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OPINIÃO

Desporto e Diplomacia Cultural: O Papel dos Jogos da CPLP na Consolidação das Relações Lusófonas

Desporto e Diplomacia Cultural: O Papel dos Jogos da CPLP na Consolidação das Relações Lusófonas

Escritór: Felisberto de Carvalho

Entre os dias 17 e 27 de julho de 2025, a cidade de Díli, capital de Timor-Leste, acolheu a XII edição dos Jogos Desportivos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Este evento transcendeu as fronteiras do desporto competitivo. Mais do que um simples conjunto de provas atléticas, os Jogos representaram uma plataforma estratégica de diplomacia cultural, integração juvenil e afirmação identitária lusófona no cenário internacional. Neste artigo, analisa-se como o desporto se tornou uma ferramenta eficaz de soft power e de diplomacia pública entre os países da CPLP, com base nos conceitos de diplomacia cultural (Nye, 2004; Constantinescu, 2011), soft power (Nye, 2004) e diplomacia desportiva (Murray, 2011).

A CPLP, criada em 1996, foi concebida como um espaço de diálogo político, cooperação e partilha cultural entre países que têm a língua portuguesa como traço comum. No entanto, à medida que o bloco se consolidava, emergia a necessidade de criar mecanismos que permitissem não apenas a cooperação intergovernamental, mas também o fortalecimento dos laços entre os povos, em especial entre os jovens.

É neste contexto que surgem os Jogos da CPLP. Para Joseph Nye (2004), o soft power é a capacidade de um país influenciar os outros sem recorrer à coerção, mas sim à atração cultural, valores partilhados e legitimação política. Os Jogos enquadram-se perfeitamente nesta definição, pois permitem que os Estados membros reforcem sua imagem internacional, promovam seus valores culturais e fortaleçam laços bilaterais e multilaterais, tudo através de uma linguagem universal: o desporto.

O desporto tem sido amplamente reconhecido como uma ferramenta de diplomacia pública, sobretudo por seu caráter agregador. Murray (2011) define a diplomacia desportiva como o uso estratégico do desporto para melhorar relações diplomáticas e fomentar o diálogo intercultural. No caso dos Jogos da CPLP, o desporto não apenas promove a saúde e a competição, mas também atua como um instrumento simbólico de unidade lusófona.

Em Díli, os Jogos de 2025 contam com a participação de delegações de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Os atletas, com idades entre 15 e 16 anos, não apenas competem, mas também convivem, partilham experiências e participam em atividades culturais. Esta convivência, como argumenta Constantinescu (2011), permite a troca genuína de valores, ideias e tradições, fortalecendo o entendimento mútuo entre os povos.

A escolha de Díli como sede dos Jogos em 2025 é altamente simbólica. Timor-Leste é o país mais jovem da CPLP e representa o esforço coletivo da comunidade internacional lusófona na reconstrução de uma nação baseada nos princípios da democracia, soberania e cultura partilhada. A organização deste evento em solo timorense sinaliza o reconhecimento internacional da sua estabilidade e da sua capacidade institucional, além de reforçar a centralidade do país no contexto geopolítico da CPLP.

A infraestrutura desportiva, como o Estádio Municipal de Díli, foi renovada com o apoio de parceiros internacionais. Isto não apenas proporciona um legado físico, mas também uma afirmação simbólica de pertencimento e integração ao espaço lusófono. Além disso, o governo timorense incorporou nos Jogos uma vertente cultural robusta — festivais, oficinas de artes, intercâmbios educacionais — que reforçam ainda mais o caráter multidimensional e diplomático do evento.

Outro aspeto central dos Jogos é seu foco na juventude. Ao permitir que jovens lusófonos se conheçam e criem laços pessoais e culturais, os Jogos plantam sementes de cooperação futura. A criação de uma identidade comum desde tenra idade é fundamental para consolidar um projeto político-cultural como a CPLP. Este tipo de diplomacia pública, voltada à sociedade civil, é crucial para que os ideais da CPLP se enraízem de forma sustentável.

Segundo Cull (2009), a diplomacia pública de segunda geração enfatiza a construção de relacionamentos duradouros e o engajamento mútuo, em oposição à simples “transmissão de mensagens”. Os Jogos da CPLP materializam esta visão ao oferecer um espaço para relações interpessoais genuínas, baseadas em experiências partilhadas e não em propaganda institucional.

Apesar das suas potencialidades, a diplomacia desportiva não está isenta de desafios. A literatura aponta para o risco de instrumentalização política dos eventos desportivos (Grix & Houlihan, 2014), onde o desporto se transforma numa vitrine de poder e prestígio, em vez de um instrumento de transformação. Há também o perigo de que o impacto se limite ao curto prazo, se não houver um follow-up consistente por parte dos governos e das instituições envolvidas.

Outro desafio é garantir que os Jogos não se tornem exclusivistas. A inclusão de atletas com deficiência, a equidade de género e o acesso a jovens de zonas rurais são elementos essenciais para que o evento se mantenha fiel aos princípios da coesão e inclusão social.

Os Jogos da CPLP realizados em Díli, Timor-Leste, em 2025, representam um marco na consolidação das relações culturais, diplomáticas e identitárias lusófonas. Através de uma combinação eficaz entre desporto, juventude e cultura, o evento promove um soft power coletivo, reforça os laços entre Estados e fortalece a imagem externa da CPLP como comunidade de valores partilhados.

Mais do que uma competição, os Jogos são um espaço de reconhecimento mútuo, de construção de pontes e de exercício prático de diplomacia cultural. Para que os seus efeitos sejam duradouros, é necessário que os Estados membros invistam na continuidade das ações culturais, no intercâmbio juvenil e na promoção de políticas públicas que valorizem o desporto como bem comum. Só assim, a CPLP poderá consolidar-se não apenas como uma comunidade de língua, mas como uma verdadeira comunidade de afetos e de futuro partilhado. (*)

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