DÍLI, 24 de junho de 2026 (TATOLI) – A Inteligência Artificial (IA) está a transformar profundamente a sociedade e a economia globais, mas continua a reproduzir desigualdades e preconceitos que afetam mulheres e raparigas. O alerta é da ONU Mulheres, num novo estudo que aponta a persistência de vieses de género em sistemas de IA e o agravamento da violência digital dirigida às mulheres.
De acordo com o relatório, 44% das tecnologias de IA analisadas apresentam preconceitos de género, enquanto 26% combinam discriminação baseada no género e na raça. A organização considera que estes resultados evidenciam a necessidade de uma maior supervisão e de políticas públicas que garantam o desenvolvimento responsável destas ferramentas.
A IA generativa tornou-se uma das tecnologias mais utilizadas em setores como a comunicação e o marketing. Um recenseamento realizado no Reino Unido revelou que 88% das agências de meios recorreram a estas ferramentas no último ano. Ainda assim, apenas 51% dos profissionais afirmam monitorizar os conteúdos produzidos por IA antes da sua divulgação.
O estudo cita ainda conclusões da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, segundo as quais os grandes modelos de linguagem associam frequentemente as mulheres a conceitos como “casa”, “família” e “filhos”, enquanto os homens surgem ligados a termos como “negócios”, “executivo” e “carreira”.
Os testes realizados revelaram igualmente que cerca de 20% das respostas geradas por sistemas de IA continham conteúdos sexistas ou misóginos, retratando as mulheres como objetos sexuais ou como propriedade dos seus maridos.
A ONU Mulheres destaca também a falta de enquadramento político para enfrentar o problema. Entre os 138 países analisados, apenas 24 fazem referência às questões de género nas suas estratégias nacionais para a IA, enquanto apenas 18 adotaram medidas específicas para mitigar este tipo de discriminação.
A disseminação da IA tem igualmente contribuído para o aumento da violência de género nos ambientes digitais. Dados da ONU Mulheres indicam que quase uma em cada quatro defensoras dos direitos humanos, ativistas e jornalistas já foi vítima de violência online mediada por IA.
Entre as mulheres inquiridas, 12% relataram a divulgação não consentida de imagens íntimas e 6% afirmaram ter sido alvo de conteúdos manipulados através da tecnologia conhecida como deepfake.
Apesar de serem particularmente afetadas por estes fenómenos, as mulheres continuam sub-representadas no setor tecnológico, representando apenas 30% da força de trabalho global nesta área. O relatório alerta ainda que, noutras profissões, os postos de trabalho ocupados por mulheres apresentam quase o dobro da probabilidade de serem automatizados em comparação com os ocupados por homens.
O estudo destaca, contudo, que a inclusão pode desempenhar um papel decisivo na redução dos estereótipos. Segundo dados da Aliança Anti-estereótipos, iniciativa liderada pela ONU Mulheres em parceria com o setor privado e com as empresas que produzem campanhas publicitárias inclusivas e livres de preconceitos registam aumentos de 3,46% nas vendas a curto prazo e de 16,26% a longo prazo.
Além disso, estas marcas têm 62% mais probabilidades de serem a primeira escolha dos consumidores e beneficiam de níveis de fidelização 15% superiores.
A ONU Mulheres defende que a IA se pode tornar uma ferramenta poderosa para identificar preconceitos e promover uma representação mais equilibrada da sociedade, desde que seja desenvolvida com mecanismos de segurança adequados e com a participação ativa de mulheres e organizações da sociedade civil.
Para a agência da ONU, o impacto futuro da IA dependerá das decisões tomadas por Governos, empresas e programadores, que deverão garantir uma abordagem mais inclusiva e equitativa na construção das tecnologias do futuro.
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