DÍLI, 20 de agosto de 2025 (TATOLI) – No âmbito das comemorações do 50.º aniversário das Forças Armadas de Libertação Nacional de Timor-Leste (FALINTIL), realizadas em Tasi Tolu, Díli, sob o tema Estender a Paz ao Mundo, o Presidente da República (PR), José Ramos-Horta, destacou a importância do diálogo, da unidade e da memória coletiva.

Intervindo no evento, o Chefe de Estado recordou que a fundação das FALINTIL, a 20 de agosto de 1975, ocorreu em plena insurreição armada proclamada pela Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente, após o início da guerra civil, sublinhando que a história nacional está marcada por conflitos internos, como a crise de 2006, reforçando que “a grande lição para a nação é privilegiar sempre o diálogo para evitar divisões”.
“Esta data faz-nos lembrar que o primeiro trágico conflito ocorrido no nosso solo, foi um conflito entre irmãos timorenses, a guerra civil de agosto de 1975. Crises e crimes graves tiveram lugar durante a luta de independência em que timorenses mataram timorenses. A crise de 2006 foi igualmente uma crise de nossa exclusiva responsabilidade e que muito nos desonrou”, frisou.
O PR alertou para o perigo de discursos incendiários e ideologias importadas, defendendo “o diálogo como único caminho para prevenir conflitos e fortalecer a unidade nacional”. Sublinhado que o 20 de agosto deve ser um momento de reflexão sobre os erros do passado e de homenagem às FALINTIL pelo heroísmo desde os primeiros combates até à defesa de Díli em 1975”.

Ramos-Horta prestou homenagem aos combatentes da resistência armada e clandestina, à Resistência Nacional dos Estudantes de Timor-Leste, às mulheres e às famílias que sustentaram a luta, bem como ao papel da Igreja Católica, lembrando ainda figuras de referência como Nicolau Lobato, Xanana Gusmão, Fernando de Araújo “Lasama” e Dom Martinho Lopes.
“A nossa memória coletiva é tecida com os nomes e feitos daqueles que resistiram até ao último alento. Não podemos evocar todos neste momento, mas podemos relembrar alguns que nos inspiram no dia a dia”, afirmou.
O Chefe de Estado referiu também que 2025 é um ano histórico para Timor-Leste, com três grandes marcos: o 50.º aniversário das FALINTIL, a adesão plena do país à Associação das Nações do Sudeste Asiático, prevista para outubro, e o 50.º aniversário da Proclamação da Independência, em novembro.
Ramos-Horta enalteceu igualmente o papel das mulheres na resistência e no desenvolvimento das FALINTIL-Forças de Defesa de Timor-Leste, defendendo o reforço da ligação entre militares e civis, bem como o apoio contínuo aos veteranos.
“Elas foram combatentes, cuidadoras e líderes que garantiram a coesão social e o apoio moral às famílias e comunidades durante toda a luta. Enfrentaram com coragem a invasão e o conflito, contribuindo de forma decisiva, embora seus nomes muitas vezes não estejam registados”, assinalou.
Ramos-Horta apelou à juventude timorense para herdar o legado de coragem e resiliência dos combatentes das FALINTIL, assegurando um futuro de paz, prosperidade e integração regional.
Para o Chefe de Estado, este dia deve também servir para que se reflita sobre os desafios globais contemporâneos, com destaque para o conflito no Médio Oriente.
O PR destacou a importância do diálogo como instrumento essencial para prevenir guerras, condenando veementemente a violência em Gaza, classificando-a como um “genocídio premeditado do povo palestino”.
“Observo profundamente sacudido nas minhas crenças em valores proclamados ao longo de gerações, quando vejo em live streaming o genocídio premeditado do povo palestino e a indiferença cúmplice das elites políticas ocidentais”, declarou.
O Chefe de Estado criticou ainda o que chamou de “silêncio ensurdecedor e hipócrita” da comunidade internacional, condenando a provisão de armas a Israel e qualificando-a como “ultrajante” diante do sofrimento humano na região.
Embora tenha denunciado as ações militares israelitas, Ramos-Horta responsabilizou também o Hamas, lembrando crimes cometidos não apenas contra civis israelitas, mas igualmente contra palestinianos ao longo de décadas.
O PR salientou que o mundo atravessa uma era de “múltiplas crises interligadas”, que ultrapassam fronteiras e afetam, sobretudo, os países mais vulneráveis, destacando conflitos armados prolongados, como os que se vivem na Ucrânia, em Gaza, no Iémen, no Sudão e em Myanmar, que “continuam a causar sofrimento humano, deslocações forçadas e instabilidade geopolítica”.
Além dos conflitos, o Chefe de Estado apontou igualmente ameaças transnacionais, como o tráfico de armas e drogas, a cibercriminalidade e a migração irregular, considerando-as riscos permanentes à paz e à segurança global.
Ramos-Horta alertou também para fenómenos meteorológicos extremos, perda de biodiversidade, insegurança alimentar e escassez de água como fatores que “afetam milhões de pessoas e agravam desigualdades históricas”, criticando as tensões comerciais, guerras tarifárias e a subida contínua dos preços dos bens essenciais e sublinhando que estas dinâmicas atingem de forma mais dura “as populações mais pobres”.
Notícia relevante: Lere pede que jovens continuem legado deixado pelos mártires
Jornalista: Afonso do Rosário
Editora: Isaura Lemos de Deus




