DÍLI, 07 de dezembro de 2022 (TATOLI) – Germano Xavier tem 70 anos. No dia 07 de dezembro de 1975 era um militar, então com 23 anos. O seu testemunho dita que terá sido a primeira barreira contra a invasão da indonésia. É um testemunho histórico e repleto de simbolismo, mas relevante.
“Fui a primeira pessoa a disparar contra os indonésios. Baleei um paraquedista indonésio em Balide”, recorda Germano Xavier. Neste testemunho o ex-militar revela uma curiosidade, mas também uma singularidade histórica: ele esteve na primeira linha, ele começou aquilo que só acabou décadas depois.
Germano Xavier nasceu em Viqueque em 1952. Tem oito filhos, cinco rapazes e três raparigas. É avô de três netos. Vive no suco de Cai-ualita, do posto administrativo de Uatucarbau, do município de Viqueque. É professor do ensino básico.
Tal como nos países dominados pelos portugueses na altura (Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, entre outros) também em Timor-Leste as vozes que ansiavam pela independência e liberdade também encantavam os ouvidos do povo maubere.
O veterano considera que o dia invasão “é uma peregrinação dos timorenses na luta pela independência”, porque “a única esperança dos países colonizados é a liberdade”, afirma Germano Xavier.
Segundo o seu testemunho, após a proclamação da independência, os ex-militares portugueses assumiram a responsabilidade de assegurar proteção ao arsenal de armas de guerra, em Balide. Conta que já tinha ouvido o rumor da invasão, pois os inimigos já teriam entrado em Balibó, do município de Bobonaro, zona fronteira entre Timor-Leste e a Indonésia.
“Já tinha ouvido as notícias de NTT [Nusa Tengarra Timur] sobre o movimento das forças armadas indonésias destacadas para Timor. Segundo informações, estes militares tomariam o pequeno-almoço em Díli, almoço em Baucau e jantar em Lospalos. Isto era uma metáfora. Queriam transmitir a ideia de que, em menos de 24 horas, os militares indonésios iriam controlar fácil e rapidamente todo o território timorense”, contou.
Nove dias depois, em 07 de dezembro de 1975, ocorreu a invasão que resultou no controlo, inclusive administrativo, da maior parte de Timor-Leste pelos indonésios. As forças aéreas, navais e terrestres lançaram a “operação komodo”, um ato militar que visava o alerta que antecedia a invasão total
Esta foi, à altura, a maior operação militar realizada pela Indonésia. Dela resultou que 122 soldados das FALINTIL morreram no combate durante as seis primeiras horas. Ao tempo, alguns navios de guerra indonésios terão bombardeado as suas próprias tropas que avançavam no terreno. Simultaneamente, aviões indonésios lançaram paraquedistas sobre as tropas das FALINTIL. As forças em batalha eram desiguais.
Em 1975, os líderes timorenses declararam unilateralmente independência face a Portugal. Pouco depois, os militares timorenses que lutavam pela manutenção da independência foram massacrados pelo exército e polícia indonésios, sob o comando do presidente Soeharto.
“Às quatro horas da madrugada do dia 07 de dezembro, os aviões indonésios despejaram tropas em Díli. O primeiro objetivo era controlar os arsenais de material da guerra da capital”, contou o veterano.
Germano Xavier recordou que no primeiro dia da invasão o medo e o terror dominavam os residentes em Díli. “Não adivinhei que aquele foi o dia que confirmou o rumor que já circulava sobre a invasão”.
“Às cinco horas do dia sete, sem pensar duas vezes, atirei e do meu tiro resultou um morto. Fui a primeira pessoa em Díli a balear um paraquedista indonésio”, contou.
Como reação, a marinha indonésia bombardeou Díli e as tropas indonésias controlaram alguns bairros de Díli, incluindo o do Palácio Governo e as principais ruas do centro da cidade.
Nessa altura, “as FALINTIL ainda controlavam algumas zonas, como, por exemplo, Taibessi e de Lahane, zonas perto de arsenais com material de guerra. Os indonésios bombardeavam e, nalguns bairros começaram a torturar timorenses, principalmente homens”, contou Germano.
A posição radical tomada pela FRETILIN levou muitos timorenses a associarem-se a este partido, em oposição à UDT (União Democrata Timorense). Tal como Germano Xavier, muitas pessoas saíram de Díli e foram para Lahane, tendo ainda alguns partido no dia seguinte para Aileu.
“O que ocorreu durante estes 24 anos da ocupação das tropas indonésias foi horrível, muitas pessoas foram torturadas, muitas morreram. Atualmente, os velhos pensam no dinheiro como forma de retribuição pela luta, mas eu próprio não insisto em receber dinheiro do Estado”, lamenta Germano Xavier.
Estima-se que pelo menos 2 mil timorenses foram massacrados nos primeiros dois dias da invasão, só em Díli. Além dos militantes da FRETILIN, os migrantes chineses também foram marcados para morrer e cerca de 500 foram mortos logo no primeiro dia.
O dia 07 de dezembro marca o início da invasão indonésia, data que, após aprovação do Parlamento Nacional, passou a assinalar o Dia da Memória.
Equipa da Tatoli




