Por: Dionisio Babo Soares
Na paisagem dinâmica do Sudeste Asiático e da Asia, uma região historicamente associada a “milagres económicos”, os países têm, repetidamente, desafiado as expectativas, passando de economias devastadas por conflitos ou isoladas a centros vibrantes de oportunidades e inovação. Os “Tigres Asiáticos”: Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Singapura, abriram caminho, no final do século XX, com processos de industrialização acelerada e crescimento impulsionado pelas exportações. Mais recentemente, o dinamismo económico de nações como Singapura, Vietname, Malásia, Filipinas, e Indonésia confirma essa capacidade de transformação, enquanto países como o Camboja e o Laos, com trajetórias mais próximas da realidade de Timor-Leste, ofereem exemplos de resiliência e adaptação particularmente relevantes.
O Camboja, após décadas de guerra civil e instabilidade, iniciou nos anos 1990 um ciclo de reformas profundas e de integração na ASEAN que alterou substancialmente a sua trajetória. Nas últimas duas décadas, o crescimento económico foi notável: o PIB per capita aumentou de cerca de 300 dólares em 2000 para mais de 1700 dólares em 2021. A pobreza registou uma queda expressiva, passando de 36,7% em 2014 para 16,6% em 2022, o que se traduziu na redução do número de pobres de 5,6 para 2,8 milhões de pessoas. O Banco Mundial assinala igualmente que, entre 2009 e 2019, a taxa de pobreza caiu de 33,8% para 17,8%, embora a pandemia de COVID-19 tenha temporariamente revertido parte destes ganhos. Este progresso foi alicerçado sobretudo em setores como o vestuário, o turismo, e a construção, que dinamizaram tanto as áreas urbanas como as rurais. Apesar das persistentes desigualdades, segundo o Banco Mundial e o FMI, a evolução do Índice de Desenvolvimento Humano confirma a trajetória positiva do país, sustentada por uma liderança que foi eficaz na promoção da estabilidade económica.
O Laos, por seu lado, enfrentou limitações geográficas e estruturais, nomeadamente o facto de ser um país sem acesso ao mar e dependente de um modelo de governação centralizado. Contudo, a partir dos anos 1990, com o apoio do FMI e do Banco Mundial, o país iniciou reformas de liberalização económica. Apostou na exploração sustentável da energia hidroelétrica e dos recursos naturais, consolidando a imagem de “bateria do Sudeste Asiático”. Em 2022, as exportações de energia já representavam 12,8% do PIB. Embora o Laos enfrente atualmente sérios desafios relacionados com o sobre-endividamento e a inflação, a sua taxa de pobreza (18,3%) é substancialmente inferior à de Timor-Leste (superior a 40%). As reformas no setor empresarial estatal, os esforços para melhorar o ambiente de negócios e a aposta em infraestruturas transfronteiriças demonstram que a integração regional pode ser um motor poderoso de crescimento e diversificação.
Timor-Leste: Lições e Caminhos Possíveis
Timor-Leste permanece entre as nações mais pobres do Sudeste Asiático. Segundo o FMI (2024), mais de 40% da população vive em pobreza multidimensional, enquanto o crescimento económico, entre 2013 e 2023, se manteve abaixo dos 4% anuais. A economia continua fortemente dependente das receitas petrolíferas e do Fundo Petrolífero, avaliado em cerca de 18 mil milhões de dólares, valor dez vezes superior ao tamanho da economia nacional. Contudo, as projeções apontam para o risco de esgotamento do fundo até ao final da década de 2030, caso não sejam implementadas reformas consistentes.
O governo liderado pelo primeiro-ministro, Xanana Gusmão, tem vindo, desde 2024, a adotar medidas destinadas a alinhar a despesa pública com metas de sustentabilidade de longo prazo. Organizações internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, sublinham a necessidade de uma estratégia de investimento mais seletiva, focada em capital humano, infraestruturas, e diversificação produtiva, em detrimento de políticas excessivamente baseadas no consumo.
As experiências do Camboja e do Laos oferecem a Timor-Leste lições claras: disciplina macroeconómica, estabilidade política, e integração regional são elementos centrais para desbloquear o crescimento sustentável. O fortalecimento do setor privado, em especial das pequenas e médias empresas (PME), é essencial para dinamizar áreas como a agricultura, o turismo, a manufatura de pequena escala, e as energias renováveis. Além disso, a gestão prudente do Fundo Petrolífero é uma condição incontornável para transformar a riqueza finita dos recursos naturais em ativos duradouros para as futuras gerações.
Ao definir prioridades claras e garantir transparência nas políticas públicas, Timor-Leste poderá inspirar-se nas experiências regionais sem deixar de construir o seu próprio modelo de desenvolvimento. A chave está em assegurar que a riqueza petrolífera seja usada como alavanca para o investimento estratégico e inclusivo, em vez de perpetuar dependências.
As trajetórias de transformação do Camboja e do Laos demonstram que, mesmo perante condições adversas, reformas estruturais consistentes, combinadas com visão estratégica e integração regional, podem mudar radicalmente o destino de uma nação. Para Timor-Leste, o desafio não é menor, mas as oportunidades também não. (*)
Nota: Esta opinião é pessoal e não reflete necessariamente as visões da instituição à qual o autor se encontra afiliado.
Os dados aqui apresentados baseiam-se em fontes internacionais recentes e podem divergir das estatísticas oficiais mais atualizadas.




