DÍLI, 01 de maio de 2025 (TATOLI) – “Eu já fui ministro da pastorícia, mas agora sou ministro do lixo. Os meus pais não tinham dinheiro para me matricular na escola, nem a mim, nem aos meus irmãos. Na altura da colonização, apenas os filhos dos Liurai e dos líderes locais é que tinham o privilégio de frequentar a escola”, conta Rui Carvalho, de 63 anos, funcionário do Serviço Municipal de Água, Saneamento e Ambiente da Autoridade Municipal de Díli.
Enquanto amontoa as folhas caídas das árvores do Jardim do Farol, explica que, durante anos a fio, foi pastor: “Tentava domesticar as ovelhas, alimentava-as, e, no fim do dia, resguardava-as. Sempre zelei pelo bem estar delas. E essa, essa foi a minha escola, o meu ministério”.
Rui Carvalho nasceu em Ermera no seio de uma família de oito irmãos, “que Deus lhes dê o eterno descanso. Morreram nas mãos dos militares indonésios”. Atualmente, vive na capital, mais propriamente no suco de Fatuhada, com a sua mulher, zeladora na Igreja de Santo António, em Motael. Fruto do amor que os une, o casal teve seis filhos: “dois já faleceram, três estão casados e a mais nova é solteira”. Para gáudio familiar, juntaram-se cinco netos.
Em 1972, Rui viu-se obrigado a deixar Letefoho, em Ermera, para se mudar para Díli. “Naquela época, aquando da colonização portuguesa, todas as pessoas tinham de pagar um imposto, mas para ter dinheiro para o pagar, era preciso trabalhar”, recorda Rui.
“O meu primeiro trabalho oficial, naquela que hoje é a nossa capital, foi em casa de malaes [estrangeiros] a lavar roupa. A mim foram-se juntando outros familiares que trabalhavam na cozinha”, contou, acrescentando que Díli, na altura, era uma zona rural e a maioria das casas eram feitas de folhas de palma.
O sexagenário, que testemunhou três grandes épocas da história do país, lembrou que, aquando da invasão indonésia e durante alguns anos pós-independência, trabalhou “nas obras”. A sobrevivência prevalecia, o cansaço suplantava-se.
Atualmente, e desde 2011, trabalha no Serviço Municipal de Água, Saneamento e Ambiente da Autoridade Municipal de Díli . A sua vida é recolher lixo e manter a sua zona de labuta limpa para os cidadãos.
“Todos os dias acordo às cinco horas, gosto de tomar banho e tomar o pequeno-almoço antes de sair de casa. Preciso de ter energia para encarar o meu dia. Geralmente saio por volta das seis horas e quinze minutos. Tenho de sair cedo porque vou de bicicleta para o trabalho”, refere.
Segundo Rui, todos os funcionários têm de assinar a folha de presença às 07h00. Depois, por opção dos funcionários, segue-se um pequeno ritual: rezar para pedir proteção e para agradecer as graças divinas concedidas. De seguida, cada um sai do edifício da Autoridade Municipal e dirige-se para o local onde está destacado para, tal como todos os dias, recolher o lixo que alguns escolhem deitar ao chão e juntar as folhas caducas que o vento noturno embalou.
“Antigamente recebia 115 dólares americanos, mas agora ganho 181, fruto da minha preguiça”, diz, com ironia, para se referir a uma pessoa trabalhadora que vai vendo o seu esforço reconhecido.
Apesar de o seu rendimento estar acima do salário mínimo, Rui confessa que nem sempre é o suficiente para cobrir as despesas com que se vai deparando.
“Viver em Díli é mais duro do que apanhar lixo. Tenho assistido a um grande aumento do custo de vida, nem sempre consigo comprar tudo o que a minha família precisa, nem sempre consigo honrar os meus compromissos”, confessa com um ar de desalento, carregando no olhar anos a fio de trabalho.
Rui conta-nos que é justamente naqueles “meses mais apertados” que pede ajuda ao filho mais velho, que à semelhança de milhares de emigrantes timorenses, está em Inglaterra.
“Partiu em busca de uma vida melhor, partiu para gozar do seu direito de sonhar. Sempre que preciso, envia-me cem ou duzentos dólares. Umas vezes é para enfrentar as despesas do dia-a-dia, outras é para honrar os compromissos relativos às cerimónias tradicionais familiares”, evoca, com ar triste e grato.
Rui, timorense, trabalhador, ministro do seu próprio ministério, é mais um entre os milhões que todos os dias trabalham de sol a sol em troca de um salário, muitas vezes, pouco condigno.
Hoje, 01 de maio, celebra-se o Dia Internacional do Trabalhador. Hoje é o dia do Rui e dos Ruis de todo o mundo…
Jornalista: Isaura Lemos de Deus
Editor: Rafael Belo




