Por: Dionísio Babo Soares, PhD
Quando Samuel P. Huntington alertou para um possível “choque de civilizações” em The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order (1996), e Francis Fukuyama formulou a tese do “fim da história” em The End of History and the Last Man (1992), ambos procuravam interpretar um momento de profunda transição. Com o fim da Guerra Fria, a democracia liberal parecia afirmar-se como modelo predominante, e a globalização alimentava a expectativa de uma maior convergência entre sistemas políticos e económicos. Durante algum tempo, ganhou peso a ideia de que a competição ideológica que marcara o século XX estaria em vias de resolução, ou que seria gradualmente substituída por linhas de clivagem de natureza civilizacional.
Porém, três décadas depois, o contexto internacional revela-se bem mais complexo do que se previa. A emergência da China como grande potência, a reafirmação de atores como a Rússia e a evolução de formatos como os BRICS têm contribuído para uma contestação crescente da ordem internacional de inspiração liberal, tanto no plano normativo quanto no institucional. Paralelamente, conflitos regionais persistentes, a instrumentalização de identidades religiosas e culturais e a fragmentação do consenso em torno da globalização aproximam-se, em diferentes graus, das dinâmicas que Huntington descreveu — sem que, contudo, se tenha materializado um cenário de confronto inevitável entre blocos civilizacionais.
Talvez nenhum outro responsável político tenha captado com tanta nitidez a natureza desta mutação da ordem internacional como o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Singapura, Dr. Vivian Balakrishnan. Ao intervir perante o Parlamento em 3 de março de 2025, o chefe da diplomacia singapurense advertiu que a conjuntura atual não traduz uma simples oscilação passageira no “clima diplomático”, mas antes aquilo a que, com feliz expressão, qualificou como uma geostrategic climate change: uma alteração estrutural, profunda e duradoura na arquitetura do sistema internacional. Na mesma intervenção, Balakrishnan traçou o retrato de um mundo em transição, que se desloca da unipolaridade para a multipolaridade, do livre-comércio para o protecionismo, do multilateralismo para o unilateralismo, e de uma globalização aberta para formas crescentes de hipernacionalismo – um movimento que vai, em suma, da abertura à xenofobia e de um horizonte de otimismo para um clima de ansiedade e incerteza.
Os pressupostos que sustentavam a tese de Fukuyama — a democracia liberal como ponto terminal da evolução política — foram questionados não apenas pela persistência de regimes autoritários, mas sobretudo pela capacidade de adaptação resiliente desses regimes. Ao mesmo tempo, a visão de Huntington reapareceu sob novas formulações, sem, contudo, se impor como princípio organizador da política global. Neste percurso, o que mais se alterou foi a própria estrutura do poder.
Os Estados Unidos da América, durante décadas, principal pilar da ordem internacional liberal, encontram-se hoje confrontados com uma maior contestação interna e com a necessidade de recalibrar prioridades estratégicas. O ressurgimento de correntes nacionalistas na política americana — visível, entre outros fenómenos, no movimento associado a Donald Trump — acentuou uma abordagem mais transacional e centrada no interesse nacional em matéria de alianças, de comércio e de governação global. Tal não significa um abandono da liderança internacional, mas antes a sua reconfiguração em moldes mais seletivos e condicionados pela política interna.
Simultaneamente, a ascensão da China combinou expansão económica com centralização política e ambição tecnológica, projetando um modelo alternativo de modernidade que interpela pressupostos ocidentais sobre governação, desenvolvimento e soberania. A tudo isto acresce uma profunda transformação da economia mundial. A globalização deixou de ser percecionada sobretudo como sinónimo de integração fluida, passando a caracterizar-se por fenómenos de desacoplamento estratégico, diversificação das cadeias de abastecimento e crescente relevância dos blocos económicos regionais. As medidas restritivas ao comércio aumentaram significativamente, a política industrial regressou ao centro da ação estatal e a segurança económica tornou-se indissociável da segurança nacional.
