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OPINIÃO

Timor-Leste pode enfrentar outra inundação grave

Timor-Leste pode enfrentar outra inundação grave

Julião da Costa Belo (autor)

Julião da Costa Belo (autor)

Introdução

As alterações climáticas representam mudanças significativas e de longo prazo nos padrões climáticos, afetando tanto escalas regionais quanto globais, com impactos observáveis na temperatura, precipitação, ventos e fenómenos meteorológicos extremos. Atualmente, essas mudanças são, em grande parte, impulsionadas por atividades humanas, como a queima de combustíveis fósseis, a desflorestação e as emissões de gases de efeito estufa.

Este estudo tem como objetivo partilhar informações relevantes sobre os impactos das alterações climáticas, com foco no aumento da precipitação na região do Sudeste Asiático, incluindo Timor-Leste, onde eventos recorrentes de inundações têm causado danos significativos às comunidades e infraestruturas locais.

A metodologia adotada baseia-se na análise de relatórios do IPCC e de artigos científicos específicos para esta região, permitindo uma compreensão aprofundada das dinâmicas climáticas locais.

Espera-se que os resultados deste estudo apoiem os decisores políticos, os gestores e as instituições académicas, incentivem o investimento em recursos humanos e o desenvolvimento de estratégias eficazes para reduzir os impactos das alterações climáticas e aumentar a resiliência das comunidades afetadas.

Estudos científicos apontam um aumento da precipitação no Sudeste Asiático

Os mapas a seguir, extraídos do relatório do IPCC de 2021, ilustram que as mudanças climáticas têm impactado todas as regiões habitadas do planeta, incluindo o Sudeste Asiático, desde 1950. A influência humana desempenha um papel significativo na maioria dos casos, especialmente em eventos extremos, como o aumento da temperatura, o crescimento da precipitação e a intensificação de secas prolongadas, observados recentemente, conforme ilustrado na Figura 1.

A Figura 1 é dividida em três seções principais, cada uma focando em um tipo específico de mudança observada desde os anos 1950: extremos de calor, precipitação intensa e secas agrícolas e ecológicas.

  1. Extremos de calor: 41 de 45 regiões mostram aumento, incluindo o Sudeste Asiático (SEA) e nenhuma região apresenta diminuição.
  2. Precipitação intensa: 19 regiões apresentam aumento incluindo o sudeste asiático, norte da Europa, leste da américa e sul da africa.18 regiões têm dados limitados e  8 regiões com baixo acordo sobre a mudança.
  3. Secas agrícolas e ecológicas: 12 regiões mostram aumento nas secas, apenas o Norte da Austrália (NAU) onde inclui o Timor-Leste, relata diminuição e outras regiões têm baixo acordo ou dados limitados.

O aumento da precipitação em diversas regiões globais continuará caso não seja alcançada uma mitigação eficaz. A Figura 2 a seguir ilustra Mudanças projetadas de temperatura máxima diária anual, umidade média total anual do solo na coluna e precipitação máxima anual de 1 dia em níveis de aquecimento global de 1,5°C, 2°C, 3°C e 4°C em relação a 1850–1900. Projetada (a) mudança máxima anual da temperatura diária (°C), (b) mudança média anual da umidade total anual do solo na coluna (desvio padrão), (c) mudança máxima anual da precipitação de 1 dia (%).

A Figura 2 ilustra, no Sudeste Asiático, também o aumento da precipitação anual nos dias mais chuvosos é evidente, especialmente à medida que a temperatura global aumenta. De acordo com os mapas da coluna (c), observa-se que, para um aumento de +1,5°C, já há sinais de aumento na precipitação, com +2°C e +3°C, o aumento torna-se mais pronunciado, indicando maior frequência de eventos de chuvas intensas. A +4°C, a intensificação das chuvas é ainda mais significativa, sugerindo risco elevado de inundações. Essa projeção indica que o Sudeste Asiático incluindo o Timor-Leste, poderá enfrentar eventos de chuvas mais intensas, aumentando os riscos de inundações e afetando o equilíbrio hídrico da região.

