DÍLI, 31 de agosto de 2023 (TATOLI) – A decisão da junta militar do Myanmar de expulsar do país o Encarregado de Negócios timorense, Avelino Pereira, não vai impedir a adesão de Timor-Leste à organização. É este o posicionamento do Primeiro-Ministro, Xanana Gusmão, em reação à expulsão do diplomata e das declarações da junta militar no poder a propósito da posição do Primeiro- Ministro timorense. Vale a pena recordar que o líder do executivo tinha se manifestado explicitamente crítico em relação ao atropelo da democracia em Myanmar pela junta militar e ao processo inconstitucional pela qual a mesma acedeu ao poder.
“A expulsão do nosso diplomata de Myanmar não vai prejudicar o processo de adesão do país à ASEAN, porque a ASEAN não é Myanmar, o país [apenas] faz parte da organização”, concretizou Xanana Gusmão, após o término de um encontro com o Presidente da República, Ramos Horta, em Díli.
O Chefe do Governo acrescentou também outra razão que impede que Myanmar interfira na adesão de Timor-Leste à ASEAN: Timor-Leste é um dos fundadores da organização intergovernamental dos Países Afetados por Conflitos (g7+), uma organização que presta assistência aos países vulneráveis. A g7+, estabelecida oficialmente em 2010, é composta por 20 países que são ou foram afetados por conflitos e estão em transição para uma fase de desenvolvimento.
“Timor-Leste está a ajudar muitos países no continente africano, como exemplo a Guiné-Bissau, um país que declarou a sua independência em 1974 e que completou 40 anos em 2014, naquela altura Timor-Leste tinha 12 anos, mas conseguiu apoiá-la a realizar as eleições”, frisou.
Também a Vice-Ministra para os Assuntos da ASEAN, Milena Rangel, defendeu a que a decisão da junta militar do Myanmar de expulsar do país o diplomata timorense, não vai prejudicar o processo da adesão do país à organização.
A governante salientou que, após receber a ordem de expulsão da junta militar de Myanmar, Avelino Pereia deixou imediatamente o país, estando atualmente em Timor-Leste. “A maioria dos Estados-membros da ASEAN já aprovou que Timor-Leste tenha o estatuto de observador em diversos encontros formais da organização”, disse a governante.
Também o especialista do Desenvolvimento dos Recursos Humanos da ASEAN, Bob Aubrey, revelou que apoia a posição de Timor-Leste face à restauração da ordem democrática em Myanmar. Bob Aubrey lembrou ainda que, em abril de 2021, os líderes de nove países membros da ASEAN e o Chefe da Junta militar do Myanmar, General Min Aung Hlaing, assinaram o Consenso dos Cinco Pontos no qual ficaria acordado o fim imediato da violência no país; o diálogo entre todas as partes; a nomeação de um enviado especial; a assistência humanitária da ASEAN; e a visita do enviado especial a Myanmar para se reunir com todas as partes. Contudo, refere Bob Aubrey, a Junta militar não cumpriu as obrigações descritas no acordo.
De lembrar que, na base da decisão da junta militar estiveram, entre outros, as recentes declarações do Primeiro-Ministro, Xanana Gusmão, nas quais afirmava que Timor-Leste iria reconsiderar a adesão à ASEAN, caso esta não conseguisse apaziguar a situação vivida no Myanmar e contribuir para que aquele país regressasse a um caminho da via democrática.
A respeito daquelas, a junta militar pronunciou-se deste modo: “As declarações imprudentes e irresponsáveis do primeiro-ministro não são apenas prejudiciais para a manutenção das relações bilaterais entre Myanmar e Timor-Leste, mas também negligenciam de forma grosseira os contínuos ataques violentos do grupo terrorista chamado de Governo de Unidade Nacional”.
Notícia relevante: PN aprova resolução que condena decisão da Junta Militar de Myanmar
Jornalista: Domingos Piedade Freitas
Editora: Isaura Lemos de Deus




