DÍLI, 10 de maio de 2023 (TATOLI) – Paulo Lopes, 27 anos, quando ainda era estudante do ensino secundário, ficou conhecido como membro de um gangue de rua, no seu bairro em Comoro, Díli. O rapaz e os seus amigos bebiam álcool na rua todas as noites e, quando estavam bêbados, atacavam outros grupos de jovens.
Contudo, percebendo que não teria um bom futuro com a vida que levava, encontrou forças para tentar mudar e envolveu-se num clube juvenil, em 2017. Lá, aprendeu lições sobre resolução de conflitos e, pouco a pouco, passou a ganhar novas perspetivas e atitudes, convertendo-se num modelo de paz para a família e para a comunidade.
Atualmente, o jovem é aluno do 3.º semestre do curso pós-laboral de Direito da Universidade da Paz (UNPAZ).
Em 2019, Paulo Lopes e alguns colegas criaram uma associação, que, em 2022, se tornou numa Fundação chamada Mahon Ba Desevolvimentu Foinsa’e (Abrigo para o Desenvolvimento, em português). A organização oferece cursos de línguas como inglês, português, mandarim, espanhol e coreano, onde a maioria dos formadores é licenciada e experiente nesta área. Há também no espaço cursos de Autocad, jornalismo e informática.
Ainda no ano passado, com o retorno financeiro dos cursos, a Fundação inaugurou uma escola privada de ensino pré-escolar, que privilegia o uso de inglês, chamada Fini Ba Timor (Semente para Timor, em português). Para garantir a qualidade da língua inglesa aos seus alunos, a Fundação pretende expandir-se para o ensino básico.
Sobre a educação em Timor-Leste, Paulo considera que o mais importante é justamente o investimento no ensino básico, porque a sua geração “está a ser vítima de um ensino com pouca qualidade”.
“O currículo é bastante adequado, mas, na minha opinião, há falta de professores e, sobretudo, falta de vocação para ensinar. Por vezes, os docentes não se preocupam com as dificuldades de cada aluno, por isso, quero construir um ensino de igualdade horizontal, ou seja, ajudar aqueles que têm dificuldades em aprender e, assim, desenvolver as competências cognitivas das crianças”, argumenta Paulo Lopes.
Na escola situada em Ailok-Laran existem três salas para alunos e uma para professores. Há 29 estudantes, seis na vertente playgroup e 23 no ensino pré-escolar. Este divide-se em duas salas e cada turma é constituída por, pelo menos, dez alunos. Há dois professores titulares e dois assistentes, entre os quais uma professora licenciada em educação pré-escolar em Portugal e uma formadora com experiência em educação de infância.
Paulo acha que as escolas internacionais, além de, na sua maioria, serem geridas por estrangeiros, são caras. Ambiciona desenvolver um ensino mais acessível, de elevada qualidade e, desse modo, tornar-se num modelo para outras escolas e jardins de infância.
História do Paulo
Durante a infância, Paulo vivia nas montanhas com a sua família, em Viqueque. Ele e os irmãos cuidavam de búfalos. Em 2006, a sua mãe decidiu trazer os filhos para a capital, possibilitando, assim, o acesso a uma educação formal. Em Díli, a mãe teve de trabalhar para sustentar os filhos, especialmente para satisfazer as necessidades diárias e pagar os estudos. Nessa altura e durante os cinco anos seguintes, o pai continuou em Viqueque.
Paulo confessou que, devido às questões financeiras, os pais tinham de trabalhar muito e não passavam muito tempo juntos. Sente que cresceu sem afetos, sem cuidados e sem orientações. Paulo tornou-se desorganizado e malcomportado. Partilhou ainda que ia para a escola, com uma pasta, mas sem caderno, levando uma faca e uma garrafa de tua-sabo.
Devido ao seu comportamento desordeiro, o seu irmão mais velho, Agostinho, recusou oferecer-lhe dinheiro e incentivou-o a começar o seu próprio negócio. “Nesses tempos, senti muito stresse por não ter dinheiro, pelo que comecei a vender tabaco e pulsa de telemóveis. Porém, eu tinha vergonha quando via raparigas e colegas na rua. Às vezes escondia-me quando os encontrava”.
O sol ardente e a poeira criada pelos veículos não impediram o adolescente de se sustentar com ganhos resultantes do seu esforço. Pouco a pouco, apesar de ainda ter uma postura por vezes agressiva, habituou-se ao seu trabalho.
Depois de terminar o ensino secundário, em 2017, o seu irmão Agostinho convidou-o a juntar-se a um grupo de discussão em inglês, chamado English Club Community (ECC). Então, Paulo viu jovens que falavam inglês muito bem e “tinham boas ideias”. O rapaz perguntou a si próprio: “Como é estes adolescentes parecem tão inteligentes e têm tão boas opiniões? Eles são mais novos do que eu. Será que sou um estúpido e não aprendo bem?”.
Para este efeito, decidiu ler ativamente livros em inglês na biblioteca da Sala de Leitura Xanana Gusmão, apesar de ter uma compreensão básica da língua. Paulo explica que a leitura foi a forma que encontrou para tentar chegar ao nível dos outros jovens do grupo. Em quatro meses, sentia que entendia melhor o que lia.
“Eu gosto de ler livros sobre psicologia e, através destes, pude refletir sobre mim, sobre as minhas atitudes anteriores. A partir daí comecei a reconhecer os meus erros”. E foi aqui que Paulo Lopes alterou radicalmente o seu comportamento.
Os seus amigos do ECC convidaram-no a juntar-se a outro grupo, o ROTARAC, uma organização voluntária de jovens que defende a estabilidade e a paz na comunidade. Através desta organização, Paulo aprendeu sobre liderança e resolução de problemas.
“Depois de participar em muita formação sobre resolução de conflitos e outros assuntos relacionados com a estabilidade social, senti que era importante ser um exemplo de paz”.
Em 2019, o jovem criou um evento na aldeia em que vive, em Comoro, com o objetivo de resolver o desentendimento entre grupos de jovens e criar atividades divertidas para crianças.
O que este jovem fez mudou a opinião que a sua família e a comunidade tinham sobre ele. “O meu primo, Tito, não acreditava no que eu fazia, porque ele conhecia-me bem. Um dia, o Tito teve curiosidade sobre as minhas atividades, foi à biblioteca e viu-me a ler um livro. Veio abraçar-me. Até agora, ele e a minha família têm sempre apoiado as minhas atividades”.
Paulo admite que a sua namorada o ajuda. Ambos estão a juntar dinheiro, pouco a pouco, para construir uma escola para crianças. “Quero mostrar o amor de uma forma diferente, em que eu e a minha namorada possamos realizar os nossos sonhos com esforço. Promover a educação é também um ato de amor”.
Equipa da TATOLI




