O recente episódio envolvendo Jeca Barreto Borges, que sofreu uma brutal agressão por parte das autoridades civis de obras, é um sinal alarmante da crescente tensão entre o povo e o Estado em Timor-Leste. O vídeo que circula amplamente, mostrando a violência sofrida por Jeca, que resultou numa fratura no braço esquerdo, é um testemunho preocupante do distanciamento entre aqueles que deveriam proteger os cidadãos e os próprios cidadãos. Este triste incidente expõe não apenas a fragilidade das relações entre o povo e o Estado, mas também o abuso de poder que, numa democracia, é inaceitável.
Cada vez mais, os desentendimentos entre o povo e as autoridades têm-se tornado brutais, refletindo uma deterioração da comunicação e do respeito mútuo. O povo, por sua parte, sente-se desrespeitado e traído pelas ações daqueles que, em teoria, deveriam zelar pelo bem comum. As autoridades, enquanto representantes do Estado, têm a responsabilidade de agir com transparência, justiça e respeito pelos direitos dos cidadãos. Quando essas mesmas autoridades recorrem à violência para impor a sua vontade, como aconteceu no caso de Jeca Barreto Borges, falham não só na sua missão, mas também no princípio básico de qualquer democracia: o respeito pelo ser humano.
Em qualquer sociedade democrática, o uso da força física como meio de resolver conflitos é não só uma vergonha, mas também uma violação dos direitos fundamentais. Timor-Leste, como nação jovem e em crescimento, precisa urgentemente de um compromisso renovado com o diálogo e a resolução pacífica de problemas. O povo não pode ser tratado como inimigo do Estado, e o Estado não deve agir como opressor, mas sim como facilitador do bem-estar comum.
O filósofo francês Michel Foucault analisou o poder de forma crítica, apontando que o poder não é apenas repressivo, mas também pode ser produtivo quando usado de maneira correcta. No entanto, quando o poder se torna sinónimo de violência, como vemos neste caso, ele perde a sua legitimidade. Foucault alertou-nos para os perigos de uma autoridade que, em vez de promover o bem comum, se utiliza da força para dominar. Essa situação só leva ao aumento da desconfiança e do ressentimento entre o povo e as instituições.
Hannah Arendt, por sua vez, fez uma distinção clara entre poder e violência. Segundo Arendt, o poder legítimo é aquele que se baseia no consentimento e na colaboração, enquanto a violência surge quando o poder perde a sua autoridade. O que vimos com Jeca Barreto Borges é a manifestação da fraqueza do Estado, que recorre à violência porque perdeu a capacidade de comunicar eficazmente com o povo.
Precisamos de uma mudança urgente. Como timorenses, devemos respeitar-nos mutuamente e lembrar que a violência física nunca resolve problemas. Pelo contrário, apenas aprofunda as feridas e perpetua um ciclo de dor e desentendimento. O verdadeiro poder reside no diálogo e na construção conjunta de soluções. Para que Timor-Leste prospere, tanto as autoridades como o povo devem assumir o compromisso de parar o brutalismo e promover uma cultura de respeito e cooperação.
A luta pela independência de Timor-Leste tinha como sentido principal o respeito mútuo entre os timorenses. Este princípio fundamental deve guiar-nos na construção de uma sociedade justa e democrática.