É neste contexto que o futuro da ordem internacional pode ser analisado à luz de quatro trajetórias concorrentes e, em muitos aspetos, sobrepostas, que ajudam a compreender a natureza híbrida do sistema emergente.
A primeira dessas trajetórias é a da fragmentação civilizacional, em que identidades culturais, narrativas históricas e referenciais ideológicos se afirmam como motores centrais de alinhamento geopolítico. Neste cenário, alguns elementos da tese de Huntington recuperam atualidade. O revivalismo religioso, a afirmação de diversos nacionalismos e a polarização ideológica aprofundam as divisões dentro das sociedades e entre elas. As instituições multilaterais defrontam-se com maiores dificuldades em mediar tais tensões, e a governação global tende a tornar-se mais fragmentada, mais reativa e mais sujeita a contestação.
A segunda trajetória é a da hegemonia tecnológica, em que o eixo do poder se desloca decisivamente para o controlo das tecnologias avançadas. A inteligência artificial, a computação quântica e as infraestruturas digitais passam a definir parcelas significativas da vantagem estratégica, dando origem a uma nova forma de rivalidade sistémica, centrada não apenas em territórios, mas também em ecossistemas tecnológicos concorrentes. Os Estados alinham-se não só politicamente, mas também tecnologicamente, adotando normas, plataformas e modelos de governação associados às grandes potências tecnológicas. Neste contexto, a soberania mede-se, em parte, pela capacidade computacional, pelo controlo dos dados e pela influência na definição de normas digitais.
Nenhuma destas trajetórias, porém, descreve, isoladamente, o momento presente. O que se observa é a consolidação de uma terceira trajetória, que poderíamos designar como ordem híbrida. Não se trata de um mundo organizado em blocos rígidos ou em escolhas binárias, mas de um sistema multipolar e adaptativo, em que o poder é difuso e permanentemente renegociado. É neste enquadramento que a experiência de alguns pequenos e médios Estados se torna particularmente instrutiva, na medida em que demonstra como a influência internacional pode ser construída sem recurso a dimensão territorial, a poderio militar ou a peso demográfico.
Existem, a este respeito, exemplos paradigmáticos de diferentes latitudes, como o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Singapura, Dr. Vivian Balakrishnan, que tem explicitado que a importância estratégica de Singapura, ao reforçar a sua posição como honesta e fiável, decorre precisamente da confiança que inspira.
A política externa deve aproximar-se de um jogo de mahjong: uma sucessão potencialmente infinita de rondas, em que os mesmos jogadores se reencontram, testam balizas e acumulam memória. A previsibilidade, a coerência e a reciprocidade não são gestos de ingenuidade, mas antes estratégias racionais de longo prazo que maximizam o capital de confiança e ampliam a margem de manobra diplomática para uma transformação estrutural e duradoura, assegurando relevância, preservando margem de manobra e evitando que pequenos Estados se tornem peça sacrificial entre potências rivais.
Outros exemplos, provenientes de contextos geográficos e históricos diversos, reforçam a mesma matéria. Há Estados cuja neutralidade armada, sedimentada ao longo de séculos, lhes permitiu reinventar-se como plataformas privilegiadas de mediação, sedes de organizações internacionais e promotores ativos do direito humanitário — transformando a neutralidade num ativo diplomático de primeira ordem e não numa mera abstenção. Há outros que, conjugando uma tradição de neutralidade militar com um papel ativo no multilateralismo regional e nas operações de paz das Nações Unidas, construíram uma voz respeitada em matérias como o desarmamento nuclear, a cooperação para o desenvolvimento e a proteção dos direitos humanos. Há ainda pequenos Estados que elegeram a mediação de conflitos e a cooperação para o desenvolvimento como nichos distintivos da sua política externa, tendo patrocinado, ao longo das últimas décadas, alguns dos mais relevantes processos de paz à escala mundial, por vezes entre partes que não dialogavam há gerações. E há, finalmente, aqueles que, abolindo as suas forças armadas e consagrando constitucionalmente a neutralidade, transformaram o ambientalismo, os direitos humanos e o desarmamento em instrumentos de projeção internacional, granjeando uma autoridade moral que excede largamente a sua dimensão territorial ou económica.