O aquecimento global deve intensificar as chuvas no Sudeste Asiático, especialmente no verão pós-El Niño, devido ao fortalecimento da resposta da monção impulsionada por mudanças na circulação atmosférica e oceânica, resultando em maior precipitação na região (Nguyen et al., 2022). Esse aumento está relacionado ao enfraquecimento das anomalias da temperatura do mar no Pacífico Equatorial Ocidental, o que influencia a dinâmica atmosférica e contribui para o crescimento das chuvas (Lin et al., 2024). Além disso, projeções indicam um aumento de 6,0% a 12,4% na precipitação média anual, acompanhado de maior sazonalidade das chuvas, evidenciando variações significativas entre as estações (Sobh et al., 2022). De acordo com o IPCC (2022), esse cenário de intensificação das chuvas e aumento da frequência de eventos extremos de precipitação e inundações na Ásia das monções, especialmente no Sudeste, Sul e Leste da Ásia, pode resultar em inundações mais graves, afetando a gestão dos recursos hídricos da região (IPCC, 2022; Schamm et al., 2014; Mori et al., 2021b)Parte inferior do formulário

Impactes globais das alterações climáticas

As mudanças climáticas causam impactos no ambiente, geram desafios econômicos e afetam a sociedade, intensificando desigualdades e ameaçando o desenvolvimento sustentável.

Ambientais; as alterações climáticas provocam o aquecimento global, a subida do nível do mar, as alterações nos padrões de precipitação, a perda de biodiversidade e o aumento de desastres naturais, que ameaçam os ecossistemas e a sustentabilidade ambiental. Um exemplo é a inundação que ocorreu a 21 de abril de 2021 em Timor-Leste, que resultou em cerca de 40 mortes e mais de 10.000 famílias a serem deslocadas. Este tipo de desastre pode voltar a acontecer se não forem adotadas medidas de adaptação adequadas e ações de mitigação eficazes a nível global.

Nos Econômicos; as alterações climáticas afetam a economia ao reduzir a produtividade agrícola, danificar infraestruturas, aumentar os custos de saúde, impactar o abastecimento de energia e água, alterar mercados de trabalho e elevar os riscos financeiros, agravando a instabilidade global.

 Sociedade; as alterações climáticas causam migrações forçadas, agravam desigualdades sociais, impactam a saúde física e mental, geram tensões sociais e conflitos, alteram os mercados de trabalho e ameaçam culturas tradicionais, enquanto também estimulam movimentos sociais e ativismo por ações climáticas.

Conclusão

As alterações climáticas representam um dos maiores desafios ambientais, sociais e econômicos para Timor-Leste e para o mundo. O aumento da temperatura global, a intensificação das chuvas e eventos climáticos extremos, como secas e inundações, são impactos diretos dessa crise ambiental, fortemente influenciada pela ação humana.

Em Timor-Leste, os efeitos das mudanças climáticas são particularmente preocupantes, uma vez que a intensificação das precipitações e a ocorrência de fenômenos extremos podem resultar em desastres naturais mais frequentes, afetando a infraestrutura, a economia e a qualidade de vida da população. O aumento da precipitação previsto para as próximas décadas exige estratégias eficazes de adaptação para reduzir os impactos negativos.

Diante desse cenário, é fundamental que o país adote políticas públicas voltadas para a sustentabilidade, promovendo a redução das emissões de gases de efeito estufa, a proteção dos ecossistemas e o desenvolvimento de infraestruturas resilientes baseadas em estudos científicos. Além disso, é fundamental investir em iniciativas de longo prazo, especialmente na formação de recursos humanos nas universidades e a cooperação internacional para enfrentar esse desafio global e assegurar um futuro mais seguro e sustentável para as próximas gerações.

