não foi apenas anfitriã – foi território de escuta, de celebração e de renovação. Um lugar onde a diversidade não é obstáculo, mas força; onde a língua portuguesa ecoa como herança e como promessa. Como afirmou o Presidente José Ramos-Horta, “a sobrevivência destas comunidades é um ato de resistência contra o esquecimento” (TATOLI, 2025);

D. Recomendação

Com base nas conclusões acima mencionadas, recomendam-se os seguintes pontos e respetivas descrições:

  1. Educação Patrimonial Integrada. Incluir conteúdos sobre comunidades luso-descendentes nos currículos escolares dos países participantes não é apenas uma medida pedagógica – é um gesto de reconhecimento. Ao trazer para a sala de aula as histórias, os saberes e as práticas dessas comunidades, cultivamos o respeito pela diversidade e fortalecemos o sentimento de pertença entre os jovens. Que cada escola se torne um espaço de escuta e valorização das múltiplas raízes que compõem a nossa identidade regional. Esta proposta está alinhada com os princípios da Declaração de Díli e com os objetivos da recém-criada Associação das Comunidades Luso-Asiáticas (APCA);
  2. Arquivo Digital Colaborativo. Criar uma plataforma regional para o registro de histórias orais, documentos e expressões culturais é como construir uma casa comum para a memória. Um espaço onde vozes antes silenciadas possam ecoar, onde saberes ancestrais possam dialogar com o presente. Essa iniciativa deve ser acessível, multilingue e construída com a participação ativa das comunidades, garantindo que cada narrativa seja preservada com dignidade e afeto. Exemplos como o Museu da Pessoa, com mais de 20.000 histórias de vida digitalizadas, e a Missão de Pesquisas Folclóricas, que desde 1938 documenta manifestações culturais populares no Brasil, demonstram como a digitalização pode democratizar o acesso à memória e fortalecer identidades coletivas;
  3. Políticas de Apoio Sustentável. Estabelecer mecanismos de financiamento para iniciativas comunitárias de preservação cultural é investir na alma dos territórios. Isso inclui fundos públicos, incentivos fiscais, parcerias com fundações e até plataformas de financiamento colaborativo. O importante é garantir que as comunidades tenham autonomia para cuidar do seu patrimônio – seja ele material ou imaterial – com recursos, formação e reconhecimento. Modelos como o Fundo Cultural do BNDES, que oferece apoio não reembolsável para projetos de preservação patrimonial no Brasil, e o Portugal 2030, que contempla programas regionais e temáticos para valorização cultural e territorial, oferecem referências inspiradoras para políticas culturais com impacto social e territorial.

Referências

  1. Canclini, N. G. (1994). Consumidores e cidadãos: Conflitos multiculturais da globalização. Rio de Janeiro: Editora UFRJ.
  2. Governo de Timor-Leste. (2025, junho 29). Programa oficial da 4.ª Conferência da Comunidade Asiática de Língua Portuguesa (APCC). https://timor-leste.gov.tl/?p=43993&lang=en
  3. Hall, S. (1996). Who needs identity? In S. Hall & P. du Gay (Eds.), Questions of cultural identity (pp. 1–17). London: Sage.
  4. Halbwachs, M. (1950). La mémoire collective. Paris: Presses Universitaires de France.
  5. Missão de Pesquisas Folclóricas. (n.d.). Em Questão, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. https://seer.ufrgs.br/EmQuestao/article/download/105876/58757
  6. Museu da Pessoa. (n.d.). Histórias de vida digitalizadas. https://museudapessoa.com.br/museu-da-pessoa/
  7. Pollak, M. (1989). Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, 2(3), 3–15.
  8. Presidência da República de Timor-Leste. (2025, junho 27). Discurso de abertura por José Ramos-Horta na 4.ª Conferência da APCC. https://presidenciarepublica.tl/press-release-president-ramos-horta-opens-4th-asian-portuguese-community-conference-in-dili/
  9. (2025, junho 29). Formalizada Associação das Comunidades Luso-Asiáticas. https://pt.tatoli.tl/2025/06/29/formalizada-associacao-das-comunidades-luso-asiaticas/
  10. Tribuna de Macau. (2025, junho 29). Declaração de Díli resulta da união de luso-asiáticos. https://jtm.com.mo/local/declaracao-de-dili-resulta-da-uniao-de-luso-asiaticos/
  11. Diligente Online. (2025, junho 30). APCC dá luz verde à criação da Associação das Comunidades Luso-Asiáticas. https://www.diligenteonline.com/apcc-da-luz-verde-a-criacao-de-associacao-das-comunidades-luso-asiaticas/
  12. (n.d.). Fundo Cultural do BNDES. https://www.bndes.gov.br/wps/portal/site/home/financiamento/produto/bndes-fundo-cultural
  13. Governo de Portugal. (n.d.). Portugal 2030 – Apoiar Cultura. https://culturaportugal.gov.pt/pt/apoiar/

Díli, 04 de julho de 2025

Este artigo reflete exclusivamente opinião pessoal do autor e não representa, de forma alguma, a posição oficial de qualquer entidade ou instituição com a qual esteja associado. A sua elaboração foi feita no pleno exercício do direito à liberdade de expressão, tal como consagrado na Constituição da República Democrática de Timor-Leste.

(Facebook: Rafy Belo Atl, E-mail: belrafy@gmail.com)

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