Aquilo que estes casos têm em comum não é o modelo — são, aliás, muito distintos entre si —, mas o princípio de recorrer a parcerias flexíveis e orientadas por interesses concretos, investir seletivamente em nichos onde podem ser credíveis e úteis, e fazer do respeito pelo direito internacional um ativo estratégico, e não apenas um valor declarado. A ordem híbrida daí resultante não elimina a fragmentação: procura geri-la. Não resolve a competição: redistribui-a. E, ao fazê-lo, reflete uma transformação mais profunda — a erosão gradual das estruturas hierárquicas que definiram o sistema internacional do século XX e a emergência de formas mais policêntricas de interação e de governação.
Olhando mais adiante, começa a delinear-se uma quarta trajetória, que interpela os próprios fundamentos tradicionais da geopolítica: a transição pós-humana. À medida que os sistemas de inteligência artificial se tornam mais autónomos e se integram cada vez mais nos processos decisórios, a natureza do poder altera-se. A questão central deixa de ser apenas quem governa, passando a ser também como se governa — e em que medida a agência humana permanece no centro desses processos. Neste cenário, a competição geopolítica poderá deslocar-se das rivalidades entre Estados para uma disputa mais ampla em torno do controlo, do enquadramento normativo e da contenção dos sistemas inteligentes. Os riscos deixarão de ser apenas militares ou económicos para se tornarem também funcionais — ligados à fiabilidade, à segurança e à responsabilização de tecnologias que operam a escalas e velocidades que desafiam a capacidade de supervisão humana.
No seu conjunto, estas dinâmicas sugerem que o mundo não está a convergir para um modelo único, nem a fragmentar-se em sistemas totalmente separados. Está a hibridizar-se — combinando formas de competição, cooperação, fragmentação e integração que desafiam os enquadramentos tradicionais da teoria e da prática das relações internacionais. A resiliência dos modelos autoritários demonstrou que a modernização económica não implica necessariamente liberalização política, ao passo que a experiência dos pequenos e médios Estados acima evocados demonstrou que a influência já não depende exclusivamente da dimensão territorial, demográfica ou militar. Em paralelo, a transformação tecnológica redefiniu a própria noção de soberania, deslocando-a, em parte, das fronteiras e dos recursos físicos para os dados, as infraestruturas críticas e a capacidade de inovação.
As implicações são profundas. A estabilidade desta ordem emergente não dependerá apenas do equilíbrio militar ou do alinhamento ideológico, mas também da capacidade de as sociedades integrarem a tecnologia de forma compatível com a confiança social, a inclusão e a resiliência institucional. Num contexto marcado pela desinformação, pela manipulação algorítmica e pela sobrecarga informativa, a capacidade de verificar factos, de preservar uma esfera pública baseada em evidências e de assegurar a transparência afirma-se como um ativo estratégico. Em última análise, o futuro da ordem internacional dependerá da forma como estas forças forem geridas, tanto no plano nacional quanto no plano multilateral. A fragmentação poderá evoluir para formas de conflito prolongado ou ser mitigada por mecanismos inovadores e flexíveis de cooperação; a tecnologia poderá fortalecer a governação e a prestação de contas ou, inversamente, erodir a responsabilização e o controlo humano.
Para as democracias, em particular, o desafio é nítido. À medida que a governação se torna cada vez mais mediada pela tecnologia, impõe-se preservar espaço para o juízo humano, a participação informada, a transparência e a dissidência legítima. Não se trata apenas de defender valores políticos, mas de assegurar as condições que tornam possível a própria escolha política. O confronto decisivo do século XXI já não se desenrola apenas entre civilizações, nem entre blocos ideológicos rígidos: manifesta-se, cada vez mais, entre a capacidade de as sociedades se ancorarem numa realidade partilhada e verificável e as forças — tecnológicas, políticas e ideológicas — que procuram fragmentá-la ou distorcê-la. É nesse confronto que se definirá, em larga medida, a configuração da futura ordem mundial.