Sugestão

Com base em estudos científicos sobre as mudanças climáticas no Sudeste Asiático, incluindo Timor-Leste, apresentamos propostas para reduzir impactos negativos e aproveitar oportunidades para beneficiar as comunidades.

  1. Adaptação proativa e infraestrutura resiliente: Investir em sistemas de drenagem e habitações mais resistentes a desastres, com base em estudos científicos interdisciplinares.
  2. Políticas Ambientais Sustentáveis: Proteger florestas, promover reflorestamento e práticas agrícolas sustentáveis com leis e ações efetivas.
  3. Parcerias e Cooperação Internacional: Fortalecer o apoio de organizações globais para financiar e implementar projetos de adaptação climática.
  4. Criação de departamentos especializados: Recomenda-se que as Instituições de Ensino Superior criem cursos alinhados às tendências globais, como Alterações Climáticas, Economia Verde e Economia Azul, enquanto o Ministério da Educação deve ampliar esses temas nos currículos do ensino básico e secundário para formar cidadãos preparados para os desafios sustentáveis.
  5. Pesquisas científicas e inovação: Apoiar estudos sobre mudanças climáticas, economia verde e azul, com forte apoio financeiro governamental e internacional.
  6. Aproveitamento da precipitação para energia hídrica: Utilizar o aumento da precipitação para gerar energia renovável, como pequenas centrais hidrelétricas.
  7. Uso inteligente da chuva para agricultura: Desenvolver sistemas de irrigação eficiente para aproveitar a água da chuva e garantir a segurança alimentar com até três colheitas por ano.

Referências

  • Lin, S., Dong, B., & Yang, S. (2024). Enhanced impacts of ENSO on the Southeast Asian summer monsoon under global warming and associated mechanisms. Geophysical Research Letters, 51(2), e2023GL106437. https://doi.org/10.1029/2023GL106437
  • Sobh, M. T., Hamed, M. M., Nashwan, M. S., & Shahid, S. (2022). Future projection of precipitation bioclimatic indicators over Southeast Asia using CMIP6. Sustainability, 14(20), 13596. https://doi.org/10.3390/su142013596
  • Nguyen, P.-L., Bador, M., Alexander, L. V., Lane, T. P., & Ngo-Duc, T. (2022). More intense daily precipitation in CORDEX-SEA regional climate models than their forcing global climate models over Southeast Asia. International Journal of Climatology, 42(12), 6537–6561. https://doi.org/10.1002/joc.7619
  • Intergovernmental Panel on Climate Change. (2021). Climate change 2021: The physical science basis. Contribution of Working Group I to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change (V. Masson-Delmotte, P. Zhai, A. Pirani, S. L. Connors, C. Péan, R. Berger, … & B. Zhou, Eds.). Cambridge University Press. https://doi.org/10.1017/9781009157896
  • Intergovernmental Panel on Climate Change. (2022). Climate change 2022: Impacts, adaptation and vulnerability. Contribution of Working Group II to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change (H.-O. Pörtner, D. C. Roberts, M. Tignor, E. S. Poloczanska, K. Mintenbeck, A. Alegría, … & B. Zhou, Eds.). Cambridge University Press. https://doi.org/10.1017/9781009325844
  • https://pt.tatoli.tl/2023/11/18/inaugurada-casa-para-vitima-das-inundacoes-de-4-de-abril-de-2021/

Aluno do doutoramento em Ciências Física Aplicadas

(Meteorology, Atmospheric Sciences and Climate Research)

UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO (UTAD)

Quinta de Prados, 5000-801 Vila Real, Portugal

E_Mail: juliaodacostabelo079@gmail.com

Nu. Tlfn. /Wa.: +351 917368879

Profissão Anterior: Docente de Física, UCT

Emelita do R. M. da Costa (apoio)

Aluna de Mestrado em Ciências da Educação

UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO (UTAD)

Quinta de Prados, 5000-801 Vila Real, Portugal

Nu. Tlfn. /Wa.: +351 966201297

Profissão Anterior: Docente de Física, UNITAL

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