Para os Países Menos Desenvolvidos (PMD), como Timor-Leste, esta transformação não é apenas um desafio: é também uma encruzilhada estratégica. Permanecer na periferia da nova economia tecnológica equivaleria a aceitar uma forma renovada de dependência; participar ativamente implica reorientar as prioridades nacionais e diplomáticas. A opção central, por conseguinte, não é entre alinhamento e neutralidade, mas entre irrelevância e capacidade de influência. O risco de marginalização é tanto maior quanto se recorde a advertência tantas vezes retomada em Singapura, a partir de um conhecido provérbio africano popularizado por Julius Nyerere e citado por Lee Kuan Yew: quando os elefantes lutam, é a erva que sofre. Como sublinhou o Ministro Vivian Balakrishnan ao recuperar esta citação, os pequenos Estados não podem iludirse de que ficar à margem das rivalidades entre grandes potências os protegerá do impacto das suas ações. Para estes países, a indiferença perante as movimentações das grandes potências nunca foi, nem poderá ser, uma opção prudente.
Neste contexto, Timor-Leste deverá adotar uma estratégia deliberada de posicionamento na ordem híbrida emergente. Tal exige, em primeiro lugar, investir de forma seletiva na construção de soberania digital — infraestruturas, conectividade, governação de dados e formação de capital humano — como alicerce de uma maior autonomia futura. Em segundo lugar, requer uma diplomacia de “geometria variável”, capaz de articular parcerias diferenciadas com múltiplos atores regionais e globais, em função de interesses concretos, evitando dependências exclusivas. Em terceiro lugar, implica reforçar o uso do multilateralismo não apenas enquanto princípio, mas enquanto instrumento para amplificar a voz do país, salvaguardar interesses e contribuir para moldar normas emergentes, em particular nos domínios da governação digital e da segurança marítima.
A este propósito, merece destaque uma iniciativa particularmente inspiradora para países da dimensão de TimorLeste: o Forum of Small States (FOSS), cofundado em 1992 por Singapura, Barbados e Cabo Verde, em Nova Iorque, como agrupamento informal e não ideológico de pequenos Estados, e presidido desde então por Singapura. O FOSS congrega hoje 108 países — na prática, uma parte substancial dos membros das Nações Unidas — e reúnese regularmente para debater questões de interesse comum para os pequenos Estados. Plataformas desta natureza demonstram que os pequenos Estados, quando atuam de forma coordenada, possuem massa crítica suficiente para influenciar agendas globais, reformar instituições multilaterais e defender o princípio essencial da igualdade soberana. Do mesmo modo, a participação ativa de Timor-Leste em fóruns como a CPLP, a ASEAN, a PALOP+TLUE, o g7+ e as diversas coligações de Estados insulares e de zonas costeiras em matéria de direito do mar afigura-se decisiva para multiplicar canais de influência e salvaguardar espaço político.
Mais do que limitar-se a reagir, Timor-Leste pode procurar afirmar-se como ator relevante em nichos estratégicos onde a sua experiência e credibilidade possam ter impacto — da governação dos oceanos à agenda dos pequenos Estados em matéria de tecnologia e de desenvolvimento sustentável, passando pela consolidação da paz pós-conflito e pelo diálogo inter-religioso, áreas em que o percurso nacional confere ao país uma autoridade moral genuína.
Numa ordem internacional em transformação, a vantagem não pertence automaticamente aos mais poderosos, mas, cada vez mais, aos que atuam de forma estratégica e coerente. Em última instância, a soberania no século XXI não se definirá apenas por fronteiras territoriais, mas também pela capacidade de escolher, negociar e influenciar. É nessa capacidade — e na clareza das opções políticas que a sustentam — que se assumirá o lugar de Timor-Leste na ordem mundial do futuro.




